Atriz que será brasileira traficada em novela se baseou em Órfãos do Brasil Raphael Dias/TV Globo/Divulgação

Personagem Aisha, interpretada por Dani Moreno, irá em busca das origens

Foto: Raphael Dias / TV Globo/Divulgação

Os Órfãos do Brasil terão um rosto na próxima novela das 21h, da Rede Globo. Na novela Salve Jorge, a atriz Dani Moreno interpretará Aisha, levada do Brasil recém-nascida e entregue a uma família da Turquia. Na novela, a jovem, que tem entre 25 e 28 anos, decide investigar as próximas origens, desafiando os pais adotivos.

  Confira o áudio da entrevista com a atriz

No processo de pesquisa e construção da personagem, Dani Moreno se baseou nas histórias reais e teve entre as referências a série Órfãos do Brasil, do Diário Catarinense, que relatou as histórias de catarinenses traficados para Israel na década de 1980. A atriz, que veio do SBT e estreia na Rede Globo, tem a consciência da dimensão do tema. Em entrevista ao DC, por telefone, na quinta-feira, Dani contou que soube das reportagens por indicação da autora da novela Glória Perez, como se emociona com o assunto e relata como é trabalhar com uma questão tão delicada.

Diário Catarinense —  Como foi a preparação para a novela?
Dani Moreno —
 Ainda não foi, é uma preparação constante porque é uma personagem com um objetivo bastante forte, de denunciar o tráfico de bebês. Mas desde maio, quando fiquei sabendo da personagem, comecei primeiro entrando na cultura turca, para formar a cultura da personagem, e depois comecei a me aprofundar. Conversei com pessoas adotadas, com pessoas que foram traficadas. Li muito sobre o tráfico, sobre adoção, enfim, fui buscando, é uma coisa que ainda não parou. A equipe da Globo me forneceu bastante material nesse sentido.

DC —  Você chegou a acompanhar a série Órfãos do Brasil? Como soube da série?
Dani —
  Fiquei sabendo pelo twitter da Glória Perez e ela mandou o link para os envolvidos com o tráfico na novela. Eu vi, também postei no twitter as reportagens de vocês, achei incrível. Gostei bastante porque me lembrou do documentário The Girls from Brazil, de meninas traficadas na infância que vêm em busca da família. Da série, o que mais me ajudou foram os depoimentos. É interessante como, no final das contas, o sentimento entre eles (os órfãos) é o mesmo. Eles têm a mesma dor, a mesma vontade de busca e isso foi extremamente importante para eu construir a personagem.

DC —  Você se identificou com algum personagem da série, pretende se basear em algum deles?
Dani —
  Tento me distanciar para não usar muito a história de uma pessoa. Como a novela é uma obra aberta, a gente não sabe o que pode acontecer daqui a 30 capítulos. Então, se eu pego alguém como referência, lá para frente isso muda completamente e eu acabo ficando perdida. Mas é muito legal porque vocês já estão abrindo caminho para a personagem.

DC —  Você comentou que conversou com pessoas traficadas. Como você chegou a essa pessoa?
Dani —
 Pessoalmente, eu conversei com uma só, uma garota que foi traficada para a França com 15 dias, como a minha personagem. Foi muito rico conversar com ela sobre isso. Ela não sabe de qual Estado do Brasil ela saiu, ela não tem referência alguma, de nada. Todos os documentos são falsos, os pais adotivos não falam sobre isso, então, é bem complicado.

DC —  Como é interpretar uma personagem que mexe com histórias reais e envolve um assunto tão delicado?
Dani —
  Gosto muito de fazer personagens com objetivos além da dramaturgia. Conto para as pessoas ao meu redor que existe o tráfico humano e elas acreditam que é uma lenda urbana, que isso não existe. É uma coisa que ficou quase um mito. Para mim, está sendo incrível poder contar uma história em uma personagem que fala de milhares de pessoas. Vou poder ajudar porque vai abrir os olhos de quem acha que é uma lenda e pode abrir caminho para o contato dessas pessoas com a família biológica. Vai além do nosso trabalho e isso me deixa muito feliz.

DC —  A série Órfãos do Brasil está entre os finalistas do Prêmio Esso de Jornalismo. Você faz ideia da repercussão que o assunto pode ter na ficção?
Dani —
  Isso é ótimo porque a gente vai poder aliar o trabalho jornalístico com a dramaturgia, isso vai ser incrível. A gente vai conseguir fazer um trabalho muito maior e envolver muito mais pessoas.

DC —  Você acha que, com a novela, será possível promover mais reencontros entre as famílias envolvidas no tráfico de bebês?
Dani —
  Não tenho dúvidas. A novela toca o povo brasileiro de maneira muito lúdica, mesmo tratando de assunto tão sério. Eu lembro que tem até um garoto de Israel que sabe quem é a mãe biológica e ela não quer encontrá-lo (o caso foi retratado na série Órfãos do Brasil). Acho que até em uma situação como essa a novela vai ter uma função crucial para amolecer o coração dessa mãe, por exemplo. Ela vai poder ver na minha personagem o que o filho dela pode ter passado. E acredito também que muitas mães vão começar a gritar "eu doei meu filho" ou "tiraram meu filho de mim e gostaria de conhecê-lo" e isso é uma coisa que vai acontecer, é fato. 

DC —  Como você acha que vai ser a aceitação do público com a sua personagem?
Dani —  Acho que vai ter controvérsias, a princípio. Porque muita gente que está acompanhando o processo de gravação que já falou "mas você é muito ingrata com seus pais adotivos, eles cuidaram de você, te deram o que podiam". E outros dizem "você está certa, tem que ir atrás das suas raízes". Então, o "problema" da Aisha é que ela foi criada por uma família que deu de tudo, inclusive amor e carinho. Acho que algumas pessoas que vão assistir vão ficar com um pé atrás. Acho que vai ter gente que vai dizer "fica aí, menina, você mora em um palácio, seus pais te amam".

DC — Se você fosse uma dessas órfãs, o que você faria?
Dani —
  Eu acho que teria um nível de revolta dez vezes maior do que ela, não por ser adotada, mas por descobrir o tráfico mais tarde. Acho que eu não teria paciência, muito menos carinho, por mais que eu tivesse sido criada com todo amor e com tudo o que eu quisesse. Acho que é da minha natureza ser mais revoltada, no sentido de "não esconde nada de mim porque eu vou e acho" e faço acontecer. Acho que seria de mim mesmo sair pelo mundo e procurar pela minha família, por mais que eu não tivesse pista alguma.

Confira as reportagens de Órfãos do Brasil.

DIÁRIO CATARINENSE
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