"Uma pessoa consulta o celular cerca de 1,5 mil vezes por semana", diz especialista em tecnologia Divulgação/Divulgação

Cristiano Nabuco

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O vício do smartphone é igual ao vício da internet?
Quando a gente começou a trabalhar com a dependência da internet, ela tinha características de estar colocada em uma mesa, em um computador maior. Não se tinha a perspectiva de ter a internet móvel, como passou a acontecer depois com a dependência de telefone celular. Existem algumas características que diferenciam, mas numa visão maior o princípio é o mesmo.

O indivíduo acaba utilizando a tecnologia como forma de regular o que a gente chama de humor disfórico, ou seja, regular sensações desagradáveis, emoções que não são muito confortáveis. E, à medida que você faz uma, duas, três vezes o seu cérebro passa rapidamente a aprender. Ou seja, sempre que você vive alguma coisa que não é legal, você vai recorrer à tecnologia como uma forma de distrair ou para se sentir bem de novo. É uma forma de escape.

É uma forma de escape mais acessível do que cigarro e bebida, por exemplo?
São os chamados vícios. A gente tem, por exemplo, o vício do álcool, da droga. Depois de um uso recorrente, vai ocorrer a liberação de dopamina – um neurotransmissor que vai fazer com que o indivíduo tenha um aumento da motivação e da sensação de prazer. Durante um período se estudou quais seriam as semelhanças dessas dependências químicas com as comportamentais, como por exemplo o jogo patológico. Hoje já se sabe que a dependência em internet e do celular é comportamental. Uma pessoa que vê de fora vai dizer: “todos são diferentes”. Mas, na verdade, é sim e não. Foi feito recentemente uma pesquisa em que avaliaram usuários pesados de álcool e drogas e se descobriu que esses indivíduos tinham desgaste da baia de mielina, uma substância branca que funciona como se fosse um fio plástico que encapa um condutor elétrico. A bainha de mielina tem a função de favorecer essa condutividade elétrica. Em usuários abusivos de álcool e drogas, é como se o fio estivesse queimado. Descobriram agora que usuários compulsivos de telefone celular também têm desgaste da bainha de mielina.

O fato de ele estar o tempo todo no bolso ou na bolsa complica mais?
Hoje há várias funções e parece que a que menos importa é telefonar. Porque o telefone funciona como um portal pessoal, além de ter máquina fotográfica, câmera filmadora, GPS, um monte de coisas. Em qualquer situação de recreação, tédio ou irritação, você saca o telefone do bolso. Uma pessoa chega a consultar o telefone celular cerca de 1,5 mil vezes por semana (o que dá 214 vezes por dia). Tem a função de distrair, mas começa a criar uma perspectiva progressiva e rápida de alienação.

Como funciona esse desgaste na bainha de mielina?
É o excesso. Vamos imaginar um aluno sentadinho ouvindo uma aula sobre a Revolução Francesa. O professor começa a falar de Robespierre e vibra o telefone celular na perna dele. É um amigo de duas cadeiras ao lado falando: “Você viu a saia da Marianinha?” Aí o cara manda um monte de positivo no Whatsapp e volta a olhar a professora: “...porque houve um problema com a burguesia francesa”. Vibra de novo o celular: “O que você vai fazer hoje depois da aula?” E sem levar em conta que a mãe também mandou mensagem e a olhada no Facebook da namorada. Essa alternância contínua de operações mentais começa a criar um stress mental. E acredita-se que esse uso excessivo está ligado ao desgaste.

Como o vício no smartphone funciona no cérebro da pessoa? Tem a ver com, por exemplo, postar uma foto e receber 30 curtidas?
Isso fez eu me sentir bem. Aprendi então que tenho que postar uma outra foto para voltar a ter a sensação. Bom, mas na outra eu não tive 30 curtidas, tive cinco. Aí começo a ficar preocupado. Que porcaria, tenho que arranjar outra foto. E começo a procurar. Busco na minha galeria. Apago aquela que não tive curtidas. Opa, achei uma foto. Vinte curtidas. A vida passa a girar ao redor dessas questões que despertem a sensação de proximidade, de reconhecimento. E, quando ele passa a usar com mais frequência, leva à liberação de dopamina e cria esse mecanismo biológico que faz com que você fique sempre voltando, voltando e voltando.

Ser visto e admirado online não trazem benefícios ao mundo real, ao dia a dia no trabalho, por exemplo?
O que a gente entende é que as relações virtuais acabam se sobrepondo às relações concretas, do mundo real. E a preocupação que temos é que chegue um determinado momento em que essas pessoas não queiram mais se relacionar no cotidiano, pessoalmente, mas só nessas redes onde há o “controle”, onde ele consegue ter maior manejo da situação. Até apagar se não gostar tanto. O que não dá para fazer na vida real.

Tem cura? Uma pessoa consegue começar a se tratar sozinha?
Acho que o primeiro passo é ter consciência de que alguma coisa não vai bem. Mas, dependendo do grau de dependência, aí não. Nos casos mais graves a pessoa vai precisar de ajuda especializada. Tem que compreender o quanto aquilo está fazendo mal.

O problema está aumentando?
Imaginamos que, quanto mais os indivíduos têm acesso à tecnologia, maior seja a perspectiva disso se manifestar. A gente tem, por exemplo, uma parcela de indivíduos que tem o telefone dado pelos pais, pelo fato de que, além da moda, virou um glamour: “Olha como meu filho consegue usar o telefone”.
Os pais estão favorecendo um tipo de acesso a uma população que ainda não tem controle total sobre o comportamento, abrindo uma porta perigosa.

DIÁRIO CATARINENSE
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