Wladyslawa Wolowska Mussi foi por pelo menos 15 anos anos a única médica em Florianópolis  Daniel Conzi/Agencia RBS

Foto: Daniel Conzi / Agencia RBS

Ela ocupava a cadeira número 9 da Academia de Medicina de Santa Catarina e foi, na década de 1940, a única médica de Florianópolis. Antes de chegar à Capital, morou em Orleans e Laguna, onde despertou desconfiança dos moradores. Como podia uma mulher ser médica? Wladyslawa Wolowska Mussi sempre foi associada a pioneirismo. Morreu no último sábado, com 101 anos, em Florianópolis, vítima de complicações cirúrgicas, depois de fraturar os dois fêmures.

A descendente de poloneses concluiu o curso de medicina aos 23 anos. Na turma de faculdade, em Curitiba, eram apenas duas mulheres, ela e uma colega.

Nascida em Murici (PR), Wladyslawa veio morar em SC para acompanhar o marido, que conheceu durante a faculdade, o médico lagunense Antonio Dib Mussi. Os dois chegaram ao Estado dois dias depois do casamento.

Um prenúncio da felicidade. Foi assim que a médica definiu sua chegada aqui, em uma entrevista que deu ao Diário Catarinense, em 2008. Nas palavras da dona doutora, como era chamada, era um belo domingo de junho de 1935, quando desceu do navio no Miramar. A cidade estava enfeitada para a procissão de Corpus Christi e as casas ao redor da Praça XV estavam com as janelas cobertas com toalhas bordadas e muitas flores.

As imagens da médica Wladyslawa Wolowska Mussi

De Florianópolis, ela e o marido seguiram para o Sul do Estado por terra. Moraram em Laguna e depois em Orleans. Em 1946 mudaram-se para a Capital, onde teve um consultório e dedicou-se à saúde pública, como ginecologista e obstetra. Parou de trabalhar aos 70 anos, para se aposentar.

A jornada dupla das mulheres já era conhecida por ela. Antes de sair para o trabalho, definia com a empregada as tarefas do dia e encontrava tempo para auxiliar os três filhos nos deveres escolares. Aos 48 anos, enfrentou um triste golpe: a morte do marido. A partir dali, trabalhou ainda mais para sustentar a família. 

— Minha mãe era o centro propulsor, ela era um exemplo da família, porque ficou viúva muito cedo. Os valores dela eram de ética, de moralidade, de trabalho. Ela imprimiu esses valores muito fortemente. Era uma liderança agregadora — define a filha Zuleika Lenzi.

A médica foi sepultada no último domingo, no mesmo túmulo do marido, no cemitério do Bairro Itacorubi. Ela caiu em casa, na última terça-feira, fraturando os dois fêmures. Wladyslawa deixa três filhos, oito netos e três bisnetos.

Desembargador nasceu pelas mãos de Wladyslawa

Quando o desembargador aposentado Norberto Ungaretti comemorou 70 anos, ganhou um discurso da doutora Wladyslawa em sua festa. Aquele senhor, que celebrava sete décadas de vida, veio ao mundo pelas mãos dela no ano de 1936, três anos depois de Wladyslawa receber o diploma de médica.

— Uma coisa raríssima alguém fazer 70 anos e ter na sua festa a sua parteira. Tenho 76 anos e minha parteira viveu para me ver com essa idade — conta o desembargador.

Foi um voto de confiança do avô de Norberto que fez que com que a mãe do desembargador fosse paciente de Wladyslawa, que era ginecologista e obstetra. A médica morava em Laguna, cidade pequena, e a população tinha uma desconfiança por ela ser mulher e muito nova. 

— Meu avô era médico já velho na cidade, e sugeriu que minha mãe fizesse o pré-natal com ela, pra prestigiar a colega. Ela acompanhou tudo, até o meu nascimento —relembra.

O desembargador aposentado conta que surgiu uma relação de amizade entre ela e a família. Wladyslawa sempre foi grata ao avô dele pela confiança e a mãe de Norberto muito agradecida a ela, pelo trabalho bem feito. 

— Era uma mulher de grande valor, foi uma pioneira. Era de fibra, ficou viúva moça, e encaminhou bem os filhos, com grande liderança e firmeza. Era uma pessoa de atuação social. Mulher inteligente e muito simpática — afirma.

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