Acidente na Tupy já tem três frentes de investigação em Joinville Rodrigo Philipps/Agencia RBS

Maior fundição da América Latina, a Tupy está sob investigação depois de acidente que envolveu quatro funcionários

Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

CORREÇÃO: O estudo da Previdência que apontou 451 mortes no setor da construção no Brasil refere-se a 2013 e não ao ano passado, como informado inicialmente. O texto abaixo já foi corrigido.
Falha humana ou defeito da máquina? A resposta para esta pergunta não é suficiente para explicar por que as pessoas ainda morrem durante o trabalho, tampouco tem evitado novos acidentes. No último dia 4, um funcionário com 25 anos de casa morreu na fábrica da Tupy, a maior fundição da América Latina, após sofrer queimaduras por todo o corpo.

Causas de acidente ainda não foram esclarecidas

Não foi o primeiro episódio. Funcionários e familiares ainda não esqueceram o ano de 2011, quando houve dois acidentes fatais no intervalo de oito meses. E eles não foram os piores. Em 1998, a explosão de um forno matou dois funcionários e tirou a capacidade de andar de um terceiro.

Funcionário levou quatro anos para esquecer explosão em 1998

As investigações apontaram as responsabilidades e as correções foram realizadas em todos os episódios, mas nada disso evitou que Venicio Rufino de Borba percebesse que sua vida estava chegando ao fim aos 47 anos, e deixasse uma comovente declaração de amor à família.

— Diga para minha mulher que eu amo ela e meus filhos — foram as últimas palavras de Venicio, que faria 48 anos nesta sexta-feira.

A Tupy tem grau de risco 4, o maior previsto na legislação, mas não é a única a registrar acidentes fatais em seu setor de atuação, nem o ramo metalúrgico é o mais grave. A indústria que mais mata no Brasil, em números absolutos, é a da construção civil e os acidentes envolvendo máquinas e equipamentos em diversas aplicações são os que mais mutilam os profissionais. Em 2013, foram 451 mortes neste setor, segundo estudo da Previdência Social.

Somente em 2015, o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) indica 256 acidentes de trabalho em Joinville. Desses, 12 resultaram em morte, segundo investigação preliminar do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest). Tanto o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) quanto o Ministério Público enfatizam que o funcionário não pode se conformar, achando que é normal trabalhar sob risco.

— Um equipamento pode ser perigoso, mas somente a exposição a ele é que gera o risco de acidente. Portanto, as empresas devem afastar este risco do trabalhador, por meio da implantação de dispositivos de segurança previstos em legislação — diz o auditor fiscal do trabalho Fábio Henrique Machado.

Para a auditora Luciana Carvalho, chefe do setor de saúde e segurança do MTE, o parque fabril nacional está obsoleto e precisa ser atualizado. O procurador do trabalho Thiago Milanez Andraus observa que em grandes empresas é difícil a investigação resultar em um único culpado ou negligência. Normalmente, segundo ele, trata-se da cultura organizacional.

No caso da Tupy, parte da resposta pode vir de uma investigação por parte do Ministério do Trabalho e Emprego que já começou e vai durar quatro meses. Os auditores vão verificar se existe tecnologia e processos mais modernos e seguros no mercado.




Sindicato defende mais investimentos

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas, Sebastião de Souza Alves, afirma que a companhia avançou muito ao longo das décadas, robotizou vários processos, porém, alguns não se mostraram viáveis, diz ele, especialmente as tarefas de composição das ligas e dos moldes. A liderança sindical explica que as funções com maior risco de morte são as de forneiro e de vazador, por atuarem diretamente com os fornos.

Em 2013, o sindicato enviou uma extensa pauta de reivindicações à companhia. Até agora, Alves afirma que, apesar das melhorias no refeitório, estacionamento, pátio de carga e descarga e nos ferramentais, os piores pontos ainda não foram solucionados.

— As mortes só vão deixar de acontecer com investimentos mais fortes em prevenção — afirma.

Sobre o nível de robotização e avanço tecnológico nas áreas de alto risco, a Tupy preferiu não dar entrevistas porque está sob investigação.

Experiência não evitou acidente

O ano de 2011 ainda está vivo na lembrança de famílias e funcionários da Tupy, de Joinville. No intervalo de oito meses, houve dois acidentes fatais. O primeiro, ocorrido em janeiro daquele ano, tirou a vida de Avelino Carraro Filho no momento em que ele realizaria a manutenção no interior do tambor rotativo e este foi ligado. Ele trabalhava havia mais de dez anos na fundição.

A investigação terminou com 11 autos de infração e multa por parte do MTE e a assinatura do termo de ajuste de conduta com o MP em outubro de 2012. O Ministério Público do Trabalho acompanha a implantação das melhorias e alega que a empresa está fazendo o que foi previsto.

O outro acidente ocorreu em setembro de 2011 e vitimou Valmir de Almeida Pina. Ele sofreu queimaduras em cerca de 90% do corpo no momento em que foi despejar cobre em sucata no forno de indução 4 para correção da liga metálica. Ele tinha mais de 20 anos de casa. A investigação terminou em maio de 2012. Foram 15 autos de infração e multa por parte do MTE. No Ministério Público, a investigação foi arquivada depois que a empresa tomou todas as medidas corretivas, informou o procurador Guilherme Kirtschig.

Três linhas de investigação na empresa

Além do inquérito policial em curso, que vai investigar as responsabilidades pelo acidente que tirou a vida do funcionário da Fundição Tupy no último dia 4, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) também começaram a investigar as condições de trabalho e dos equipamentos na Fundição Tupy. O funcionário, que tinha 47 anos de idade e 25 anos de casa, sofreu queimaduras por todo o corpo no setor de conexões, morrendo horas depois no hospital.

As circunstâncias ainda não foram esclarecidas. Mas os auditores já sabem que o acidente envolveu o forno vazador 4 durante o seu esvaziamento. Este procedimento ocorre uma vez por ano e era necessário porque a empresa entraria em férias coletivas, informou o auditor fiscal do trabalho Fábio Henrique Machado. Pelo que se tem conhecimento, foi a primeira morte em 20 anos envolvendo este forno.

A reportagem entrou em contato com a Tupy para obter informações sobre o acidente e sobre as melhorias e investimentos na fábrica, mas a empresa preferiu não dar entrevistas porque está sob investigação.
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