Santa Catarina registra a menor taxa de homicídios do país Arte DC/Agência RBS

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A notícia positiva: Santa Catarina tem a menor taxa de homicídios do Brasil, um dos principais medidores de violência pelo mundo. A realidade preocupante: furtos, roubos e latrocínios (roubos com morte) crescem nas grandes cidades catarinenses.

Ao ver o Estado figurar novamente com a menor taxa de homicídios entre os 27 Estados do país, a segurança pública deu destaque ao resultado. Mas o quadro atual ainda está longe de grandes comemorações.

Isso por causa do avanço dos furtos, roubos e latrocínios. Os assaltos seguidos de morte, por exemplo, tiveram aumento de 25% nos cinco primeiros meses de 2014.

De acordo com a Secretaria de Segurança Pública (SSP), foram 28 latrocínios de janeiro até a última sexta-feira (30 de maio), contra 21 nos mesmos meses de 2013.

Confira a síntese dos dados (clique para ampliar):

 
Outro dado de preocupação é o aumento de 30% dos furtos e roubos este ano, os chamados crimes contra o patrimônio, na comparação com o mesmo período do ano passado.

A elevação aconteceu principalmente nas grandes cidades catarinenses, diz o delegado-geral da Polícia Civil, Aldo Pinheiro D'Ávila, admitindo preocupação com o avanço desse tipo de delito. Para a polícia, o crescimento está diretamente ligado ao combate a quadrilhas e pontos de tráfico de drogas.

— Hoje o foco da Polícia Civil é conter os roubos. Houve um avanço que nos preocupa bastante. É fato que quando se combate o tráfico, o crime acaba buscando outras formas de dinheiro, um fenômeno que acontece muito no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando a polícia estoura o ponto de droga o criminoso vai para o asfalto assaltar — assinala o delegado-geral.

Essa preocupação também é compartilhada pelo secretário de Segurança Pública, César Grubba. Ampliar o número de delegacias especializadas não deverá se concretizar a curto ou médio prazo. Um dos problemas é a falta de efetivo para formar as equipes.

Embora não seja algo que aconteceu pela primeira vez, a melhor colocação no ranking de homicídios no país é destacada pelas polícias e pela SSP. Para a Polícia Civil, um dos fatores é o elevado índice de resolubilidade dos crimes, que varia de 50% a 60%.

A taxa de homicídios é o principal indicador mundial para avaliação e diagnóstico de criminalidade e violência. Segundo dados prévios do Mapa da Violência 2014, divulgados pela Área de Estudos da Violência da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (FLACSO), Santa Catarina teve taxa de homicídios de 12,8 por 100 mil habitantes. em 2012.

Neste ano em que foi realizado o estudo, houve no Estado 816 assassinatos. Ainda de acordo com o mesma pesquisa, Santa Catarina aparece na última colocação entre os Estados brasileiros desde o ano de 2010.

Essas estatísticas são feitas a partir do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. O penúltimo do ranking é o Estado de São Paulo, com taxa de 15,1 por 100 mil habitantes e o primeiro é Alagoas com taxa de 64,6 por 100 mil habitantes.

Alerta para aumento entre 2002 e 2012

Apesar de ter a melhor taxa de homicídios para cada 100 mil pessoas, SC teve um crescimento de 23,5% neste tipo de crime em um período de 10 anos (2002 a 2012), conforme o Mapa da Violência.

O professor em criminologia Alceu de Oliveira Pinto Junior alerta para esta curva ascendente ao analisar o estudo nacional divulgado na semana passada. Em 2002, a taxa de homicídios do Estado era de 10,3 por 100 mil habitantes e em 2012 aumentou para 12,8.

— O estudo tem credibilidade e mostra a ascendência de Santa Catarina ao longo desses anos. Temos que melhorar principalmente no controle de fronteira, na entrada de armas e montar uma estratégia para o combate ao tráfico de drogas. Nota-se hoje que se limpa um local e o crime vai para outro — observa Alceu.

Segundo Julio Jacobo Waiselfisz, coordenador do estudo nacional, os homicídios cresceram de forma mais moderada em geral no Brasil. Passaram de 49.695 em 2002 para 56.337 em 2012, 13,4% em números absolutos, mas considerando o aumento da população, as taxas sobem 2,1%.

Na comparação entre 2011 e 2012, as taxas de homicídio nacionais tiveram um aumento de 7%. No caso de Roraima as taxas crescem 71,3%, Ceará 36,5% e Acre 22.4%. Em cinco Estados foram registradas quedas nas taxas de homicídio, consideradas insignificantes em Espírito Santo e Rio de Janeiro e moderadas nos casos de Pernambuco, Paraíba e Alagoas.


Entrevista: César Grubba, secretário de Segurança
"Precisamos ampliar as capacidades da estrutura"


Por e-mail, o secretário de Segurança do Estado, César Grubba, falou sobre as principais preocupações da polícia e sobre a posição privilegiada de SC no Mapa da Violência

Diário Catarinense - Como explicar a boa colocação no ranking de taxa de homicídios?

César Grubba - A taxa média de resolutividade da nossa polícia nos crimes violentos (principalmente homicídio e latrocínio) é um bom indicador e certamente reflete nos resultados. Nos homicídios ela é de 62%. Nos casos de latrocínio é de 80%. Até o dia 29 de maio tínhamos 197 municípios com nenhum registro de homicídio, com apenas um nós temos 51. Com dois a 10 casos são 39 cidades e com mais de 10 apenas oito. Portanto, com homicídios são 98 municípios (33,22%). Apenas oito cidades têm mais que 10 homicídios e são justamente essas áreas críticas, o foco de nossas prioridades para as ações policiais preventivas e repressivas.

DC - O que SC precisa melhorar na segurança pública?

Grubba - É preciso ampliar as capacidades de nossa estrutura de segurança pública para que possamos alcançar os mesmos resultados em todas as frentes de combate, não só nas taxas de homicídios. Ampliar os efetivos das polícias - e isso estamos fazendo, gradativamente, com responsabilidade fiscal -, direcionar as frentes de atuação para melhorar a qualidade da resposta nas ações de prevenção e antecipação ao crime, sobretudo nos crimes contra o patrimônio (furto e roubo), que hoje é a principal preocupação.

DC - Como o senhor avalia o aumento de furtos e roubos?

Grubba - Precisamos trabalhar para alcançar em roubos e furtos a mesma taxa de resolubilidade que temos no trabalho com os homicídios. Ao mesmo tempo é preciso manter o foco em ações repressivas e efetivas contra o tráfico de drogas e o crime organizado, pois sem ação determinada sobre essas áreas corremos o risco de perder o referencial positivo com que somos hoje distinguidos, pois fatalmente o número de homicídios volta a crescer.
DIÁRIO CATARINENSE
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