Defesa tenta reverter processo de extradição de alemão preso pela Interpol em Florianópolis Divulgação/Polícia Federal

Hartmut Müller foi julgado em dezembro de 2011 pela Justiça alemã por fraude financeira

Foto: Divulgação / Polícia Federal

Uma equipe de advogados vai nesta quinta-feira a Brasília tentar reverter o processo de extradição do pesquisador alemão e pós-doutor em matemática preso pela Interpol em Florianópolis. O processo foi solicitado pelo governo alemão ao governo brasileiro em 3 de setembro. O relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF) é o ministro Luiz Fux. Segundo a assessoria do STF, a data de análise do processo de extradição ainda não está definida.

Acostumado com bons restaurantes e a companhia de professores de renome, Hartmut Erwin Horst Müller, 48 anos, está bebendo água da torneira em uma unidade prisional de Florianópolis. Na vizinhança, criminosos autores de assalto e homicídios, entre outros delitos. Condenado pela Justiça alemã por como autor de um golpe milionário na Europa, Müller foi transferido para a cadeia após ser preso na Ilha, terça-feira, pela Interpol.

O professor — julgado em dezembro de 2011 por fraude financeira, na qual teria lucrado 4 milhões de euros (equivalente a R$ 11,5 milhões) — está detido na Central de Triagem do Estreito desde a tarde de terça-feira. A Central é conhecida por sua superlotação crônica e condições precárias.

O alemão está sozinho numa cela com banheiro e dormindo com roupa de cama levada por conhecidos. Para comer, recebeu uma quentinha igual à dos outros detentos que aguardam julgamento. Müller não fez nenhum pedido especial. Fala pouco, domina algumas palavras em português e se comunica com agentes penitenciários em inglês.

Na parte da manhã desta quarta-feira, recebeu visita da advogada, no parlatório. À tarde, sua namorada italiana foi visitá-lo com um tradutor. O casal não se encontrou. A mulher levou creme dental, papel higiênico, espuma de barbear e detergente de louça.

De acordo com um integrante da equipe de advogados de São Paulo contratada para defender Müller — que preferiu não se identificar —, o professor teria recebido convite de um empresário catarinense na área da tecnologia para testar seu projeto de transmissão de dados para bancos em SC.

Segundo esse advogado, o professor havia nomeado um parceiro, que acabou vendendo seu projeto para o mercado europeu sem seu consentimento, e este parceiro teria ficado com os 4 milhões de euros.

De acordo com a defesa dele, Müller entrou no processo como testemunha, mas acabou virando réu e não teria tido direito de defesa. Müller seria um professor renomado e teria no currículo aulas em universidades da Alemanha e Rússia. Segundo a defesa, a ideia é que Müller comprove a validade de seu projeto na Justiça para então comercializá-lo no Brasil e outros países.

Autor de golpe milionário vivia na Lagoa da Conceição

Müller morava em uma cobertura na Rua Manoel Severino de Oliveira, na Lagoa da Conceição, Leste da Ilha. Ele estava chegando em casa em um carro BMW branco, nesta segunda-feira pela manhã, quando seis agentes da Polícia Federal (PF) de Santa Catarina deram voz de prisão.

O delegado da PF/SC e representante da Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) em SC, Gerson Luiz Muller, contou que a Interpol na Alemanha expediu uma difusão vermelha para a Interpol no Brasil. Esta é uma espécie de alerta para prender com fins de extradição, enviado para os 188 países membros da organização, no mundo. A informação era de que o estelionatário estrangeiro, condenado em dezembro de 2011 pela Justiça alemã, estaria morando em Florianópolis.

Müller foi condenado por estelionato porque teria vendido, desde 2006, a órgãos governamentais e grandes companhias privadas de países como Alemanha, Rússia e Chipre, um projeto de segurança de transmissão de dados. As informações do projeto seriam inexistentes. Mesmo assim, ele teria recebido, em parcelas, um total de 4 milhões de euros (equivalente a R$ 10,5 milhões) para desenvolvimento de uma teoria científica infundada relacionada a tecnologia de segurança para serviços bancários online.

Mesmo em greve, quatro agentes federais começaram a investigar o paradeiro do foragido. Eles tinham uma foto do alemão. A primeira linha de investigação apontava que Müller estaria residindo na Barra da Lagoa.

Em seu depoimento à Interpol/PF/SC, o pesquisador negou o crime, alegou ser vítima e disse que uma empresa não autorizada vendeu seu projeto. De acordo com o delegado Gerson, o alemão assumiu a autoria do projeto e contou que estava tentando vendê-lo para grandes companhias brasileiras, principalmente empresas exploradoras de petróleo.

Prisão de alemão gera ocorrência na PM

Vizinhos de Hartmut Müller assistiram a prisão do morador estrangeiro. Como os policiais federais estavam com roupas e viatura descaracterizados; e por causa dos últimos assaltos no bairro, os vizinhos acharam que Muller e a companheira estavam sendo sequestrados. Imediatamente um deles acionou a Polícia Militar.

O morador contou para a PM que um casal de americanos tinha sido sequestrado e os bandidos haviam fugido com os reféns. A ocorrência foi gerada com prioridade.

O comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Araújo Gomes foi acionado e na hora enviou duas viaturas do Batalhão de Choque, unidade especializada da PM, além de ir pessoalmente verificar a ocorrência.

Os procedimentos de praxe foram tomados. Todos os batalhões foram comunicados e a PM já estava tomando providências para fechar a ponte quando tudo foi esclarecido.

Uma das viaturas do Choque acabou se envolvendo em um acidente de trânsito com uma camionete Hilux. Ninguém se feriu e a viatura está baixada.

Na avaliação da PM, o morador agiu certo porque tentou ajudar alguém supostamente em apuros. Na avaliação da PF, a PM agiu corretamente porque foi prontamente atender uma ocorrência que poderia ser real.

DIÁRIO CATARINENSE
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