"Consumismo é um comportamento ultrapassado", opina jornalista que decidiu não comprar roupas por um ano Daniela Kopsch/Divulgação

Jornalista e blogueira decidiu usar apenas 50 peças de roupa durante um ano

Foto: Daniela Kopsch / Divulgação

A catarinense Daniela Kopsch decidiu viver um ano com as mesmas 50 peças de roupas em seu armário para frear os seus hábitos de consumo e economizar. A experiência é contada no blog "Less is the new black", e o que começou por motivos de redução de custos também se tornou um exercícios de criatividade, inovação e diversão. Confira a entrevista:

O que te inspira para fazer essa experiência?
Essa reflexão sobre o que nós temos e o que realmente precisamos é muito atual e urgente. Primeiro, para avaliar a nossa relação com nós mesmos. Antes de comprar, perguntar para si mesmo "por que estou comprando isso?", "quero me recompensar por algo?", "quero mostrar algo para alguém?", "por que eu preciso disso?" ou "eu preciso mesmo disso?". A resposta para essa última pergunta será "não" em 99% das vezes. Você pode economizar esses 99% de verba em algo que realmente traga satisfação a longo prazo, como uma viagem ou um curso.

Quanto tu estás economizando com esse projeto?
Eu tenho o número na minha cabeça que tenho até vergonha de dizer porque o valor é expressivo. Lembro dele toda vez que eu tenho vontade de comprar algo. Espero economizar o equivalente até o ano que vem. Acho muito válido esse exercício de botar na ponta do lápis os gastos anuais. Foi necessário somar o ano todo para eu perceber onde estava o buraco no orçamento.

O que tem sido mais difícil?
O difícil não é ficar só com 50 peças. Na verdade, fica cada vez mais claro que ter menos roupas só facilita a minha vida. O difícil é parar de comprar. É difícil frear a vontade de comprar uma coisa porque "é bonito" ou porque "está barato". Mudar o hábito de comprar por impulso é muito mais difícil do que eu esperava. Dos anos 90 pra cá, as redes de fast fashion criaram uma cultura de comprar roupa nova todo mês porque as roupas começaram a ser muito baratas e muito abundantes.

O que tu queres ensinar com esse projeto?
No começo, achava que não tinha nada para ensinar porque eu mal podia dar conta do meu próprio consumismo. Mas depois percebi que a minha trajetória durante o desafio pode auxiliar muitas pessoas que, como eu, não percebiam o motivo de nunca sobrar dinheiro para nada. Quero que as pessoas façam as contas, organizem melhor a própria vida financeira e - o mais importante - descubram que não precisam de muita coisa para ser feliz com o guarda-roupa. Eu posto diariamente o "look do dia" para me estimular a continuar na linha e para provar que não estou andando maltrapilha nem mal vestida porque resolvi ficar com poucas roupas no armário. Quando percebemos que precisamos de pouco, parar de comprar é um passo natural. O consumo fica mais consciente porque você sabe do que precisa e para de comprar por impulso. Acho que o consumismo é um comportamento ultrapassado do qual teremos vergonha no futuro.

Por quanto tempo pretendes seguir com essa ideia?
Um passo de cada vez. Me desafiei a viver assim por um ano. Espero ser uma pessoa diferente no ano que vem. Eu tenho objetivos bem claros: me desintoxicar do hábito de comprar coisas desnecessárias e economizar. Se eu tiver sucesso nessas duas metas, acho que saberei o que fazer a partir do ano que vem e pretendo continuar neste caminho. Com certeza, vou ter mais dinheiro no bolso para fazer várias coisas, em vez de uma pilha de roupas nunca usadas.

Tu achas que as pessoas gastam muito em roupas?
Demais. Muito mais do que elas acham. É um processo mental difícil de desarticular porque foi muito bem construído a partir da industrialização. Começou a se produzir mais produtos e, desde então, as pessoas são encorajadas a comprar mais do que o necessário. Sem contar a questão ambiental. Se continuarmos comprando e descartando coisas nesse ritmo, o planeta entrará em colapso. Me parece que frear o consumo é uma atitude que vamos ter que tomar, mais cedo ou mais tarde.

O que tem sido mais divertido em fazer esse trabalho?
A parte mais divertida é inventar os looks. A escassez gera criatividade! Nunca me senti tão bem vestida como neste último mês em que passei a viver com apenas 50 peças de roupas. Outra parte maravilhosa é conversar com os seguidores do blog. Tem gente que diz que para chegar em 50 peças ainda teria que comprar muita coisa. E tem amigos que duvidam mesmo, acham que é impossível e que eu não vou conseguir. Tem gente que diz que não conseguiria passar nem um mês do meu desafio. Eu adoro essa troca de experiências porque acho que todos podemos aprender mais sobre a nossa relação com moda, dinheiro, consumo e até autoestima.

Quem é referência em modo de se vestir para você?
As parisienses. Eu li que é comum na França as mulheres terem 10 peças de roupa no armário. Elas usam cores neutras, peças clássicas e roupas que nunca saem de moda. Elas não são fashionistas, não estão preocupadas em comprar aquilo que todo mundo está usando agora. Eu comprei uma vez uma camiseta preta com estampa de cachorro raivoso porque todo mundo estava usando na Semana de Moda. Gente, uma camiseta-preta-com-estampa-de-cachorro-raivoso. Usei uma vez só. Ser fashionista nos faz agir como pessoas que não pensam, estão apenas seguindo a multidão. Não quero ser essa pessoa. Quero usar roupas onde eu me sinta bem e bonita.

Achas mais fácil fazer esse projeto no Rio do que em Florianópolis?
Na hora de montar o seu armário novo, há vários pontos a se considerar: o seu trabalho é formal? Você sai muito à noite? Como é o clima no lugar onde você mora? Antes de escolher quais peças vão fazer parte da sua vida você precisa conhecer que vida é essa. Eu tinha muitas peças de paetê mesmo que eu não tenha pisado numa balada há 3 anos. Vendi tudo. Priorize o que você realmente usa no seu dia a dia e abandone o que você está sem usar há um ano. Em lugares com estações bem marcadas, como Santa Catarina, eu acho que é legal separar o guarda-roupa de inverno e de verão. Guardar um e usar só o outro, limitando o número de peças para cada. Se vão ser 20, 50, 100 peças, não importa. A ideia é colocar um limite no seu consumo.

DIÁRIO CATARINENSE
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