Agronegócio e bioenergia são áreas de negócios nas quais as relações comerciais entre o Brasil e a Alemanha tendem a deslanchar no futuro. Do lado brasileiro, a competência nos negócios de alimentos em geral (aves e suínos, em Santa Catarina) e outras matérias-primas pode garantir novos acordos de cooperação com os alemães.

Do lado europeu, a ciência aplicada a segmentos como o de energia renovável e sua indústria de base de alta tecnologia, aliada a processos produtivos inovadores, sugere haver grandes possibilidades de êxito em conversas com as empresas daqui. Não é por acaso que a agenda do Encontro Econômico Brasil-Alemanha prevê fórum sobre bioeconomia e biotecnologia nesta segunda-feira, um dia depois de reunião preparatória para a iniciativa do agronegócio.

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O tema interessa tanto que o secretário do Ministério Federal de Alimentação e Agricultura da Alemanha, Robert Kloos, participa do evento. Mais ainda: a força dos dois temas domina tanto a cena, que ambos – alimentos e energia – estão presentes nos encontros de negócios previstos para a terça-feira de manhã. Os setores de bebidas, software e indústria metalmecânica também integram a lista de prioridades.

O Brasil está em grave crise econômica, possivelmente a maior desde os anos 1980, quando Sarney estava na Presidência. A crise de agora caracteriza-se por ser bem mais ampla econômica e politicamente. Isso não favorece em nada a entrada de novos e relevantes investimentos produtivos de longo prazo. O rebaixamento da classificação de risco (“lixo” na linguagem simplificada dos analistas) por agência internacional que mede a capacidade do País em honrar seus compromissos e dívidas afasta investimentos estrangeiros. E torna-os mais caros.

De todo modo, a Alemanha é, sim, parceira estratégica do Brasil. A tal ponto que, em 9 de agosto deste ano, a primeira-ministra Angela Merkel assinou, em Brasília, diversos protocolos de intenção para a cooperação técnica e científica com o governo brasileiro. Óbvio que o Brasil continuará essencial para a expansão dos negócios alemães pelo mundo.

Não faz mal lembrar um pouco da história recente. Em 2008, Lula e Merkel assinaram o plano de ação da parceria estratégica Brasil-Alemanha. Na ocasião, as áreas contempladas foram a governança global, mudança do clima e diversidade biológica; o desarmamento e não proliferação; a defesa, ciência, tecnologia e inovação; o desenvolvimento sustentável, energia e cooperação econômica e empresarial. Três anos depois, em 2011, com Dilma forte no comando, em seu primeiro mandato, o presidente alemão Christian Wulff visitou o País. Novamente, inovação, cooperação científica e tecnológica foram o centro das atenções. Já em 2013, em São Paulo, no 31º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, a mensagem era de otimismo: as relações entre os dois países permaneciam fortes.

Agora, em Joinville, apesar de sinergias conhecidas, tanto o governo alemão quanto as lideranças empresariais do mais rico e influente país europeu certamente vão dizer, com a sutileza adequada, que é preciso o Brasil concluir sua lição de casa. Significa dizer que é inadiável melhorar o ambiente de negócios. Lógico: Brasília perdeu o contato com a realidade e parte do empresariado brasileiro, que é relevante, já articula uma forma de se salvar sem a presidente.

A rigor, ninguém sabe se Dilma fica no cargo. Nem se as políticas econômica e comercial do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior vão, enfim, privilegiar acordos bilaterais com países da zona do euro.

Claro está que a indefinição do quadro político e a não permanência de regras jurídicas são grandes complicadores para que se avance. Outras demandas certas da indústria dos dois países passam pela desburocratização e aumento da eficiência dos serviços públicos. Sem reformas estruturais e mínima certeza dos rumos que o Brasil vai trilhar, os alemães serão mais cautelosos em despejar os bilhões de euros tão cobiçados pelo Brasil.

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