Conheça o detento que tocará violino ao lado de pianista no TEDx em Joinville Leo Munhoz/Agencia RBS

Giovanni em ensaio com a pianista Semitha

Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

Livres das algemas, a mão direita faz o arco dançar suavemente sobre o violino, enquanto a mão esquerda apoia o instrumento e alcança as cordas nas pontas dos dedos. Fechados, os olhos mergulham os sentidos em concentração e já não enxergam mais grades nem trancas.

É como se o detento experimentasse de volta a liberdade no momento em que a música ganha ouvidos entre os muros de uma unidade de segurança máxima: a Penitenciária Industrial de Joinville. Vestindo o traje apropriado para uma apresentação de gala no lugar do conjunto "amarelo-prisão", Giovanni Wites, 31 anos, passa ser visto e a olhar para si como um artista em vez de um homem condenado. 

Mudança possível quando as portas da cela e da maleta do violino são abertas. Hora em que Giovanni assume o papel de músico da banda Arcodes Para a Liberdade, formada por internos da penitenciária. Uma rotina resumida aos ensaios e apresentações com o grupo até que a pianista e musicóloga Semitha Cevallos ouvisse o som de seu violino pela primeira vez.

Pianista do Bolshoi, Semitha visitava a unidade com o interesse de desenvolver a musicalidade dos detentos. Mal sabia ela que a surpresa viria de dentro para fora.

— Ouvi ele tocando e comecei a chorar. Ele não só tocava, como tocava muito bem. Fui embora e pensei: achava que ia levar música para a penitenciária, mas fui eu que recebi. Foi uma coisa muito forte — lembra Semitha.

Era maio quando a pianista doutoranda em música e o violinista apenado se encontraram. Giovanni ganharia uma professora e Semitha, impressionada, mais um aluno. Os ensaios na unidade passaram a ser tão frequentes que a primeira apresentação ao público seria uma questão de tempo. Pouco tempo, na verdade.

Convidada a se apresentar na 1ª edição do TEDx em Joinville, Semitha aceitou e pediu que o juiz da Vara de Execução Penal, João Marcos Buch, autorizasse a presença de Giovanni. Tudo deu certo e ambos vão dividir os holofotes no evento organizado pela Udesc e que ocorre neste sábado, no Teatro Cenec. Momento único para Giovanni não apenas pela liberdade momentânea. Ele tem facilidade em informática, mas já vive a dúvida de quem pensa em ganhar a vida com a arte mesmo antes de deixar a prisão.




—Levar a música como uma forma de contribuir e receber a minha parte dentro da sociedade, é mais do que um desejo. É um sonho. Claro que, isso tudo, o evento, é como se eu estivesse sendo colocado em um divisor de águas. Se vou querer realmente me dedicar à música. Você tem que se entregar para que possa transmitir algo. É uma busca quase espiritual, filosófica, de se tornar verdadeiramente um artista — reflete.

"O que dá sentido à vida é aquilo que você faz"

A prisão é parte da vida de Giovanni desde 2009. Ele foi detido em flagrante quando teve um surto e tirou a vida da própria mãe. Nunca negou o crime, mas alegou em juízo que estava sob o efeito de drogas. A avó materna o visitava com frequência na cadeia, mas já faleceu. Sozinho atrás das grades, Giovanni passou a desenvolver o talento com a música e fez do violino um amigo.

Há cerca de um mês, conseguiu comprar um violino alemão de 1880, restaurado em Curitiba. Uma relíquia de quase R$ 6 mil, conquistada com o dinheiro do trabalho na unidade. O processo de execução penal de Giovanni também revela leituras frequentes na prisão — ele já conseguiu diminuir em algumas semanas a pena de 15 anos e seis meses por meio de resumos enviados ao juízo, conforme previsto em lei.

—O que dá sentido à vida é aquilo que você faz. Isto tem me dado o sentido de não atribuir a mim uma autoimagem de uma pessoa encarcerada, de uma pessoa privada e humilhada, então estou me atribuindo uma imagem de um músico, um artista. O resgate desse valor como ser humano começou comigo a partir do momento em que ganhei um trabalho. Foi através do trabalho e, posteriormente, através da música. Essas oportunidades dão sentido à vida. Sem isso, onde a pessoa procurará dar sentido à vida? Nas antigas coisas que ela fazia — raciocina.

Ainda que Giovanni não tenha o embasamento teórico de outros músicos, a pianista do Bolshoi, Semitha Cevallos, enxerga no aluno algo que diz ser raro no meio musical.

— Sou musicista de formação, tenho mestrado em música, faço doutorado, trabalho com altos níveis de formação em balé. Esse mundo é bem exigente, egocêntrico. Mas eu vi que, na música do Giovanni, não tinha isso — aponta.

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