"Uma cidade inteligente influencia na oferta de soluções", diz pesquisador do MIT Flávio Neves/Agencia RBS

Pesquisador palestrou na terça-feira (4) sobre cidades inteligentes, em Florianópolis.

Foto: Flávio Neves / Agencia RBS

O pesquisador Praveen Subramani faz parte do grupo Changing Places do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Ele atua desenvolvendo tecnologias para baterias elétricas, redes de energia e infraestrutura urbana para sistemas de veículos elétricos.

Entre os trabalhos que liderou, destaque para a criação dos sistemas de bateria e arquitetura eletrônica para o CityCar, veículo elétrico projetado para uso urbano compartilhado. Em entrevista para o DC por e-mail, ele explica como é possível melhorar a mobilidade urbana em cidades de diferentes portes.

Diário Catarinense - O tráfego é um dos primeiros sistemas a refletir os problemas causados pelo crescimento das cidades. Como uma cidade inteligente busca soluções para este problema?
Praveen Subramani - Cidades inteligentes podem incorporar tecnologia e uma abordagem direcionada de dados para o planejamento urbano para reduzir o congestionamento e o impacto ambiental do transporte. Por exemplo, nós podemos implementar frotas de veículos elétricos e compartilhados para reduzir os números de carros na estrada e, dramaticamente, as emissões de gás carbônico. Implementar sensores na cidade permite a captura de dados em tempo real sobre como o tráfico está fluindo, os níveis de contaminação do ar, e permite aos projetistas medir os efeitos das intervenções como novas linhas de trânsito ou políticas como taxas para congestionamento.

DC - Como estas informações podem ser úteis?
Subramani - Dados sobre padrões de utilização urbana podem ajudar a melhorar uso da terra também, assim como cidades podem ser planejadas com uma mistura de abordagem que garante uma melhor distribuição dos serviços urbanos. Muitas cidades modernas são projetadas como uma rede, em que a maioria dos trabalhos e oportunidades econômicas estão em um distrito central de negócios, cercado de áreas residenciais extensas e espaçadas. Uma crescente integração comercial, residencial e zonas industriais cria uma cidade mais vibrante e produtiva economicamente. Redes de mobilidade, combinações de transporte público e estações de veículos compartilhados podem conectar estas células urbanas de uma maneira rápida e eficiente. E o mais importante: uma cidade inteligente influencia na oferta de soluções ao criar uma aproximação do planejamento urbano baseada em provas a partir do uso de informações coletadas. Ao criar um planejamento urbano e políticas baseadas em informações atuais e medições em vez de intuições ou técnicas do século XIX, cidades do futuro serão capazes de se adaptar melhor às mudanças necessárias aos seus cidadãos.

DC - É possível melhorar a mobilidade urbana sem ter grandes mudanças na sua infraestrutura? Como?
Subramani - Sim. Uma boa oportunidade para melhorar a mobilidade é a instalação de estações de bicicletas compartilhadas, que são de custo relativamente baixo e não requerem nenhuma conexão às estruturas fixas, uma vez que os quiosques podem funcionar movidos à energia solar. Essas estações compartilhadas podem ser facilmente instaladas ao longo da cidade e o número de estações pode ser pensado e ajustado de acordo com a demanda e seu uso efetivo. Isto tem sido um sucesso em cidades ao redor do mundo como Paris, Hangzhou (China) e Boston. Nova York lançou seu sistema de bicicletas compartilhadas esta semana, com investimentos mínimos na infraestrutura quando comparado à construção de um metrô ou uma linha ferroviária. Outra opção de baixo custo para melhorar a mobilidade é decretar políticas para desencorajar o uso privativo de automóveis e encorajar modalidades de baixo impacto no meio ambiente, como a caminhada e o uso de bicicletas.

DC - De que forma estas políticas podem ser implantadas?
Subramani - Por exemplo, aumentando o custo do estacionamento na área central de cidades. Esta medida tem sido eficaz como forma de reduzir o uso de carros e ampliar o uso de transporte coletivo. Dessa forma, as pessoas dirigem menos e o congestionamento diminui quando o preço da gasolina aumenta. Singapura, por exemplo, criou uma mobilidade de destaque ao unir investimento em transporte público com políticas como as de aumento de preço por congestionamento, taxas altas de importação dos automóveis e de gasolina para fazer do transporte público um meio mais barato e mais conveniente do que dirigir. Finalmente, é um fato comprovado no planejamento de transportes que expandir uma rodovia não reduz o congestionamento a longo prazo, enquanto que a quilometragem percorrida aumenta na proporção do espaço disponível. Essas pequenas mudanças como a recuperação de espaço nos centros das cidades dedicados ao estacionamento e uso de bicicletas e pedestres pode melhorar a mobilidade por um preço bem reduzido.

DC - O que significa 'mobilidade sob demanda'? Como isto pode impactar na melhora da mobilidade para as pessoas?
Subramani - É um ecossistema de compartilhamento, veículos elétricos leves desenhados e desenvolvidos para cidades no Media Lab do MIT. Utilizando a mobilidade sob demanda, usuários podem alugar um veículo mais adequado ao tipo de passeio, como bicicleta, motocicleta ou um carro compacto. Uma característica-chave da mobilidade sob demanda é que ela opera como um modelo de locação de passagem, em que o veículo não tem de ser devolvido para a mesma estação depois de alugado. Isso cria possibilidades para o uso em comunidades. Além do mais, usuários podem escolher uma variedade de veículos, o que possibilidade reduzir o impacto ambiental quando selecionam um com menos necessidade de energia. A mobilidade sob demanda pode complementar a rede pública de transporte ao oferecer conectividade aos lugares que não estão servidos desta opção e providenciando um modo flexível para pessoas que precisam percorrer um trajeto direto. Como é baseada inteiramente em veículos elétricos, não há emissão de gases e a energia consumida é dramaticamente menor devido a eficiência dos motores elétricos comparados aos de combustão interna.

DC - Quais são os casos de mobilidade sob demanda? Você acredita que este modelo é praticável no Brasil?
Subramani - Há vários sistemas de veículos compartilhados no mundo hoje, com uma variedade de modelos que incluem aluguéis para devolver na mesma estação ou em uma diferente, movidos à gasolina ou elétricos. Mobilidade sob demanda é única, porque ela incorpora veículos que são especificamente desenvolvidos para cidades, como os do Media Lab do MIT, que podem ser dobrados para reduzir o espaço no estacionamento. Nós estamos desenvolvendo um novo veículo também, chamado de Veículo Elétrico Persuasivo, que pode ser usado nas pistas de bicicleta, com a diferença de que fornece energia elétrica e proteção contra fenômenos climáticos quando necessário. O Brasil está se urbanizando rápido. O número de veículos motorizados no país cresceu 120% entre 2000 e 2010. A mobilidade sob demanda e os veículos compartilhados podem prover opções para a mobilidade urbana que são muitas vezes indisponíveis nas cidades brasileiras e contribuir para a redução do congestionamento e da poluição.

DC - Algumas cidades, como Paris, oferecem carros com essa tecnologia para alugar. Quando ela realmente poderá ser adquirida e substituir os veículos poluentes tão dominantes no nosso cenário?
Subramani - Como toda nova tecnologia, os veículos elétricos são inicialmente mais caros e vão requerer ampla adoção para que os preços diminuam. O sistema de veículos compartilhados pode ajudar, já que o maior custo inicial dos veículos é dividido entre múltiplos locatários e usuários. Além disso, o custo de recarregar um veículo elétrico é muito baixo comparado ao custo da gasolina. Atualmente, a bateria de lítio é o componente mais caro de um carro elétrico, então estamos examinando modelos de negócios para encontrar segundas aplicações para a bateria na refrigeração da rede de energia ou no consumo de eletrônicos. Além disso, é importante considerar que os veículos elétricos tornam as cidades mais inteligentes e podem melhorar a qualidade de vida nestes locais.

DC - O desempenho dos automóveis tradicionais e dos elétricos ainda é muito diferente?
Subramani - A realidade é que o veículo movido à gasolina mais moderno é robusto. Um automóvel tradicional pode dirigir milhares de quilômetros sem reabastecer, abrigar cinco passageiros e levar muita carga. A grande maioria das viagens urbanas têm duração de 10 a 15 quilômetros e envolvem um único passageiro, o que é completamente possível com um veículo elétrico. Veículos movidos a combustíveis fósseis vão continuar a ter um importante papel ao longo do século XXI, mas eles não pertencem às cidades densas, devido ao seu tamanho e impacto altamente negativo no meio ambiente. Assim que as políticas públicas começarem a incorporar taxas a cada congestionamento por uso de veículos privados, e aumentar os custos da gasolina e o valor dos estacionamentos, os veículos elétricos compartilhados serão muito mais viáveis e econômicos para as cidades.

DC - Você vive e mora nos EUA, um país onde as pessoas amam ter carros e passear com eles. Como convencê-las a deixar os veículos em casa e usar o transporte urbano deficiente ou outros meios de transporte como bicicletas, mas sem a infraestrutura necessária?
Subramani - Investimento em infraestrutura é fundamental para o desenvolvimento da economia, mas tecnologia e políticas públicas podem ajudar a catalisar este processo. A chave para reduzir o uso de automóveis privados é se deslocando com uma alternativa mais rápida, barata e agradável. Por exemplo, a BBC fez uma matéria na última temporada mostrando que São Paulo tem um trânsito que chega aos 20 quilômetros durante o horário de pico. Qualquer pessoa que trafega diariamente para seu trabalho pegaria o metrô ou outro meio de transporte para escapar daquele tipo de tráfego. Enquanto um automóvel próprio dá um certo nível de independência, ele fica entre 85% e 90% de sua vida estacionado, ocupando um espaço urbano valioso. Frotas de veículos compartilhadas podem dar às pessoas a conveniência e o conforto de um carro quando elas precisam, sem requererem muito espaço ou condições financeiras. Os aspectos sociais também são importantes, como uma das nossas últimas pesquisas indicaram. As pessoas se sentem muito mais confortáveis pedalando nas cidades em grupo. Atualmente, nós estamos desenvolvendo aplicativos para o computador e para o celular que permite às pessoas acharem amigos para pedalar durante o trajeto de trabalho e receberem incentivos para mudar seu meio de transporte, um processo que chamamos de 'pedalada social'.

DC - Florianópolis é uma ilha com muitos morros e isso é um desafio para o transporte público. Outras cidades do Estado têm muitos rios e morros, o que limita o número de alternativas viáveis. Como o transporte deve ser desenvolvido nestas cidades?
Subramani - Tecnologias como as bicicletas elétricas e veículos compactos elétricos podem tornar o ciclismo viável em cidades com morros inclinados, onde o esforço para pedalar se transformaria em algo muito fácil. Além disso, cidades da América Latina têm desenvolvido, para pedestres, meios de transporte movidos a eletricidade apropriados para subir morros, como os elevadores em Valparaíso, no Chile, e escadas rolantes em Medellín, na Colômbia. Essas intervenções melhoram a caminhada e o acesso de pedestres às cidades com terreno muito acidentado e são geralmente mais baratos do que construir rodovias. Finalmente, a chave para permitir a acessibilidade nas cidades com terreno acidentado é usar veículos pequenos. Um sedã moderno é, de longe, muito comprido para muitas cidades, especialmente em morros íngremes. Nossa aproximação com a arquitetura dos veículos permite os mesmos componentes básicos, como motores e baterias, ser adaptado à uma variedade de automóveis. Desse modo, veículos elétricos compactos incluindo microcarros, caminhões de entrega e motocicletas que podem trazer maior facilidade para manobras em terrenos complicados.

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