Emergência hospitalar vai fechar em Santo Amaro da Imperatriz, na Grande Florianópolis Thomas Michel/Agencia RBS

Fernão Bittencourt mosta documento que sindicato médico enviou ao hospital determinando a redução da carga horária dos plantonistas

Foto: Thomas Michel / Agencia RBS

O Hospital São Francisco de Assis, o único em Santo Amaro da Imperatriz, vai fechar as portas da emergência na manhã deste sábado. O motivo é a falta de profissionais de saúde para cumprir plantão. A direção da instituição não quis se pronunciar, mas, em carta enviada à Secretaria do Estado da Saúde, afirmou que está impossibilitada de atender as reivindicações dos médicos. Segundo o diretor médico do hospital, Fernão Bittencourt, cerca de 1,5 mil atendimentos por mês são feitos no local.

O problema começou no dia 21 de outubro, quando Fernão Bittencourt enviou um comunicado à diretoria, prefeitura e entidades médicas sobre mudanças no atendimento do plantão. Por conta da sobrecarga dos profissionais, apenas casos urgentes ou vindos do Samu e Bombeiros seriam atendidos.

— Era um aviso, mas não tivemos como implantar isso porque não tinha enfermeiro a noite para a fazer a triagem, então atendíamos todo mundo — conta Fernão.

Quatro dias depois, o corpo médico enviou um comunicado à direção apoiando Fernão e denunciando problemas como a maternidade fechada, possíveis salas de internação sendo usadas como salas de escritório alugados para empresa e falta de enfermeiros 24 horas por dia para fazer a triagem e o atendimento — de noite, quem faz este serviço é um técnico em enfermagem. Segundo Fernão, o raio-x e o laboratório também têm o mesmo problema da triagem: falta de funcionários.

— O laboratório fecha às 16h e o raio-x às 18h e nenhum funciona fim de semana e feriado. Às vezes os bombeiros ligam falando que tem um acidentado na BR-282 e não podemos atender porque não temos raio-x. Agora demitiram o farmacêutico. É um hospital de mentira — afirma Fernão.

Segundo o segundo comunicado, os médicos dizem que há disponibilidade de horários para cumprir plantão, mas isso só ocorreria se aumentasse o salário e garantias empregatícias fossem feitas. Em uma das frases do comunicado, os profissionais dizem que não hesitariam em deixar o atendimento no hospital — ressaltando que isso não seria um pedido de demissão, uma vez que nenhum deles tinha vínculo trabalhista.

Fernão diz que o ideal seriam 14 médicos fixos, que possam fazer plantão em qualquer dia da semana, mas hoje existem apenas cinco nestas condições. Outros cinco fazem parte da escala esporadicamente.

O problema estoura justamente em Fernão, que, em outubro, fez 237 horas de plantão — para comparar, um trabalhador de carteira assinada não poderia ultrapassar 200 horas. Nos dias 13 e 14 de outubro, ele chegou a trabalhar 36 horas seguidas.

— Eu estava exausto — resume Fernão.

Internamentos de mais de um dia serão cancelados

Por conta do fechamento do plantão, as internações com mais de um dia também serão prejudicadas. Fernão Bittencourt explica que, com o fim da emergência, não haverá profissionais de saúde no período da noite para eventuais problemas com pacientes que estejam no hospital fora do horário comercial.

Ao invés de solução, administração fecha as portas

O plantão do Hospital São Francisco era custeado, em parte, por um convênio com o governo do Estado assinado em 2011. Segundo o Diário Oficial do Eletrônico, este contrato rendia mensalmente R$ 205.834,28 para a instituição.

Depois de receber as reivindicações, uma notificação do Conselho Regional de Medicina e outra do sindicato médico, o presidente do conselho de administração do hospital, Ordival Enoch da Costa, enviou uma carta à Secretaria de Estado da Saúde pedindo a suspensão do convênio de 2011.

— Ele lavou as mãos. E agora, com muita pena, teremos que fechar — disse Fernão.

Não conseguimos localizar Ordival para explicar o pedido de suspensão do convênio, mas na carta enviada à secretaria, ele alega "impossibilidade de atender as reivindicações pelo seu ônus". O diretor administrativo da instituição, Salézio José Voges, foi contatado mas não quis dar entrevista.

Último dia aberto foi tranquilo

Segundo Fernão Bittencourt, o último dia do plantão foi mais tranquilo que o normal.

— Acho que as pessoas já sabiam que iria fechar e estão indo para outros lugares.

Não foi o caso de Junior Schurhans, marmorista de 28 anos, que apareceu pela emergência pela parte da manhã. Ele não sabia que iria fechar e lamentou:

— O atendimento aqui é rápido e era bom. Agora o jeito é ir no Regional — diz Junior.

Na opinião do marmorista o fechamento é ruim, já que, além do desocamento até o Hospital Regional de São José, ele precisa enfrentar a fila do local.

— Lá geralmente fica lotado — diz.

Os moradores de Santo Amaro da Imperatriz também podem recorrer aos dois postos de saúde da cidade. Eles funcionam apenas em horário comercial e não têm capacidade para atender casos mais graves.
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