Moradores de Biguaçu e Antônio Carlos conservam idioma trazido por alemães Julio Cavalheiro/Agencia RBS

"O idioma é uma lembrança de meus pais, e eu quero manter essas origens. Não sou menos brasileiro por isso"

Foto: Julio Cavalheiro / Agencia RBS

"Meina nama es Leonidio Zimmermann Deutch apchtamung. Ech honn elaf kena un dofon secks schvetsa Deutch". O bilhete escrito à mão pelo senhor Leonídio Zimmermann, morador de Biguaçu de 84 anos, demonstra as rápidas transformações que ele observa ao seu redor e tanto se esforça para frear: "Meu nome é Leonidio Zimmermann, de origem Alemã. Tenho onze filhos, dos quais seis ainda falam o alemão hunsrick".

Uma pessoa natural de Berlim que encontrasse o bilhete ficaria confusa. Algumas palavras seriam conhecidas, outras lembrariam o dialeto falado até hoje na região do Hunsrück, no sul da Alemanha. Já termos como secks ("seis") e kina ("criança" ou "filho") não seriam encontrados em dicionários alemães ou brasileiros.

Zimmermann não fala em nenhum dos idiomas, mas sim numa mistura deles: a vertente abrasileirada do hunsrückisch, dialeto vindo da Alemanha há 200 anos junto com a imigração germânica e até hoje falado em regiões de SC, RS, PR e ES. Não há registro de quantas pessoas falem o idioma, mas as estimativas vão de 500 mil a duas milhões.

O dialeto é agráfo, ou seja, não existe uma forma padronizada de escrevê-lo. Fluente no alemão oficial, Zimmermann prefere usar a gramática mais parecida com a língua originária. Na versão brasileira, que retrata a forma como se fala nas colônias germânicas, os "j" viram "i", os "oü" viram "ei" e os fonemas se misturam. A pedidos da reportagem, o agricultor escreveu o bilhete nos dois formatos: o hunsrückisch original e o brasileiro.

O dialeto se diferencia dos demais devido à incorporação de fonemas e expressões de outras línguas como o italiano, o português e o pommersch (ou pomerano, ramo do alemão bastante falado na região do Vale do Itajaí). Zimmermann ressalta que, durante o Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas tentou fortalecer o nacionalismo proibindo outros idiomas - principalmente o alemão, o japonês e o italiano, inimigos do Brasil na Segunda Guerra Mundial. A mistura aconteceu naturalmente. 

— Os descendentes ficaram com medo e vergonha, porque a polícia entrava nas casas e levava ou destruía tudo que fosse alemão. Muitos passaram a falar o português nessa época. Quem para de falar até consegue retomar, mas teve gente que não voltou a ensinar a língua para os filhos depois dessa época – relembra Zimmermann.

Jornalista lança livro sobre dialeto na França

Como explica o jornalista Ozias Alves Júnior, várias expressões são compreensíveis para não falantes do idioma, enquanto algumas não se sabe mais se veio do português, do alemão ou de outra língua. Alves é autor do livro Parlons Hunsrückisch ("Vamos falar hunsrückisch"), lançado na França no mês passado dentro de uma coleção que trata de idiomas minoritários ou em fase de extinção. 

—Tenho outro texto com mais de 600 páginas escrito em português sobre o hunsrückisch, com um material mais completo, mas ele está parado na gaveta. Há muita dificuldade em se publicar no Brasil, onde a revisão e a impressão ficam a cargo do próprio escritor.

Segundo idioma

Em 2010, a cidade de Antônio Carlos se tornou a primeira do País a transformar o hunsrückisch em idioma co-oficial, ao lado do português. Santa Maria do Herval, no nordeste do RS, foi a segunda. Como não existe uma escrita padronizada, o projeto empacou num de seus principais objetivos, que era manter o idioma vivo através do ensino nas escolas básicas.

A informalidade do idioma continua tão grande que nem sequer há um consenso sobre o próprio nome dele: hunsrückisch, hunsrickisch, e até o abrasileirado hunsrik, proposto pela linguista alemã Ursula Wiesemann como forma de facilitar a assimilação. Pode-se ainda usar o termo riograndense hunsrückisch para se diferenciar o dialeto falado no Brasil daquele da Alemanha. O projeto de lei de Antônio Carlos cita apenas o hunsrückisch, com uma grafia idêntica ao original.

O secretário de Educação e Cultura de Antônio Carlos, Altamiro Kretzer, ainda era vereador quando promoveu a iniciativa. Segundo Kretzer, um censo linguístico está sendo pensado e o próximo passo deve ser a troca das placas de trânsito por sinalizações bilíngues. O ensino nas escolas, entretanto, tem se transformado num complicado quebra-cabeça.

— Como esta é uma língua não escrita, precisamos antes definir uma gramática, juntar os pedaços que estão espalhados pela região sem nenhum registro — explica Kretzer.
DIÁRIO CATARINENSE
 Veja também
 
 Comente essa história