Moradores de rua ajudam polícia a socorrer vítima de estupro em Porto Alegre Ronaldo Bernardi/Agencia RBS

Everton Soares Pereira, 35 anos, foi um dos responsáveis por avisar a polícia do estupro a tempo

Foto: Ronaldo Bernardi / Agencia RBS

Foi graças a três moradores de rua que a polícia conseguiu prender dois suspeitos de terem estuprado uma adolescente de 17 anos. Ao ouvir os gritos da vítima, dois deles foram tentar socorrer a garota enquanto outro correu à Delegacia da Criança e do Adolescente (Deca) para chamar a polícia. O caso aconteceu no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre, por volta das 23h30min de domingo.

Com um barraco de lona preta cravado às margens do Rio Guaíba, próximo ao local da ocorrência, o guardador de carros Everton Soares Pereira, 35 anos, foi um dos responsáveis por avisar a polícia do estupro a tempo. Foi ele quem ouviu os gritos de desespero da adolescente, que tentava pedir ajuda mesmo com a boca tapada pelo homem que abusava sexualmente dela.
 
— Só pensei em tirar ela de lá — contou Pereira.
 
Quando se aproximou da cena, na esperança de resgatar a garota, um dos criminosos mostrou que estava armado, e mandou que o morador de rua fosse embora. Pereira então pediu que um amigo, outro morador de rua, fosse avisar a polícia do estupro enquanto ele procurava "um pedaço de pau" para se defender.
 
— Quando você vê aquilo, só passa na cabeça salvar a menina. Ia de pau pra cima deles — relata.
 
Antes que ele colocasse em prática o plano de voltar sozinho ao local armado apenas com um galho, a polícia chegou. Um dos homens foi preso em flagrante e o outro fugiu, sendo detido pouco tempo depois.
 
— O que não estava estuprando a menina saiu correndo e atirando, mas a polícia pegou. Ajudei a carregar ela, que estava desmaiada — conta o morador de rua, que não se vê como um herói.
 
— Fiz o que todo mundo teria feito — responde com humildade o gaúcho de São Lourenço do Sul, que esta há oito anos morando nas ruas de Porto Alegre.


O morador de rua Everton Augusto Rodrigues Maciel também ajudou a polícia
Foto: Ronaldo Bernardi, Agência RBS

Pereira tinha família — mulher e dois filhos — e um emprego em uma cabanha, onde cuidava de cavalos crioulos, mas perdeu tudo ao se render ao crack. Nas ruas da capital gaúcha, conta que já atuou como catador, mas hoje prefere apenas guardar carros.

Quando conversou com a reportagem, antes de responder a qualquer pergunta, mostrou um pouco do altruísmo de que é feito:
 
— Vieram perguntar da menina? Como ela tá?

Ao saber que ela foi medicada e está internada, acrescentou:

— Tomara que fique bem, que consiga superar o trauma. Conviver com isso é muito difícil para a mulher. Conheci várias que já passaram por isso — resume.

Pereira atualmente divide o pouco espaço que tem em seu barraco com uma cadela e seus seis filhotes, e sonha em conseguir vacinas para que os cachorrinhos cresçam saudáveis.

— Sei que eles têm que tomar vermífugo. Já vi outros filhotes morrerem porque não tomaram vacina.

Vítima foi agredida e está em estado grave

O diretor do Deca, delegado Andrei Luiz Vivan, relata que a adolescente foi encaminhada ao Hospital de Pronto-Socorro (HPS) e, posteriormente, ao Hospital Fêmina, ambos em Porto Alegre. Até a noite de segunda-feira, o estado de saúde dela era grave.

— Ela foi tão agredida que foi muito difícil identificá-la — revela Vivan.

Segundo a polícia, a adolescente é estudante, mora no Bairro Jardim Sabará e estava em uma festa na Usina do Gasômetro, acompanhada por uma amiga. Quando a parceira resolveu ir embora, a vítima teria decidido ficar.

— São informações que ainda precisam ser apuradas. Só poderemos entender melhor quando conseguirmos ouvir a vítima — afirmou o diretor do Deca.

Marlon Patrick Silva de Mello, que completou 25 anos no dia em que cometeu o crime, e Rodnei Alquimedes Ferreira da Silva, 56 anos, foram presos em flagrante e encaminhados ao Presídio Central. Ambos têm antecedentes criminais. Silva, que correu e trocou tiros com os agentes, segundo a polícia, já respondeu por roubo e lesão corporal e cumpriu pena por roubo com tentativa de estupro, em 2010. Atualmente, estava em liberdade.

O delegado ressalta que a pena para estupro vai de 8 a 12 anos, mas é ampliada quando o ato é praticado por mais de uma pessoa.

— Nesse caso, eles podem pegar de 10 a 15 anos de prisão — esclarece.

A Polícia Civil não soube informar se os detidos registraram advogado de defesa.

ZERO HORA
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