Um mercado de boas histórias Felipe Carneiro/Agencia RBS

A amizade de Aurino (à esquerda) e Erasmo se confunde com a história do Mercado Público

Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Para conhecer a alma de uma cidade, basta visitar seu mercado. É lá onde estão o sotaque, as comidas típicas, o artesanato local e, claro, o peixe fresco do mar que banha a região. Tudo em um só lugar. Em Florianópolis, essa experiência está pela metade desde o final de 2013, quando a ala Norte do Mercado Público foi fechada para obras. Há um ano, o espaço ficou pronto e foi a vez da ala vizinha receber uma "garibada", como dizem os nativos da Ilha de Santa Catarina. Na sexta-feira, os 36 comerciantes receberam da Prefeitura as chaves dos boxes e já começam a preparar a montagem do mobiliário para a inauguração oficial, marcada para o dia 5 de agosto. Mesmo sem estar completamente pronto, o prédio histórico já volta a receber seus personagens marcantes.

"Sabe o trevo do Erasmo? Então, eu sou o Erasmo". É assim, cheio de simpatia, que o aposentado Erasmo Antunes, 92 anos, se apresenta e começa a contar boas histórias sobre o mercado que conhece desde os 12, quando ajudava os pais a fazer a feira. O tempo passou, mas o costume de caminhar pelo comércio permanece para esse antigo morador do Rio Tavares.

— Quando eu era criança e vinha com meu pai ao mercado, os comerciantes tinham que vender o peixe e a carne até as 10h, senão a vigilância passava creolina na mercadoria. Faziam isso porque naquela época, década 40, não tinha refrigerador, então tudo estragava rápido. O que ficava aberto depois disso eram as fiambrerias e as bancas de verdura e frutas - lembra Erasmo.

O armazém que manteve por mais de 60 anos na região da rótula do bairro Rio Tavares, que dá acesso à Lagoa da Conceição e ao Sul da ilha, credenciaram esse manezinho a receber uma homenagem que vai ficar marcada na geografia da cidade.

— Fiquei tanto tempo no armazém que começaram a chamar o local de Trevo do Erasmo. O nome acabou pegando e eu gostei - brinca.

Meio sem querer, esse manezinho se tornou no primeiro cliente a ver a ala Sul pronta, na sexta-feira. Viu o tapume aberto e foi entrando para observar o prédio, até encontrar um velho amigo: Aurino Manoel dos Santos. Bem-humorado, fez logo uma cobrança.

— Conheço o Aurino desde criança. Já éramos amigos antes de eu me tornar cliente. Espero que reabra completamente logo, para comprar carne na loja do amigo. E também um bom peixe nos outros boxes - diz Erasmo.


Com a chave em mãos, Aurino já se prepara para montagem do mobiliário do açougue no box 6

Dono do açougue mais famoso da Capital, Aurino, 68 anos, levou toda família para conferir a "casa nova" na sexta-feira. A espera foi grande para receber o espaço, que deixou em julho de 2014 para o começo das obras. Sobre a cobrança de Erasmo, Aurino revela que já está acostumado com a clientela exigente e saudosa.

— Desde que tive que sair da ala Sul, estou trabalhando no Empório 12, na ala Norte, que pertence à minha filha. Sempre aparece um cliente para perguntar quando vamos reabrir o açougue. Temos o projeto pronto e vamos começar a montagem dos móveis já na segunda-feira - garante Aurino.

Desde 1959, quando começou a trabalhar no Mercado Público, Aurino já passou por três boxes, todos na ala Sul. Mas agora ele se encaminha para ficar definitivamente no número 6. Nessas andanças pela ala, esse comerciante que já faz parte do folclore da cidade revela uma curiosidade sobre a origem do tradicional açougue:

— Em 1967, eu trabalhava para o Espinoza, o pai do Alvim, no box 1. A gente dividiu uma loteria e ganhamos juntos. Lembro que foi 12.500 para cada, mas esqueci qual era a moeda. Sei que o dinheiro foi suficiente para comprar o box 2, onde montei o açougue.

DIÁRIO CATARINENSE
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