Tradição de benzedeiros é preservada na Grande Florianópolis Guto Kuerten/Agencia RBS

Ilda Martinha, conhecida como tia Ilda, tem 102 anos

Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS

A disposição e a generosidade são características marcantes destes seres iluminados, de sensibilidade e compreensão cativantes. Sem ganhar nada em troca, as benzedeiras recebem diariamente dezenas de pessoas em busca de curas para diferentes tipos de problemas, os mais comuns são cobreiro, mal olhado, calor de figo e zipra.

Apesar de os benzedeiros terem surgido no Brasil no século 16, com a chegada dos jesuítas, a fé nos curandeiros permanece inabalada, como a força de suas palavras que ecoam como remédio. Em Florianópolis a tradição ainda é forte. O mapeamento mais recente sobre o número de benzedeiras na cidade, concluído em 2002 pelo Núcleo de Estudos Açorianos (NEA), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), constatou que a cidade tinha cerca de 40 benzedeiras (naquela ocasião). No litoral do Estado, o número chegava a 80.

Segundo Joi Cletison, diretor do NEA e historiador, a tradição chegou ao litoral com os açorianos.

>>> Assista ao vídeo de uma das curandeiras mais antigas da Ilha

Costume há mais de um século

O historiador lembra que há 30 anos era comum as pessoas em Florianópolis procurarem primeiro as benzedeiras para resolver as enfermidades e partirem em busca de um médico apenas se isso não funcionasse. Segundo Cletison, as comunidades mais preservadas da Capital mantêm a tradição como Pântano do Sul, Ratones e Ribeirão da Ilha.

A antropóloga Letícia Grala fez uma dissertação de mestrado sobre as benzedeiras em 2013 e, após o tempo de estudo, concluiu que a prática não vai desaparecer.

— Não é algo à toa. Vem de muito tempo. Sofreu apenas modificações em cada geração. É uma fala que cura com a intenção de fazer o bem — afirma.

Quando a crença é auxiliar da ciência

Carlos Carvalho, 51 anos, descobriu o dom para benzer aos quatro anos. Até os 12 atendeu pessoas onde morava no Paraná. Parou por motivos particulares e voltou em 2007, depois de um grave acidente.

— Minha bacia quebrou em dez lugares e tive hemorragia interna. Fiquei 26 dias internado com os médicos desejando fazer cirurgia. Foi quando recebi uma cirurgia espiritual e comecei a melhorar.

Ele afirma que no episódio prometeu voltar a atender as pessoas. Atualmente, ele recebe uma média de 100 pessoas por dia na Cachoeira do Bom Jesus.

— Sou procurado por pessoas de todas as classes sociais e religiões. Presto todo tipo de atendimento espiritual — diz.

Para o médico sanitarista e acupunturista Pedro Luiz Schmidt, muitas pessoas procuram benzedeiros porque alguns médicos não conversam o suficiente com os pacientes.

— Ás vezes o profissional não pergunta porquê dói. Recebe as informações e em menos de cinco minutos acaba a consulta com a receita de um medicamento — diz.

Para Schmidt, em determinados casos o médico não consegue falar a língua do paciente e isso dificulta o tratamento.

Por acreditar que a fé pode ajudar no processo de cura, Schmidt diz já ter encaminhado pacientes para benzedeiros e que o resultado foi satisfatório. Ele acrescenta que quando a ciência já foi até onde deveria ir e não resolveu um caso, outros conhecimentos devem ser procurados.

Pântano do Sul tem uma das curandeiras mais antigas da Ilha

Ilda Martinha Vieira, conhecida como tia Ilda, de 102 anos, é uma das benzedeiras mais antigas da Ilha de SC. A moradora do Pântano do Sul aprendeu a arte de afastar os males e aliviar as dores e sofrimentos com a mãe. Ela encanta com a forma de passar sua energia positiva e com o sotaque carregado de manezinha.

Todas as tardes Ilda sai de casa para ver novela no Bar do Arantes, no Pântano do Sul. Num cantinho especial recebe as pessoas. Mas ela atende em qualquer lugar. E a procura é grande e chega de formas inusitadas.

No encontro da equipe do DC com dona Ilda ela atendia um turista italiano, Giancarlo Cazzaro, 54 anos. De férias na Ilha, ele soube da tia Ilda durante uma visita ao Mercado Público e foi procurar atendimento.

– Não tem como explicar o que senti ao receber o atendimento dela. Não acreditava que ainda poderia encontrar alguém com esse dom – diz emocionado.

A forma como Ilda entoa as palavras remete aos mantras. Ela evoca o divino com o sinal da cruz, menciona os santos apóstolos e Jesus Cristo e depois começa uma fala mansa.

– Desde que aprendi com minha mãe e meu avô, Inácio de Oliveira, faço isso porque devo dar o que ganhei. Talvez seja um dom que recebi de Deus e eu tenha que dar o bem para as pessoas. Nunca vi Deus. Rezo muito para ele, para os santos e para os meus anjos da guarda. Todos gostam muito de mim – diz.

Fatos curiosos são corriqueiros na rotina de Ilda como a história de dois argentinos que começaram um processo de cura, mas tiveram de retornar para a Argentina. A benção então, foi finalizada pela internet.

– Eles foram embora e faltou uma das três rezas. Foi então que recebi o pedido deles para a receberem pela internet. Coloquei a imagem deles no computador ao vivo e ela encerrou a benzedura – comenta Arantes Monteiro Filho, sobrinho de Ilda.

Glossário

Calor de figo: calcanhar rachado, rachaduras na pele

Cobreiro: Herpes zóster — tipo de herpes causada quando o vírus da catapora fica incubado durante anos e se manifesta novamente

Quebrante: Uma distensão muscular que rompe fibras musculares

Zipra: Virose com sintomas parecidos com os da herpes

Fonte: Médico sanitarista Pedro Luiz Schmidt.

 

DIÁRIO CATARINENSE
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