MP acusa dois policiais militares de executarem Wesley Lopes em Araquari  Leo Munhoz/Agencia RBS

Pais de Wesley esperam há dois anos por justiça

Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

O mistério envolvendo o desaparecimento e a morte do jovem Wesley Lopes, 25 anos, que já dura quase dois anos, teve mais um capítulo em audiência que ocorreu nesta quarta-feira no Fórum de Araquari. Os policiais militares Juan Felipe Berti e Jocenir Cavejon que supostamente foram vistos abordando o jovem na noite em que ele desapareceu, foram acusados pelo Ministério Público de executá-lo e de sumir com o corpo dele.

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"A Notícia" teve acesso à ação do MP. Segundo os documentos, dois PMs foram denunciados por abuso de autoridade, homicídio qualificado e ocultação de cadáver. Ambos respondem ao processo soltos e possivelmente devem ser julgados em júri popular. Na audiência de instrução e julgamento desta quarta-feira, foram tomados os depoimentos dos policiais acusados, do delegado responsável pela investigação, dos pais da vítima e de outras testemunhas.

Os policiais negam a autoria do crime e a suposta abordagem mencionada pelo MP. Um dos policiais disse à reportagem que aquele era o seu primeiro dia de serviço naquela área e que fez patrulhamento preventivo e de reconhecimento do bairro onde passaria a atuar. 

— A abordagem como foi mencionada (na denúncia) não aconteceu e não houve a condução de ninguém (dentro da viatura) — defendeu o PM. 

Wesley desapareceu na madrugada de 28 de setembro de 2013. Ele teria saído de casa para ir até uma lanchonete na rua em que morava no Loteamento Santo Antônio, no bairro Itinga. Segundo o MP, os policiais teriam feito a abordagem neste trajeto.

De acordo com o relato de vizinhos que afirmam ter presenciado a ação dos policiais, os PMs perguntaram o nome de Wesley, que não teria conseguido responder porque apresentava capacidade mental reduzida. A denúncia diz que a dupla de policiais agrediu o jovem com tapas e o obrigou  a entrar na caixa da viatura.

O rastreador da viatura identificou que os policiais permaneceram por 13 minutos na rua onde Wesley morava. Quase duas horas depois, às 3h43, o veículo esteve no local onde a ossada de Wesley foi encontrada um ano depois, na Estrada Rio do Morro. 

— Não satisfeitos com o abuso de autoridade perpetrado, os denunciados, previamente acordados com a manifesta intenção de matar, deixaram de apresentar pessoa presa ao delegado de plantão e levaram a vítima para local ermo fora da área de atuação — diz a denúncia.

Os restos mortais de Wesley só foram encontrados no dia 17 de setembro de 2014, em uma região de mata fechada na Estrada Rio do Morro. Um morador da região encontrou a ossada que estava sem o crânio. Quatro meses depois, um exame de DNA comprovou que se tratava de Wesley.

A perícia concluiu que a vítima morreu por golpes que sofreu na região das costelas e possivelmente na região do crânio. 

— Com a nítida intenção de dificultar que o crime fosse desvendado, os denunciados ocultaram e destruíram parte do cadáver da vítima - seu crânio, separando-o dos demais restos mortais — destaca a denúncia. 

Para o MP, o crime foi cometido por motivo torpe, decorrente de uma "indevida animosidade dos denunciados com a vítima que, além de ter registros policiais, era irmão de indivíduos conhecidos pela prática de tráfico de drogas na cidade".

— Em setembro faz dois anos que estamos lutando por justiça — disse a mãe de Wesley, Sueli Lopes, de 50 anos.




Policiais militares respondem ao processo soltos

O Ministério Público entendeu que a prisão preventiva dos policiais não era imprescindível quando ofereceu a denúncia, em abril deste ano, em razão do tempo que já havia passado desde a data do crime. Foram quase dois anos de investigação.

Por isso, o MP pediu à Justiça que os denunciados cumprissem seis medidas cautelares: comparecimento periódico em juízo, proibição de manter contato com testemunhas e familiares da vítima, proibição de se ausentarem da comarca por mais de 15 dias, proibição de acesso a bares ou boates, recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga e suspensão do exercício de função pública de policiais militares.

Sobre a suspensão do exercício de função pública, o MP restringiu apenas a atividade ostensiva e considerou a possibilidade de cumprirem alguma função administrativa dentro da corporação até o fim do processo.


Contraponto

A advogada de defesa dos policiais, Carla Simone Santos Schettert, acredita que o crime pode ter sido plantado por traficantes que não queriam a presença policial no bairro. Segundo a defesa, há duas testemunhas que afirmam terem visto Wesley três dias depois do suposto desaparecimento em bares da região na companhia de pessoas desconhecidas.

Outras cinco testemunhas também o teriam visto em Balneário Camboriú. A advogada garante que todas as testemunhas serão ouvidas no curso do processo. Carla também pretende solicitar uma reconstituição do crime.

O policial Juan Felipe Berti confirma que a viatura esteve nas duas regiões mencionadas na denúncia em rondas preventivas. Mas, explica que as rondas também ocorrem na Estrada Rio do Morro, pois, segundo ele, é um local onde são recorrentes as desovas de cadáveres e de veículos furtados.   

— Para nós é uma surpresa estarmos aqui. É a primeira vez que sento ali naquela cadeira como réu. Mas tenho certeza de que a verdade virá à tona — disse o PM.

 

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