As principais suspeitas da polícia para a execução de Calcinha, em Florianópolis Alvarélio Kurossu/Agencia RBS

Crime aconteceu em posto na Costeira, na noite de quinta-feira.

Foto: Alvarélio Kurossu / Agencia RBS

Dívida por cargas apreendidas do tráfico de drogas ou vingança em razão de ameaças são as duas principais linhas de investigação da Polícia Civil para a execução de Tiago Cordeiro, o Calcinha, 26 anos, suspeito de gerenciar o tráfico de drogas na Costeira, em Florianópolis, e ser o braço-direito do traficante Sérgio de Souza, o Neném da Costeira.

Calcinha morreu com sete tiros disparados em um posto de combustíveis na noite de quinta-feira, na Costeira.

A investigação é feita por policiais da Delegacia de Homicídios da Capital. Na madrugada de ontem, por volta da 1h, a Polícia Militar encontrou o Gol utilizado pelos dois criminosos que cometeram o crime.

O veículo estava abandonado no Morro da Serrinha. Ainda não se sabe se será possível colher impressões digitais, pois o carro foi removido do local pela polícia. O Gol havia sido furtado no Campeche.

O DC apurou que Calcinha estaria ameaçado de morte por criminosos da Serrinha em razão de antigas desavenças. Mas a polícia também apura a possibilidade de a ordem para matá-lo ter vinda de grandes traficantes do Paraguai.

O motivo seria um débito em aberto de Calcinha por causa de uma carga de drogas apreendida no litoral Norte. Ele seria o responsável num consórcio do crime.

Enquanto as informações ainda são suspeitas, policiais têm uma certeza: dificilmente a morte não está ligada ao envolvimento de Calcinha com o tráfico de drogas. A dificuldade maior é saber quem foi o mandante da execução e encontrar provas para incriminá-lo.

A certeza do acerto de contas leva em consideração o fato de os dois executores terem ido direto ao alvo na loja de conveniências. Calcinha chegou em uma BMW no posto às 20h16min olhando para o celular acompanhado de um amigo, que nada sofreu.

Os dois comprariam gelo na loja. A câmera do circuito interno de monitoramento filma a chegada dos atiradores num Gol. A dupla está encapuzada e de roupas pretas.

O homem da frente, alto, é quem executa Calcinha. O outro comparsa também entra armado, mas a arma teria falhado. O crime dura um minuto, pois o vídeo mostra a dupla deixando o local às 20h17min.

FAMA E LONGE DA PRISÃO

Fotos do corpo de Calcinha caído no chão circularam em redes internas de comunicação de policiais civis e militares na noite do crime.

Em cima do corpo apareceu a carteira dele com notas de R$100 e R$ 50 (levava R$ 2,5 mil). No braço, ele usava um relógio de ouro. No lado de fora do posto, a BMW que chegara ao estabelecimento, mas que não estava no nome dele, segundo a polícia.

Policiais afirmam que o jovem tinha um perfil de ostentação, joias, gostava da vida de camarotes em baladas e carrões, tendo sido visto recentemente na Capital dirigindo uma Land Rover e um Camaro.

Apesar das suspeitas que estaria comandando o tráfico na Costeira, as polícias Civil e Militar não conseguiram provas suficientes para segurá-lo na prisão.

Em decisão do dia 14 de novembro de 2014, o juiz Marcelo Volpato de Souza explica o motivo de não ter o mantido preso após flagrante por porte de munição e associação para o tráfico pela Delegacia de Combate às Drogas (Decod):

"Apenas a declaração da autoridade policial de que Tiago seria um dos chefes do tráfico de drogas no Morro da Costeira, desacompanhada de outros elementos de investigação e inteligência, não são suficientes para formar minha convicção de um estado de flagrância".

No mês seguinte, em 16 de dezembro de 2014, em nova decisão, o juiz ressalta que o MP foi contrário à prisão preventiva dele pedida pela Decod ao argumento que não foi possível verificar qualquer ligação entre os investigados e a organização criminosa denunciada, não havendo provas suficientes de materialidade ou indícios de autoria.


Documento da Justiça mostra motivo pelo qual Calcinha não ficou preso.

Segundo a Decod, na Van apreendida em Florianópolis em novembro do ano passado, e em que Calcinha estava, foram apreendidos 300 munições calibre .40, quatro carregadores de pistola calibre .40 e duas miras a laser para armas de fogo, todas de uso restrito, além de 50 munições de calibre 380 e 25 de calibre 28, estas de uso permitido.

No veículo também havia 100 comprimidos do medicamento Pramil e pequena quantidade de maconha.

— Ele (Calcinha) foi investigado pela Decod e todos os indícios apontaram ele como a atual liderança do tráfico na Costeira, tanto que foi preso em flagrante por nós e indiciado em inquérito policial — assegura o delegado da Decod, Antônio Seixas Joca.

A LIGAÇÃO COM NENÉM DA COSTEIRA

Tiago Cordeiro, o Calcinha, começou a aparecer no noticiário policial catarinense ao figurar em uma foto da prisão de Sérgio de Souza, o Neném da Costeira, em 5 de dezembro de 2008, em Encarnación, no Paraguai.

Calcinha era um dos três homens que estavam com Neném na recaptura do megatraficante. Neném ficou seis anos foragido no Paraguai, para onde rumou depois de ser resgatado da antiga sede da Deic, em Florianópolis, por um falso entregador de pizza, em 2002.

Calcinha acabou sendo solto na época. Em julho de 2013, Calcinha voltou a ser preso, desta vez em Florianópolis pela PM por tráfico de drogas. Ele ficou apenas uma semana preso, pois o MP pediu o arquivamento dos autos em razão da falta de provas.

Já Neném da Costeira permanece atrás das grades e cumpre pena atualmente em uma penitenciária federal de segurança máxima do Mato Grosso do Sul. O pedido para mantê-lo longe do sistema prisional catarinense é do Departamento de Administração Prisional (Deap) e foi aceito pela Justiça de Santa Catarina.

A defesa de Neném afirma que ele está cego de um olho em razão de uma bactéria que adquiriu na prisão e busca o tratamento a ele em SC.

O DC ainda não conseguiu contato com a advogada de Tiago Cordeiro. O corpo da vítima foi sepultado no cemitério do Itacorubi, na Capital.




BMW em que Calcinha chegou ao posto


Tiago Cordeiro, o Calcinha, morto nesta quinta-feira

DIÁRIO CATARINENSE
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