Bicicletas fantasmas servem de homenagem para ciclistas mortos e alerta para os perigos no trânsito Jessé Giotti/Agencia RBS

Última bicicleta foi em homenagem ao aposentado José Lentz Neto, no fim de agosto

Foto: Jessé Giotti / Agencia RBS

Santa Catarina registrou de janeiro até o final de agosto, 90 acidentes de trânsito com ciclistas. Vinte deles foram fatais, segundo levantamento da Polícia Militar Rodoviária. Sete vítimas receberam homenagens do movimento Bicicleta Fantasma (surgiu em 2003 nos Estados Unidos). Cinco na Capital, uma em Biguaçu e outra em Blumenau.

São bicicletas pintadas de branco colocadas em locais próximos de onde as pessoas morreram atropeladas. O objetivo é chamar a atenção para a falta de ciclovias e ciclofaixas, principalmente em grandes cidades onde os ciclistas dividem espaço com os automóveis, ônibus e caminhões. O Bicicleta Fantasma tem adeptos em 26 países, entre eles México, Itália, Singapura, Equador, Canadá Estados Unidos e Austrália.

A bicicleta fantasma mais emblemática no Brasil, presta homenagem a cicloativista Márcia Prado, morta em 2009, em um acidente de trânsito na Avenida Paulista, em São Paulo. Tinha 40 anos e era atuante nas causas que diziam respeito aos ciclistas.

Na Grande Florianópolis seis ciclistas lembrados

Em Florianópolis, a primeira bicicleta fantasma foi colocada na rodovia SC-402, que leva para a praia de Jurerê Internacional, no Norte da Ilha. A estrutura foi exposta em agosto de 2008, no ponto em que Rodrigo Machado Lucianetti atingido por um carro. Antes disso, apenas a capital paulista e Brasília haviam registrado uma homenagem como essa.

Nos meses seguintes, setembro e outubro, a Grande Florianópolis recebeu mais duas bicicletas brancas: uma na SC-401, próximo ao trevo de Canasvieiras, no Norte da Ilha; e outra no município de Biguaçu. As duas não estão mais nos locais onde foram afixadas. A de Biguaçu, retirada pela família da vítima, Esaú Roberto de Medeiros, e a de Canasvieiras, provavelmente tenha sido roubada.

Depois disso, com as duas bicicletas colocadas também na SC-401, no Bairro João Paulo e em Canasvieiras, no início deste ano, e a colocada na quarta-feira, dia 5 deste mês, na Avenida Madre Benvenuta, no Bairro Santa Mônica, a Grande Florianópolis chegou a seis homenagens com bicicletas fantasmas. A sétima bicicleta colocada em Santa Catarina está em Blumenau e lembra a morte de Wilma Gaulke em 28 de fevereiro, atropelada por um ônibus.

De acordo com a Associação de Ciclousuários da Grande Florianópolis (Viaciclo), mais uma deve ser colocada em São José, na SC-407, em homenagem a um ciclista morto em julho, mas ainda não há previsão de data.

Veja o perfil das vítimas que foram homenageadas



:: Rodrigo Lucianetti, 34 anos - 03/08/2008

De Florianópolis, viveu a maior parte do tempo no Centro. Engenheiro mecânico, era bem-sucedido. Casado, não chegou a ter filhos. Adorava esportes e praticava diversas modalidades de forma amadora. Participou de triatlon e de Iroman. Era disciplinado com os horários de treinamento e não deixava de fazê-lo, mesmo de madrugada. Fazia questão de ter uma boa qualidade de vida e, por isso, queria se mudar para Jurerê Internacional. Sonho que realizou duas semanas antes de ser atropelado na SC-402. A ideia de ir para um bairro mais tranquilo era justamente poder correr e pedalar com mais segurança. Lucianetti morreu no domingo, dia 3 de agosto de 2008, ao ser atropelado por um Gol com placas do Rio Grande do Sul.

 

:: Rodrigo Wilmar da Costa, 24 anos - 13/09/2008


Era funcionário de um supermercado no Bairro Canasvieiras, no Norte da Ilha. No sábado, dia 13 de setembro de 2008, foi atropelado por um Fiat Marea, com placas do Rio Grande do Sul, na SC-401, próximo ao trevo de Canasvieiras. Ele estava de bicicleta e transitava pelo acostamento quando foi atingido pelo veículo. Costa chegou a ser socorrido, mas não resistiu.



:: Esaú Roberto de Medeiros, 42 anos - 06/10/2008

Natural de Braço do Norte, no Sul do Estado, morava em Biguaçu. Todos os dias pedalava 15 quilômetros para ir ao trabalho em São José. No fim de semana, também não largava o veículo. Sua diversão era participar de pedaladas com os amigos. Morreu no dia 6 de outubro de 2008, ao ser atropelado na BR-101, em Biguaçu.



:: Hector Cesar Galeano, 54 anos - 03/01/2012

Ele era nascido na Argentina, tinha visto para morar no Brasil e residia na Praia de Canasvieiras. No dia 3 de janeiro deste ano, Galeano trafegava pela ciclofaixa quando foi atingido por um Peugeot 206, na SC-401, próximo ao trevo de Canasvieiras, em Florianópolis.

 

:: Emílio Delfino Carvalho de Souza, 21 anos - 05/02/2012

Veio de São Paulo para Florianópolis. Estava no 2º ano de Medicina na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Dividia o tempo entre os estudos e a prática de esportes. No domingo, 5 de fevereiro, foi atropelado na SC-401 quando ia de bicicleta para um churrasco, em Ingleses, no Norte da Ilha.

:: Wilma Gaulke, 61 anos - 29/02/2012

No dia 29 de fevereiro deste ano, às 6h, ela despertou cheia de planos. Tomou o café da manhã, mimou os três cãezinhos, as galinhas e as codornas do quintal, contemplou a imponência dos antúrios vermelhos no jardim da casa 5.861 da Rodovia Guilherme Jensen. Montou na velha bicicleta e encarou a rodovia. Dona Wilma costumava caminhar pelo Bairro Itoupava Central, em Blumenau, onde foi morar depois que casou, aos 25 anos. Mas as dores na coluna lhe fizeram mudar os planos. Todas as manhãs ia até a Praça Alberto Liesenberg, ao lado da Escola Número 1. Usava os aparelhos do parque para se manter em forma e ajudar a controlar os níveis de colesterol. Ao sair do parque, às 6h55min, ela foi atropelada por um ônibus da linha 109 que manobrava para cruzar a rodovia e fazer o contorno rumo ao Terminal do Aterro.

:: José Lentz Neto, 60 anos - 31/08/2012

Por 42 anos, foi servidor da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Ele era técnico-administrativo de Desenvolvimento e trabalhava na Central de Documentação. No dia 31 de agosto, morreu após ser atropelado quando voltava para casa, de bicicleta. Era o último dia de trabalho. Tinha acabado de se aposentar. A bicicleta, por sinal, passou a integrar a vida do trabalhador depois que fez uma cirurgia de redução de estômago há alguns anos. Buscava qualidade de vida. Lentz Neto morreu atropelado por um motociclista, na Avenida Madre Benvenuta, em trecho onde deveria ter uma ciclovia. Na manifestação, no dia 5, Kátia Maria Lentz, que foi casada 35 anos com José, disse que a bicicleta deveria ficar lá como homenagem e para servir de alerta para os problemas de mobilidade urbana.
DIÁRIO CATARINENSE
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