Mesmo com dólar alto, SC registra queda nas exportações em relação a 2014 Carlos Severo/Fotos Públicas

Moeda pulou de R$ 2,60 em janeiro para R$ 3,80 em setembro, segundo Banco Central

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Uma projeção comum no mercado internacional é que a alta do dólar estimula a exportação e, por outro lado, freia as importações. Mas hoje este não é o cenário em Santa Catarina, apesar da disparada da moeda americana, que na última semana chegou a custar aproximadamente R$ 4, alavancada pela retirada do selo de bom pagador do Brasil.

No acumulado do ano, o Estado ainda apresenta um quadro deficitário com oscilações negativas na balança comercial exterior. Somente nestes oito meses de 2015, o dólar pulou de R$ 2,6 em janeiro para R$ 3,8 em setembro, segundo dados do Banco Central, em aumento constante. Trata-se de um encarecimento de 46% da moeda no período.

Já entre janeiro e agosto, de acordo com informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), Santa Catarina apresentou pouca alteração no volume de exportações e importação, chegando no acumulado do ano a U$ 5,4 e U$ 9,1 bilhões, respectivamente. No mesmo período de 2014, os valores foram de U$ 6,1 e U$ 10,5 bilhões.

A exportação dos principais produtos de Santa Catarina caiu nos oito meses deste ano comparado com o mesmo período de 2014. A soma do exportado em frango, soja, fumo, carne suína e motores elétricos chegou a US$ 2,1 bilhões em exportações no acumulado de 2015, enquanto que no ano passado este valor foi de US$ 2,6 bilhões.

Estados Unidos, China e Japão – países que mais importam de SC – também desaceleraram o consumo: US$ 1,6 bilhão até agosto de 2015 contra US$ 2 bilhões um ano atrás.


Para a presidente da Câmara de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de SC (Fiesc), Maria Teresa Bustamante, há fatores internos que ainda obstruem o comércio internacional em SC.

– Temos que compreender o que exportações e importações envolvem. Os produtos mais exportados do Estado tem um alto custo de produção por conta da carga tributária e o preço fica pouco competitivo no mercado internacional. Envolve também a falta de financiamento adequado às exportações, problemas em infraestrutura e burocracia que aumentam os custos.

Desta forma o Brasil perde para outros países, como os asiáticos, que oferecem produtos similares a preços mais atrativos – afirma a economista. 

Empresários citam barreiras para crescimento

A iniciativa privada também aponta outras barreiras internas ao desenvolvimento de relacionamentos comerciais com outros países.

No estudo Análise do Comércio Internacional Catarinense, produzido e apresentado pela Fiesc, mais de 85% dos empresários entrevistados consideram como obstáculos a acirrada concorrência internacional, o custo de transporte internacional, a burocracia tributária brasileira, a política cambial, o acesso a financiamento e greves. 

– A inserção na cadeia global leva normalmente à competição acirrada e custos altos, então o empresariado brasileiro precisa se acostumar. O que as empresas precisam mesmo desenvolver é uma cultura exportadora.

Há diversos canais de educação, como o Sebrae, voltado para as pequenas e médias, para aplicar conceitos de comércio internacional na gestão - disse Maria Teresa.   

Burocratização ainda é entrave para o comércio

O fluxo de exportações e importações pode ser facilitado com a melhora no relacionamento entre operações privadas e as exigências legais do governo federal. Parte do empresariado que busca expandir os negócios para além das fronteiras nacionais afirma enfrentar gargalos burocráticos no escoamento da produção para outros países.

Jurandir Paz de Oliveira, sócio da Reason – empresa associada à Alstom que oferece soluções e serviços em energia elétrica sediada em Florianópolis –, diz que a elevação do dólar tem lados positivos e negativos para as exportadoras, mas por conta da lentidão dos trâmites burocráticos, muitos produtos chegam com atraso a outros países, o que prejudica o crescimento das negociações internacionais.

– Existe uma etapa do processo de exportação que não fica na mão do exportador, mas que está exclusivamente nas mãos da aduana (Receita Federal), que exige tempo de análise de documentação e o grande problema disso é a falta de visibilidade de quanto tempo irá durar. Precisamos urgentemente superar estes entraves – diz o empresário.

Este é um exemplo de burocracia na parte da liberação das cargas considerado muito relevante por 79% dos entrevistados pela pesquisa de comércio internacional da Fiesc.

O estudo também aponta que o obstáculo interno às exportações mais citado entre os empresários é a “necessidade de estruturação interna de forma a implementar as estratégias adequadas”. Outro motivo citado foi a priorização de produção voltada ao mercado interno.  

Governo federal prepara portal único

A resposta do governo federal à demanda do setor privado por “desburocratização” na venda de produtos foi a criação, ainda em andamento, do Portal Único de Comércio Exterior, desenvolvido pela Secretaria de Comércio Exterior do Mdic.

Pretende-se com esse projeto a reformulação e a limpeza dos processos de  exportação-importação e do trânsito aduaneiro, centralizando num único sistema as operações de comércio.

O programa está em andamento há dois anos e deve ser entregue em parcelas, conforme as funcionalidades do portal forem sendo concluídas. A entrega do módulo de exportação está prevista para entrar em operação no final de 2016. Já a de exportação, um ano depois.

Segundo Márcia de Souza, uma das coordenadoras do Portal Único em Brasília, a ação foi estimulada a partir de encontros com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI).

– Vimos que muitos problemas acabam caindo na burocratização. Então o Portal Único segue o conceito de janela única: ideia de ter um único ponto de contato do empresário que trabalha com comércio exterior com o governo. Toda a demanda vai para um lugar só. O governo vai processar esse fluxo de informação e dar o retorno ao operador pelo mesmo ponto de contato. Estamos limpando isso, fazendo um fluxo mais inteligente – disse a coordenadora.

DIÁRIO CATARINENSE
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