Moradores do Vale do Itajaí mantém estado de alerta aos fenômenos climáticos Rafaela Martins/Agencia RBS

Dona Catarina Becker mora na Rua 1° de Janeiro, a casa dela é uma das primeiras a pegar água

Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

O número 1.555 da Rua 1º de Janeiro é um dos primeiros a ser tomado pelas águas do Ribeirão Itoupava quando chove em Blumenau. Catarina Becker, 65 anos, mora na casa há 20 anos e mantém o sorriso no rosto, mesmo sabendo que há risco de chuva acima da média para os próximos meses. Quando o pai dela, natural de Campos Novos, comprou o terreno há 30 anos, mal sabia que a rua era a primeira a alagar em Blumenau. Catarina já perdeu as contas de quantas enchentes enfrentou, mas a organização da família e a ajuda dos vizinhos ajudaram a minimizar as perdas nas últimas cheias.

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— Estou rezando para que não venha a água que estão dizendo que vem. Fico de olho na previsão o tempo todo e troco mensagens com os vizinhos. Aqui todo mundo se ajuda porque a natureza não espera e nem manda recado.

Ela, o marido, os seis filhos, três gatos e oito cachorros têm lugar fixo para ficar caso o nível do ribeirão suba. Se a situação é crítica, todos já sabem o roteiro: uma empresa cede o espaço para a família e ajuda com caminhões para fazer o transporte dos móveis. Em novembro de 2008, quando o rio Itajaí-Açu alcançou 11,92 metros e 21 pessoas morreram por conta de deslizamentos, Catarina e a família ficaram por um mês e meio vivendo no galpão até que a rotina voltasse ao normal.

Ajudar os vizinhos é a missão dela

Do outro lado da cidade, no bairro Garcia, Maria das Graças Westphal, 57, é uma das primeiras a ocupar o abrigo na Igreja Santa Luzia quando chove forte. O problema na região onde ela mora, nos arredores da Rua Araranguá, deixou dois vizinhos mortos em 2008 por causa dos deslizamentos. A casa dela, localizada em uma encosta, tem a proteção de um muro e o barranco nos fundos tem uma camada de cimento para evitar desmoronamentos. A casa nunca foi atingida, mas a missão de Maria das Graças é ajudar os vizinhos.

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— Quando a chuva começa eu saio de casa com meus dois netos e deixo meu marido e filhos em casa para ajudar a vizinhança e tirar as pedras e lama da tubulação para a água escoar. No abrigo sempre há muita coisa pra fazer e gente pra ajudar — conta Maria das Graças, que troca mensagens de celular e por meio do Facebook com os vizinhos e a Defesa Civil quando a previsão é de enxurrada.

Estratégias para se proteger das chuvas

Quem já perdeu tudo em uma enchente tem na ponta da língua os motivos para se proteger das chuvas. Em Itajaí, moradores que sofreram com as últimas duas cheias já pensam em estratégias caso as águas voltem a invadir a cidade. Há um ano, Eliane da Luz de Paula, 39 anos, se mudou para a nova casa no bairro Promorar. A moradia tem estrutura diferente da anterior e foi pensada justamente para evitar a tragédia — até a pia da cozinha é de concreto.

— Já perdi tudo em duas enchentes, em 2008 e 2011, então decidimos vender a casa que tínhamos e comprar um novo terreno. Agora fizemos ela mais alta justamente pensando nisso. Embaixo só tenho a cozinha, o restante das coisas fica na parte de cima. O medo é muito grande — relata.

As vizinhas Márcia Regina Lamin e Beatriz Faial, moradoras do Cordeiros, também perderam tudo na enchente de 2008. No ano seguinte, as duas buscaram soluções para se prevenir. Márcia conta que se a água invadir a rua novamente já tem para onde levar os móveis. A nova casa que construiu também possui uma laje para abrigar os objetos, se for preciso.

— Na primeira vez não consegui tirar nada de casa, mas agora tenho para onde levar. Não quero passar por aquilo de novo. Moro aqui há 14 anos, a gente tem que ir se adaptando — conta.

Beatriz diz construiu um quarto mais alto para onde pode levar as coisas da casa quando ocorre algum alagamento. A moradora diz ainda que mandou dragar parte do terreno para facilitar o escoamento da água.

DIÁRIO CATARINENSE
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