Pedras serão tombadas como patrimônio cultural Roberto Scola/Agencia RBS

Segundo o conto de Peninha, as pedras representam bruxas que foram petrificadas durante um baile

Foto: Roberto Scola / Agencia RBS

Famosas pela beleza e fascinantes pela história, as pedras que estão sobre as águas da baía do Bairro Itaguaçu serão tombadas como patrimônio histórico e cultural de Florianópolis. A intenção do prefeito Cezar Souza Junior é iniciar o processo de tombamento nos próximos meses. Com ele, as pedras terão garantidas a continuidade de sua memória e de seu valor cultural. Como tantas outras histórias misteriosas que rondam a Capital, seriam as bruxas que tornaram tamanho reconhecimento possível? Há pesquisadores que acreditam na veracidade dos contos bruxólicos.

A transformação de Florianópolis, que completa 287 anos de fundação amanhã, em ilha da magia ou mesmo em ilha das bruxas começou por volta do século 18 quando os imigrantes vindos da região dos açores trouxeram na bagagem algumas particularidades culturais como as bruxas, os encantamentos, os pactos com o demônio e as crendices. Passados três séculos, os contos resistem e encantam até hoje. Histórias que são muito respeitadas e que mexem com a imaginação e o sentimento dos ilhéus.

Tão complicado como compreender uma história recheada de magia é entender como nasce uma. Mas a do baile das bruxas de Itaguaçu é simples. O próprio autor conta como e quando ele criou o conto. Gelci José Coelho, o Peninha, é um dos principais entusiastas da cultura popular catarinense e estudioso das obras de Franklin Cascaes. Conhece todas as fábulas da ilha e de tanto ler e ouvir sobre elas, criou uma e sem querer transformou a região que logo após a história ficar famosa nacionalmente, ganhou reconhecimento, foi urbanizada e hoje é uma das áreas mais valorizadas da cidade.

— Aquilo (o Bairro Itaguaçu) era um despachódromo, um lugar asqueroso. Depois que ganhou uma história, a prefeitura colocou deques, instalou uma placa contando sobre o baile das bruxas, disponibilizou bancos com poemas, o lugar se transformou, taí um dos poderes das bruxas — diz Peninha.

Sem cerimônias, o pesquisador afirma que tal transformação das bruxas em pedras nunca existiu, ele inventou quase que um momento de brincadeira inspirado nas histórias de Cascaes e que tudo não passa de folclore.

— Penso que as histórias sobre bruxas e lobisomens eram contadas para frear as pessoas, como uma mãe que contava um conto para um filho não sair à noite e passaram de geração para geração, são folclores e é difícil saber o que de fato aconteceu e o que é mito. Mas o baile das bruxas, este eu posso afirmar que é um conto porque fui eu mesmo que inventei — conta.

Conheça a história e saiba como ela surgiu

"Na década de 1990 quando a TVCOM se instalava em Florianópolis, ela estava selecionando equipes de jornalistas para trabalhar. Os candidatos tinham que apresentar uma reportagem sobre uma história curiosa da cidade. Era um domingo de sol claro, quando por volta das duas horas da tarde uma jornalista me procurou, ela queria relatar a história do Boitatá do Morro do Rapa, e nós teríamos que ir até Ponta das Canas e eu morava em São José, era muito longe. Aí como era caminho perguntei por que ela não fazia sobre a história das bruxas de Itaguaçu? Ela aceitou e eu encurtei a viagem contando:

Em um sabá (assembleia de bruxas) realizado na região, elas se reuniram e uma delas, da alta sociedade contou sobre os bailes que ia no Clube 12, dos vestidos e luvas longas, da música e as outras se interessam e tiveram a ideia de fazer uma linda festa ali em Itaguaçu, o mais belo cenário da cidade, porque bruxas só gostam dos lugares mais lindos. Todos foram convidados, os lobisomens e os vampiros. Mas elas decidiram não convidar o diabo pela razão do seu imenso fedor de enxofre e pelas suas atitudes antissociais, pois ele exige que todas as bruxas lhe beijem o rabo como forma de firmar seu poder debochadamente absoluto.

A festa se desenrolava, quando uma das bruxas muito invejosa foi fofocar ao diabo sobre a festa. Ele puto dos cornos chegou até a festa e irritado transformou todas elas em pedras grandes, que até hoje flutuam nas águas da praia de Itaguaçu". A jornalista ficou contente com a história, gravamos imagens lindas do local e logo depois o assunto já era nacional.

DIÁRIO CATARINENSE
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