Vítima de tráfico internacional de crianças desiste de procurar a mãe por causa da burocracia brasileira Marcos Porto/Agencia RBS

Pelas decepções sucessivas em seis testes de DNA, desta vez Lior pretende aproveitar a viagem para conhecer mais do país onde nasceu

Foto: Marcos Porto / Agencia RBS

Lior Vilk, 29 anos, não quer ter esperanças, mas no fundo ainda tem. Não quer procurar, mas quando caminha pelas ruas do Brasil, repara nos rostos e tenta encontrar feições semelhantes. Oito anos depois de começar a procurar os pais biológicos e três anos após ter se tornado símbolo das milhares de crianças traficadas nos anos 1980 com a publicação da série Órfãos do Brasil pelo DC, o brasileiro desistiu da busca
pela mãe.

Relembre:
>> Leia o especial Órfãos do Brasil
>> A ajuda às mães na busca por seus filhos

Ele visita o Brasil pela segunda vez e está na casa de amigos, em Itapema. Durante a busca desesperada, aprendeu o português, entrou em contato com entidades, embaixadas, prefeituras, cartórios, mas, cansado de não ter respostas, resolveu desistir.

Nos últimos três anos houve uma movimentação nacional visando auxiliar pessoas nas mesmas condições de Lior. Porém, a cartilha com orientações e o Banco de DNA prometidos não saíram do papel. Novas promessas foram feitas para 2015.

Com poucos dias de vida, Lior Vilk foi levado para Israel, no Oriente Médio, e lá vendido para uma família israelense. A certidão de nascimento é a única informação que tem de sua provável origem, no Paraná. Sem pistas concretas do paradeiro da mãe, enfrenta dificuldades para conseguir um procurador para buscar informações no Brasil e precisa pagar vários exames de DNA para comprovar a ligação familiar com cada um que considera ser seu parente.

No final de 2012, veio ao Brasil a convite do programa, Domingão do Faustão, da Rede Globo. De lá pra cá, conheceu várias mães que ansiavam encontrar o filho perdido nas mãos de traficantes e realizou seis exames de DNA – todos deram negativo. 

— Estava viciado na busca, não saia da frente do computador, procurando informações e falando com pessoas. As mães me procuravam, diziam que eu era seu filho, fazia DNA e o resultado dava negativo. Não aguentava esse sofrimento — encerra Vilk.

:: Um final feliz para a família catarinense

Em meio a tantas dificuldades, a sorte às vezes é a única aliada nos reencontros entre familiares. Yael Stein está no Brasil, na cidade de Itapema. Passa seus dias na companhia da família biológica que conheceu em 2012.

Yael é mais uma vítima do tráfico de bebês e sempre morou com a mãe adotiva, em Israel. Ao participar da série Órfãos do Brasil, teve sua foto ainda bebê estampada na capa do DC. Naquele domingo, Zuleide Aparecida Vieira, a mãe biológica, a reconheceu por uma covinha no queixo. A menina foi entregue com dois dias de vida.

Foto: Zuleide e Yael no seu reencontro em 2012 (Julio Cavalheiro)

Depois da mãe, foi a vez da filha conhecer o pai, Eliomar Borba. O casal, que hoje mora em cidades diferentes com famílias distintas, teve Yael ainda muito jovens, com 15 e 16 anos.

Ainda em Israel, quando foi entrevistada pela reportagem, a jovem expressou o desejo de morar no Brasil e a vontade de saber se tinha mais irmãos. Em Israel vive apenas com a mãe adotiva e convive à distância com a família biológica, no Brasil.

Hoje Yael sabe que tem uma família numerosa de irmãos, primos e tios. Desde outubro, está na casa da mãe Zuleide em Itapema, para matar a saudade. As duas se encontraram pessoalmente no programa Faustão em dezembro de 2012. 

— Amo todos eles. Estou muito feliz — diz.

:: As promessas

Cartilha com orientações

l O que é - Em Brasília, após a repercussão dos casos a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República formou em agosto de 2012 uma comissão envolvendo as pastas da Justiça e das Relações Exteriores com o objetivo de discutir soluções para auxiliar as vítimas de tráfico de pessoas. Depois de muitas reuniões, o grupo definiu a elaboração de uma cartilha com orientações para brasileiros adotados e residentes no exterior que queiram conhecer sua origem.

l Como está hoje - O material ainda não ficou pronto, podendo ser concluído  apenas no primeiro semestre de 2015.

Banco de DNA

l O que é - Cruzamento de informações resolveria muitos casos. Lior Vilk realizou seis exames de DNA por conta própria. Os exames são a única forma de comprovar um laço familiar, já que a maioria das vítimas teve seus documentos falsificados. Em agosto de 2013, a então ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, cogitou criar um banco de DNA como solução para ajudar traficados por quadrilhas no Sul do Brasil. Outro facilitador seria a utilização do Banco de Perfis Genéticos criado pelo Ministério da Justiça nos Estados para identificação de criminosos, pelo DNA, mas que poderia ser utilizado na identificação de pessoas
desaparecidas.

l Como está hoje - O delegado Wanderley Redondo explica que SC ainda não tem um Banco de DNA para localização de pessoas. Em alguns Estados como Paraná e São Paulo esta condição já é uma realidade. O coordenador do SOS Desaparecidos da Polícia Militar, major Marcus Claudino, também tenta uma parceria com universidades, mas o projeto ainda não saiu do papel. O laboratório de DNA que está para ser implantado no Instituto Geral de Perícias ainda está em fase de testes, sem data para conclusão.

DIÁRIO CATARINENSE
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