Viagem que transforma: conhecer lugares e culturas é um pretexto para mudanças interiores Felipe Carneiro/Agencia RBS

Gil e Luísa saiu de Curitiba em direção a Ushuaia, a cidade mais ao sul da América, na Argentina

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Gil e Luísa estão por aí, em qualquer lugar entre Florianópolis e Porto Alegre, as duas capitais mais ao Sul do Brasil. "Por aí" não é muito preciso, mas os dois viajantes também não são. E nem querem ser. Eles estão, literalmente, viajando na viagem: saíram de Curitiba em direção a Ushuaia, a cidade mais ao sul da América, na Argentina.

Estão na estrada há quase um mês, pedalando. Passaram uns dias em Florianópolis, quando deram esta entrevista. Querem chegar ao fim do continente no verão, provavelmente em janeiro. Mas nesta longa travessia, o que importa à dupla de ciclistas não é o chegar, mas justamente o aproveitar o tempo da viagem e todas as descobertas e experiências que uma vivência assim proporciona.

— Quando vocês voltam? — pergunta óbvia a minha.

Na calma e tranquilidade que os caracterizam, Gil e Luísa responderam:

— Sei lá. Quando der vontade. Pode ser daqui a um ano, ou dois. As respostas eles pretendem encontrar pelo caminho.

Desacelerar: eis o segredo!

Esta é a única data certa do roteiro dos ciclistas Gil Caruso, 27 anos, e Luísa Mouzinho, 21. Foi quando eles deixaram Curitiba, onde moram, pedalando suas bikes e levando na garupa mais de 20 quilos de bagagem cada um.

Passaram por Floripa alguns dias depois, e por aqui descansaram na casa de familiares e fizeram toda a revisão do equipamento. Já estão na estrada novamente, enfrentando frio, chuva, calor, trânsito, cansaço. Se você já está ficando com dó desses jovens, pode ir tirando isso da cabeça. Eles nunca foram tão felizes. Estão realizando um sonho. Desprenderam- se de todas as amarras ( estudo, trabalho, família, salário...) e partiram para a maior de todas as aventuras.

—Vocês estão em busca de quê? – perguntei, curiosa, já que eles não têm planos de voltar tão cedo para a antiga vida de engenheiro (ele) e estudante de Letras ( ela). Luísa responde: a viagem é muito mais do que apenas a aventura.

Além do objetivo político implícito de divulgar a bicicleta como meio de transporte – viável até mesmo para percorrer grandes distâncias –, a jornada também é uma oportunidade de discutir mais profundamente sobre o significado do tempo na sociedade de hoje.

– Pedalar é desacelerar: passar mais tempo atravessando uma distância do que se levaria utilizando meios de transporte tradicionais. É uma maneira de quebrarmos esse conceito do tempo, que rege todas as relações da nossa sociedade. Por exemplo: em uma viagem de carro, a distância a ser percorrida representa uma barreira a ser superada até que se chegue ao destino final. Já com a bicicleta, a importância deixa de ser o ponto de chegada e passa a compreender todo o percurso – explica a dublê de ciclista e filósofa.

Gil aplicou seus conhecimentos de engenheiro mecânico no projeto da viagem. Construiu ou adaptou tudo o que foi possível, com soluções caseiras. Ele costurou à mão os alforjes ( bagageiros), costurou capas de chuva e várias ferramentas que serão úteis na empreitada. Se toda a viagem prosseguir como foi neste primeiro mês de estrada, Gil e Luísa contarão com muita solidariedade por onde passarem.

Já foram convidados várias vezes para almoçar, jantar ou pernoitar, inclusive na sede do Corpo de Bombeiros, em alguns municípios. Na maioria das noites, entretanto, dormem em barracas e cozinham a própria comida – de preferência, alimentos que eles saibam qual a origem, seguindo a filosofia de viver o mais natural possível.

Para sobreviver durante todo este tempo, o casal está ministrando palestras em escolas, associações e clubes de ciclistas nas cidades onde chegam.

– A partir de nossa experiência em viagens de bicicleta, compartilhamos dicas com quem tem interesse em viajar, dando atenção às soluções simples e caseiras que desenvolvemos. Também abordamos a parte do planejamento e discutimos um pouco sobre a filosofia do pedalar – explica Gil.

Em Santa Catarina, foram vários os encontros, o que já garantiu recursos para os próximos dias. A aventura do casal pode ser acompanhada através do blog Cicloterras, que eles pretendem alimentar durante a viagem, quando for possível, já que eles não estão levando nem laptop nem celular. Eles querem, realmente, se desplugar do mundo.

No alto, a simplicidade da vida

Viajar a pé exige mais do que desejo por aventura: é preciso, também, fôlego e determinação. E isso não falta ao casal Bruno Alves, 28 anos, e Francine Prestes, 31 anos, ambos moradores de Garopaba. Eles escolheram cinco dias frios de agosto para realizar um sonho: a travessia Anitápolis-Urubici, escalando montanhas, fazendo a própria comida e dormindo em barraca com o mínimo de conforto. E eles garantem que esta não foi a última vez. Ao voltarem, já começaram a programar a próxima aventura.

O que move estes jovens? Superação é a palavra-chave. A bartender Francine explica:

— Enfrentar nossos medos e inseguranças nas caminhadas e escaladas nos torna pessoas mais fortes e decididas em nossa vida pessoal e no cotidiano. Reflete em nossa personalidade como um todo. Começamos a encarar a vida de outra forma: assim como numa trilha, aprendemos a lidar com os obstáculos, aceitando que nem sempre tudo sai como o previsto. Aprendemos com os erros a ter paciência e cautela durante a caminhada.

Segundo Francine, na trilha as pessoas percebem a vida de uma outra forma. Simples e perfeita.

— No meio do mato, nada superficial importa. Não importa quanto de dinheiro você carrega, se é bonito ou feio, se é rico ou pobre... O que vale é sua relação com a natureza, com o companheiro de viagem e com você mesmo.

Bruno é alpinista desde 1998 e, por isso, as travessias por montanhas ele tira de letra. É proprietário da Garopaba Vertical, uma pequena empresa que tem por objetivo divulgar o alpinismo na região.

A travessia Anitápolis a Urubici era um sonho antigo.

— A cada desafio noto que fico mais forte e determinado para realizar grandes feitos. Me dá mais coragem de enfrentar os obstáculos impostos pela vida. Ainda quero escalar montanhas maiores, como o Aconcágua e o Kilimanjaro. Minha vida é estar nas montanhas. É lá que me sinto a pessoa mais feliz do mundo.

O mundo ficou pequeno

Eram 15h do dia 23 de dezembro de 2009 quando Roy Rudnick e Michelle Weiss, após 1.033 dias na estrada, chegaram novamente em casa, em São Bento do Sul, no Norte catarinense. A bordo de uma Land Rover, apelidada carinhosamente de "Lobo da Estrada", eles percorreram 160.733 quilômetros por terra (sem contar os longos trechos por mar ou ar), em uma fantástica volta ao mundo.

A trip começou em fevereiro de 2007. No caminho, paisagens exuberantes, imprevistos e a oportunidade de uma grande mudança de vida, interagindo com as mais diferentes pessoas dos 60 países por onde passaram.

— Aconteceu, sim, uma grande mudança em nossas vidas. Não somente após a viagem, mas, principalmente, durante ela. Por termos ficado tanto tempo na estrada, isto deixou de ser uma viagem, e passou a ser a nossa realidade. Essa mudança, acreditamos nós, foi uma das maiores recompensas. Ou seja, é isso que levaremos para o resto de nossas vidas — conta Roy Rudnick, administrador, pós-graduado em Marketing e Finanças, músico há mais de 25 anos e adepto do off-road, tanto sobre motos como em veículos 4×4.

Michelle, arquiteta e urbanista em São Bento do Sul e apaixonada pela natureza, conta que foi com Roy que descobriu sua paixão pela aventura.

—Procuro viver intensamente cada momento, pois eles são únicos. A vida é única. Nós partimos em busca da aventura, mas encontramos, por acaso, algo que foi muito superior a ela: a oportunidade de mudança de vida. Esses foram nossos momentos de serendipity, isto é, algo de bom, de maravilhoso que nos aconteceu, sem que esperássemos por isso — explica Michelle.

Roy acrescenta que a mudança mais importante está relacionada à simplicidade.

— Aprendemos que a felicidade está mais lincada às experiências do que aos bens materiais. E estas foram muitas ao longo de 1.033 dias ao redor do mundo. Mas acreditamos que o que mais nos emocionou foram os encontros com comunidades remotas de alguns países do Oriente. Existem pessoas muito diferentes de nós, não falando apenas do aspecto externo, de sua cor ou fisionomia. Mas pelo seu jeito de pensar, agir e ser.

De volta ao Brasil, o casal decidiu continuar o projeto Volta ao Mundo, com a elaboração de três produtos: exposição fotográfica, palestras e livro, através dos quais estão conseguindo, de uma forma mais intensa, compartilhar o que viveram.

A exposição fotográfica foi feita em diversas cidades de Santa Catarina e São Paulo, especialmente em shopping centers e, a partir daí, foi criado um foto-livro que retrata na integra o que é exposto. As palestras acontecem em universidades e empresas, e possuem um enfoque muito ligado à busca e concretização dos sonhos, tratando desde a fase do planejamento até as experiências mais marcantes que aconteceram na Volta ao Mundo.

O casal dedica-se agora ao livro Mundo por Terra, onde descrevem, em 360 páginas, tudo sobre a grande viagem. A obra está em fase de revisão e diagramação e tem previsão de lançamento para final de outubro deste ano.

>>> Esta matéria está na edição impressa do Diário Catarinense de hoje. Confira a versão completa do jornal AQUI

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