Madri, Los Angeles, Lisboa: Conheça os loteamentos da Grande Florianópolis com nomes de cidades estrangeiras Arte/RBS

Foto: Arte / RBS

De carro, leva-se 20 minutos para ir de Madrid a Lisboa. Com mais cinco minutos, chega-se a Los Angeles. É claro que não estamos falando das grandes cidades dos EUA, Portugal e Espanha, mas dos loteamentos de São José e Palhoça batizados a partir de importantes cidades estrangeiras. A maioria das referências se perdeu ao longo da história, porém ainda é difícil não esboçar um sorriso ao avistar os nomes em letreiros de ônibus e lojas da região.

Entre os três loteamentos, o Lisboa foi o único a entrar de cabeça na brincadeira, aportuguesando inclusive os nomes das vias em agosto de 1999: Rua do Porto, Cabo Verde, Coimbra, Açores, Bragança e muitas outras. A capela erguida na região foi batizada de Nossa Senhora de Fátima, em homenagem à aparição da santa a três crianças portuguesas em 1917.

— Esse é o único loteamento do Brasil que faz tantas referências à cultura portuguesa — acredita o presidente da Associação de Moradores do Parque Residencial Lisboa, Paulo César Jorge.

Já os outros dois guardam poucas semelhanças com as cidades padroeiras. O Madri é o mais novo dos três e goza de uma valorização constante desde a inauguração em 2005, tornando-se um ponto cobiçado em Palhoça. Os habitantes do Los Angeles, por sua vez, sentem-se abandonados pelo poder público de São José e criticam a falta de zelo com o primeiro loteamento do bairro Forquilhas:

— Vim para cá há mais de 30 anos e a situação não melhora nada, nunca — reclama Vilson Coelho, o morador mais antigo.

Semelhanças e diferenças à parte, os três loteamentos constituem uma parte cada vez mais importante na Grande Florianópolis – afinal, são quase 3,3 mil lotes abertos em áreas nada populosas até poucas décadas atrás. Enquanto parte dos moradores exigem que as regiões se tornem bairros para ganhar mais autonomia, outros estão mais preocupados em criar perspectivas à juventude local e resolver problemas de segurança e infraestrutura.

— Estamos constantemente buscando um encontro de interesses com a prefeitura — afirma Carlos Eriksson, morador do Madri.


Os jardins de Madri

Tamanho:
610 mil m²
Ano de entrega: 2005
Lotes: 1.538

 
O morador Carlos Eriksson destaca a constante valorização do loteamento, que conta hoje com área de preservação ambiental e espaços públicos bem equipados. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

Em 2002, quando o loteamento Madri começava a tomar ares de zona residencial, a esposa de Carlos Eriksson, 57 anos, comprou um terreno próximo à rua principal. Eriksson, que morava e trabalhava em Florianópolis, não gostou nada da ideia – afinal, qual o sentido de se mudar para uma região afastada, praticamente sem vizinhos, em outra cidade e longe do agito a que estava acostumado?

Cerca de 12 anos depois, a situação é muito diferente. O morador do loteamento virou o primeiro presidente da associação de moradores, deixou o cargo cinco anos depois e mantém praticamente sozinho um informativo impresso mensal e gratuito sobre a região, hoje também distribuído em comércios dos bairros São Sebastião, Alaor Silveira e Santa Anna. Depois de comprar briga com metade da cidade para conseguir melhorias, Eriksson ganhou até um apelido: "Carlos do Madri".

— Eu vou tanto na prefeitura encher a paciência deles que, quando me veem, já falam: "Putz, lá vem o Carlos do Madri" – brinca.

Segundo Eriksson, o valor de um terreno na região aumentou astronomicamente de 2002 pra cá. Inaugurado sob o rótulo de "loteamento popular", hoje é um dos poucos que possui uma área de preservação ambiental, espaços públicos bem equipados e tratamento de esgoto quase total.

— Acredito que não exista nenhum loteamento como o nosso que tenha uma área verde tão grande, embora ainda seja necessário fazer muita coisa. Nos entregaram o loteamento completinho, e quem comprou vários lotes na época ficou rico menos de uma década depois — afirma o morador orgulhoso.


Organização em Lisboa

Tamanho:
420 mil m² a primeira etapa, e 54 mil m² a segunda
Ano de entrega: 1998 e 1999
Lotes: 1.284 na primeira e 168 na segunda

 
Paulo César Jorge apresenta o loteamento que ocnta com nomes de ruas aportuguesados: Rua do Porto, Cabo Verde, Coimbra, Açores, Bragança. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

Todo dia, por volta das 7h30min, Paulo César Jorge abre os portões do Sesc Comunidade para as crianças e os jovens que fazem esportes no local. Este é praticamente o único espaço voltado à prática de esportes em toda a região e, por isso, a demanda costuma ser grande.

Além disso, frequentemente ele se junta a outros moradores para sair à cata dos dejetos espalhados pelo loteamento para evitar o acúmulo de lixo nos terrenos baldios. Quandoisso não é o suficiente, confeccionaplacas de orientação para ajudar os moradores. Se ainda assim não for o suficiente, tira fotos e manda para a prefeitura.

Assim é a rotina do presidente da Associação de Moradores do Parque Residencial Lisboa: sem paciência para aguardar uma intervenção do poder público, Paulo Jorge mobiliza a comunidade para resolver problemas mais urgentes. Morador do loteamento há 13 anos, o presidente orgulha-se das seis áreas verdes que sobreviveram à urbanização da área:

— Me apaixonei pelo Lisboa à primeira vista. As pessoas vêm para cá pela tranquilidade, pela paz, e pelos espaços bem preservados.

Algumas coisas, entretanto, ainda requerem muito trabalho. Para Jorge, a falta de oportunidades aos jovens tem sido um dos maiores obstáculos das famílias que moram ali. O Rio Forquilhas, que cruza a região, está bastante poluído e a comunidade sofre com o mau-cheiro. Em vários dos terrenos vazios podem ser encontrados sacos de lixo, aparelhos eletrônicos e até sofás.

— Buscamos estabelecer uma boa relação com o poder público, mas os moradores precisam participar ativamente nas decisões. A associação pode ter um presidente, mas todos nós somos o Lisboa — afirma.


Falta asfalto em Los Angeles

Tamanho: 172 mil m²
Ano de entrega: 1981
Lotes: 289
 
Vilson Coelho, primeiro morador do loteamento, critica a falta de preocupação do poder público com a região. Foto: Betina Humeres/Agência RBS

O habitante mais antigo do Jardim Los Angeles não anda muito satisfeito com a região. Há 36 anos, quando Vilson Coelho se mudou para lá, o primeiro loteamento planejado do bairro Forquilha sequer tinha energia elétrica. Hoje, a região cresce de maneira desordenada e os habitantes não sabem mais o que fazer para resolver problemas como a falta de policiamento, os esgotos mal planejados e insuficiência de creches e escolas.

— Uma casa na minha rua foi roubada duas vezes na mesma semana, e não temos uma única escola de Ensino Médio. Quando anunciaram o asfalto no Los Angeles, fizeram só as primeiras ruas para impressionar quem chega de fora. Aqui é assim: em dia de sol é poeira, em dia de chuva é lama — reclama.

Coelho é vizinho de Rosenei Platen, morador do Los Angeles há 23 anos e atual presidente da Associação de Moradores. Quando Platen era criança, vários parentes tinham casas na região que abriga o loteamento. Hoje, ele concorda com as críticas de Vilson Coelho, embora guarde lembranças de quando a região era praticamente um campo aberto:

— O crescimento de uma região sempre tem dois lados: todo mundo gosta de mais ônibus, comércios ou escolas, mas crescimento sem infraestrutura atrai criminalidade, problemas de esgoto, quedas na energia elétrica, sujeira. É isso que está acontecendo no Los Angeles — critica.

 
Rosenei Platten reclama dos problemas de infraestrutura do primeiro loteamento planejado do Bairro Forquilha, inaugurado há 36 anos. Foto: Betina Humeres/Agência RBS
DIÁRIO CATARINENSE
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