Nos últimos dois meses, tenho abordado um tema com alguma frequência: a subida dos preços e o comportamento dos consumidores nos supermercados. Hoje, o assunto é transversal a estes aspectos e tem tudo a ver com o cotidiano de quem faz compras. Vamos lá.

Uma ida ao supermercado revela um fato novo, só antes percebido pela geração que vivenciou o processo hiperinflacionário dos anos 1990 e que antecedeu a criação do Plano Real: estão faltando mercadorias nas gôndolas. O “buraco” fica mais à vista dos clientes, do que há pouco tempo, quando os espaços se apresentavam normalmente bem ocupados nos estabelecimentos, à espera de quem os quisesse levar.

E, quando eram retirados, rapidamente havia a reposição. Isso mudou nas últimas semanas.


Leia mais colunas de Claudio Loetz no AN.com.br


Levantamento da consultoria Neogrid aponta percentual elevado – e subindo – de falta de produtos nas gôndolas. Os dados apurados mostram que a região Sul apresenta o maior índice de ruptura de estoque, que é de 14,41%. Isso quer dizer que do total de mercadorias normalmente colocadas à venda, um de cada sete itens deixa de ser oferecido. A média nacional, em julho, foi de 12,6% (um em cada oito). Piorou porque era 9,7% (um a cada dez produtos faltava) no mês anterior.

O que está acontecendo? Acontecem dois fatos superpostos, simultâneos, a explicar o cenário. A principal causa para a falta de produtos nas prateleiras está relacionada à falha logística dos próprios supermercados. A pesquisa da Neogrid identificou que mais da metade do problema (seis de cada dez situações) deriva da atitude das redes, que não colocaram o pedido para o fornecedor; ou porque há falha na entrega por parte do fornecedor.

O segundo ponto é o comportamento social defensivo da população, que também contribui de maneira importante para este processo. É que os consumidores estão comprando maior volume de produtos em promoção ou em oferta em relação a períodos anteriores de pouca ou nenhuma instabilidade econômica, e quando o nível de desemprego era muito baixo, na era FHC-Lula.

Isso significa que retornou às mentes das pessoas mais experientes e agora, pela primeira vez, os mais jovens experimentam aquela sensação de que é essencial comprar o que for mais barato. Se possível, em maior quantidade, limitando o volume à disponibilidade financeira.

A preocupação que paira no ar é sobre a amplitude que esta realidade pode alcançar. Certamente, se evoluir negativamente, e os frequentadores de super e hipermercados forem na direção do alastramento dessas ocorrências, e se elas forem cada vez mais comuns, teremos um problema real a enfrentar: reiterada ausência, nas lojas, de mercadorias de uso diário das pessoas. 

Daí, quando muitos compram mais do que o necessário e superestocam produtos, a pressão inflacionária tende a dar repique, num jogo que atrapalha a todos. Improvável acontecer algo tão significativo que se aproxime da dimensão que caracteriza desabastecimento.

Afinal, com massa salarial em queda e desemprego alto, dizem a lógica e a teoria econômica que o nível de consumo tende a se estabilizar em patamares razoáveis. 

Mas o diretor de relacionamento do varejo e indústria da Neogrid, Robson Munhoz, argumenta e dá o alerta: com receio de uma possível retração nas vendas, o varejo passou a se preocupar ainda mais com os excessos de estoque e a diminuir os pedidos para a indústria.

Quando, coletivamente, a sociedade atua de maneira preventiva, prevalece a lei de mercado e, na sequência, os mesmos (e outros) que anteciparam compras se assustam com a marcação dos preços – para cima – nos caixas.

Claro que não teremos a inflação exponencial vivida há décadas, mas um parâmetro poderá ser superado: o da inflação passar os 10% ao ano oficialmente. Neste caso, o fator psicológico de não termos segurado o índice na barreira de um dígito vai criar alguns calafrios em plena primavera-verão de temperaturas acima da média. É esperar para ver.

A NOTÍCIA
 Veja também
 
 Comente essa história