Bastidores da venda da Dudalina, um dos maiores negócios da história do setor têxtil do país Marcos Porto/Agencia RBS

Camisas da Dudalina se tornaram um novo objeto de desejo

Foto: Marcos Porto / Agencia RBS

Um dos símbolos da recente projeção da moda catarinense no Brasil e no exterior, a grife Dudalina, de Blumenau, trocou de mãos. Após uma negociação sigilosa de dois anos com os fundos americanos Warburg Pincus e Advent International, o acordo foi selado com aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e vazou no fim de semana.

Os fundos pagaram cerca de R$ 650 milhões por 72,2% do capital da companhia, um dos maiores negócios da história do setor têxtil do país. A outra parte das ações, 27,8%, continua com cinco dos 14 sócios, filhos do casal fundador, Adelina Hess e Duda Souza. A presidente da empresa, Sônia Hess, ficou com 6,31% de participação e continuará no cargo por período de três a cinco anos para manter e transferir a cultura da companhia aos novos sócios, informou uma fonte ligada à família.

A empresária foi procurada pelo Diário Catarinense, mas não deu entrevista até o fechamento desta edição. A decisão de vender o controle acionário teve duas razões principais. Uma é permitir que os 14 sócios, com idade entre 45 anos e 65 anos, alguns já com netos, possam investir mais em negócios próprios atendendo a interesses de cada família. E outra é a possibilidade de um crescimento mais acelerado da empresa nos mercados nacional e internacional já que os novos controladores têm capital e pretendem investir em marketing e expansão.

A fonte do DC negou que a motivação tenha sido desavenças entre os irmãos, como chegou a ser comentado no meio político catarinense na semana passada, quando já havia boato sobre a venda. Com quatro marcas — Dudalina, Dudalina Feminina, Individual e Base Jeans — a empresa teve valor de mercado próximo de R$ 1 bilhão pelo seu perfil de negócio: produção de camisas com design desejado e alta qualidade e forte participação no varejo com rede de lojas pequenas, mas de alta rentabilidade.

Linha feminina deu novo fôlego às vendas

O crescimento mais acelerado vem desde 2010, com o lançamento da linha feminina. Em 2012, a empresa faturou R$ 349,5 milhões e deve fechar este ano com mais de R$ 500 milhões, o que significa crescimento superior a 40%. O ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) teve alta próxima de 30% este ano. A empresa tem 93 lojas no Brasil e duas no exterior.

Os planos são chegar a 200 nos próximos anos, com mais unidades no exterior, em cidades como Zurique (Suíça) e Sidney (Austrália). Essa expansão é liderada pelo diretor comercial Ilton Rogério Tarnovski, que está sendo preparado para suceder Sônia na presidência. Pela negociação, a empresa continuará com o mesmo posicionamento de mercado, mas pretende investir em marketing e no varejo para crescer mais rapidamente. Os 2,6 mil empregos em SC e no Paraná devem ser mantidos. Valor da marca e gestão valorizados.

Valor da marca e gestão valorizados

O pulso firme no controle da empresa sempre foi a marca mais forte da camisaria. A gestão eficiente começou com a fundadora e matriarca, Adelina Hess de Souza, que cuidava pessoalmente de cada detalhe da fábrica nos primeiros anos. O comando sempre ficou nas mãos da família Hess de Souza. A forma como a filha Sônia, que assumiu a presidência em 2003, conduziu a Dudalina fez dela uma personalidade no mundo dos negócios. Em junho deste ano, foi eleita pela revista americana Forbes como a sexta mulher mais poderosa do Brasil.

Com o lançamento da linha feminina, em 2010, as camisas da Dudalina se tornaram um novo objeto de desejo. A flor-de-lis passou a ser vista no figurino de apresentadoras de telejornais como Fátima Bernardes e Ana Paula Padrão – numa certeira estratégia de marketing – e alavancou as vendas. Para Cristiano Berger, presidente do Santa Catarina Moda e Cultura, a empresa apostou na camisa feminina na hora certa, desburocratizando os modelos e coincidindo com um momento em que as mulheres se tornam cada vez mais poderosas profissionalmente.

A Dudalina também coleciona reconhecimentos com suas propostas de sustentabilidade e responsabilidade social. A própria Adelina Hess de Souza foi precursora da cultura do reaproveitamento de materiais quando, no início dos anos 1990, minimizou o desperdício de retalhos das camisas com produção de colchas e sacolas com a técnica de patchwork. Hoje o reaproveitamento se transformou em um programa maior na empresa. Essa iniciativa já evitou o descarte de 35 tonelas de tecido.

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