Os detalhes do esquema de doleiros que movimentava US$ 600 milhões ao ano a partir de Santa Catarina Marcos Porto/Agencia RBS

A estimativa é que R$ 2 milhões tenham sido apreendidos na operação

Foto: Marcos Porto / Agencia RBS

Crimes financeiros como fraudes cambiais, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e uso de laranjas para movimentar dinheiro estão no foco da Operação Ex-Câmbio, deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná. Quatro organizações criminosas estariam envolvidas no esquema, com núcleos centrais em Balneário Camboriú, Itajaí e Dionísio Cerqueira, em SC. A suspeita é que, juntos, movimentavam US$ 600 milhões (cerca de R$ 2,4 bilhões) por ano.

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Em uma das maiores operações já feitas no Estado neste ano, a PF mobilizou 280 policiais para cumprir 27 mandados de prisão, 10 de prisão preventiva e 17 de prisão temporária, além de 68 mandados de busca e apreensão e 10 mandados de condução coercitiva. As prisões se concentraram em Balneário e Itajaí (18), Joinville (1) e Dionísio Cerqueira (2), Chapecó (1) e Porto Alegre (1). Também foram alvos de mandados as cidades de Itapema, Porto Belo, Curitiba e Barracão.

A movimentação de veículos em frente à delegacia da Polícia Federal em Itajaí também foi intensa durante toda a manhã e tarde. A rua chegou a ser bloqueada para que as viaturas e agentes pudessem circular com tranquilidade. Na ação, 87 contas bancárias bloqueadas, 20 veículos foram apreendidos e 37 imóveis foram sequestrados, entre eles apartamentos de alto padrão, iates e automóveis de luxo. A estimativa da polícia é que as apreensões em espécie, nesta terça, estejam na casa de R$ 1,5 milhão, entre dólares, pesos argentinos e reais.

— Essa operação começou em 2011 com a apreensão de US$ 87 mil que estavam sendo transportados ilegalmente em Joinville. Depois, descobrimos que dois grupos se concentravam no litoral e o inquérito foi instaurado em 2013 em Itajaí — explica o delegado que coordenou a operação, Christian Wurster.

Com a descoberta dos dois primeiros núcleos, a PF chegou a outros dois doleiros. Wurster acredita que o turismo e a grande movimentação de estrangeiros na região tenha motivado o surgimento das organizações no litoral. Já em Dionísio Cerqueira, foi a proximidade com a fronteira e o fácil acesso ao mercado paralelo do dólar argentino que deu origem ao grupo. A polícia tem notícias de que os crimes vinham acontecendo desde meados dos anos 2000.

O esquema

De acordo com o coordenador da operação, os grupos criminosos se travestiam de correspondentes cambiais e, através dessa fachada, atuavam como doleiros. A estrutura era usada para prática de crimes financeiros, como transporte clandestino de moeda para o mercado paralelo, lançamentos falsos no sistema do Banco Central, boletagem — falsificação da identidade de pessoas físicas para justificar operações de câmbio manual até o limite de US$ 3 mil — e remessas ilegais de dinheiro ao exterior via dólar cabo (modo ilegal de enviar ou trazer dinheiro por meio de compensações entre contas de doleiros e seus clientes).

— Esses correspondentes têm uma série de exigências para cumprir e essas atividades não eram realizadas. Eles eram uma grande fraude — explica o delegado.

Dois gerentes de bancos, conduzidos coercitivamente nesta terça para prestar esclarecimentos, atuariam em conjunto com as organizações. A polícia explica que eles auxiliavam os doleiros a administrar contas bancárias em nomes de laranjas.

A estimativa, segundo Wurster, é que o lucro dos doleiros chegasse a 1.000% sobre as transações. Já o perfil dos clientes era composto por pessoas físicas e jurídicas que tinham interesse em movimentar valores em dólar no mercado paralelo, mesmo pagando uma taxa um pouco mais alta.

— As transações podem esconder diversos tipos de crimes, como superfaturamento de exportações, corrupção, contrabando, não pagamento de impostos ou até a compra de imóveis de luxo. Se esse dinheiro precisa ir por esse caminho é porque não é lícito. É isso que estamos investigando. Depois queremos chegar a origem ou aos verdadeiros donos do dinheiro — observa.

Os envolvidos, que não tiveram o nome divulgado, responderão pelos crimes de gestão fraudulenta de instituição financeira, instituição financeira clandestina, fraude cambial, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e integração de organização criminosa.

Confira a galeria de fotos da Operação Ex-Câmbio:


Prejuízos

Conforme o delegado, os prejuízos provocados pelos crimes investigados são os mais diversos. Desde prejudicar o controle nas divisas do país até criar problemas para a credibilidade do sistema cambial brasileiro.

— O crime de evasão de divisas relacionado ao sistema de dólar cabo promove o enriquecimento de outros países. Nós temos ainda problemas com a lisura do nosso sistema cambial, fraudes no lançamento dos sistemas do Banco Central, problemas no controle de lavagem de dinheiro no país e também a remessa ilegal de valores para o exterior — avalia.

O SOL DIÁRIO
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