A economia do "faz de conta" no país de Cristina Rodrigo Lopes/Agência RBS

Foto: Rodrigo Lopes / Agência RBS

Na Argentina governada há 12 anos pelos Kirchner (primeiro Néstor, falecido em 2010, depois Cristina, que deixa o poder no fim do ano), pobre não pode ser chamado de “pobre”.

— Não podemos estigmatizá-los – costumam dizer os ministros kirchneristas.

Nas ruas de Buenos Aires, a manipulação das estatísticas da economia, como a inflação, é reconhecida até por apoiadores.

— Se mente só um pouquinho – diz um eleitor de Cristina.

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Em se tratando de números oficiais, nada é o que parece neste país que vai às urnas no próximo domingo para julgar o mandato de Cristina Kirchner. Especialistas críticos do governo usam uma metáfora.

— A Argentina hoje é como um lago que se observa à distância. Tem águas calmas, mas, por baixo, há fortes correntezas – afirma Dante Sica, diretor da Abeceb, consultoria especializada em análises econômicas.

Sempre maltratados em tempos de campanha eleitoral, os números, não é de hoje, aderiram à política. Cada grupo, no poder ou na oposição, os adapta conforme melhor se adequarem a suas opiniões. Tudo começou em 2007, quando o governo interviu no Indec, órgão oficial de estatísticas, uma espécie de IBGE argentino. Retirou de postos-chave os técnicos do terceiro andar, o setor que calcula a inflação, no prédio a duas quadras da Casa Rosada e atualmente coberto por uma bandeira do kirchnerismo.
 
Foi, para a oposição, o ato inicial da manipulação de dados. Um exemplo: a inflação, que estaria em 27% ao ano, segundo consultorias privadas, não passaria de 15%, de acordo com a estatística oficial. O último dado do Indec sobre pobreza é de 2013: 4,7% da população. Desde então, esse índice não estaria sendo medido pelo Indec “para não estigmatizar” os cidadãos. Calculado pela Universidade Católica da Argentina (UCA), esse percentual chegaria a 28%.

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Mas como planejar os rumos da economia, medir investimentos privados ou calcular os simples gastos na hora de consultar o extrato bancário? Kirchnerista de carteirinha, o gerente de um restaurante da Rua Florida Alberto Sutelo, aquele eleitor que afirmou que o governo “mente só um pouquinho”, aposta na observação:

— Tenho uma percepção pelo movimento aos sábados no restaurante. Se está cheio, as pessoas estão menos pobres.

Não que ele concorde com a manipulação dos números:

— Creio que, nisso, o governo erra.

Mas Sutelo relativiza:

— Não é que ocultam. Tomam apenas outros números como critério.

— Isso não é uma manipulação? – questiono.

— Um pouco...

Travamos esse diálogo na porta do restaurante onde Sutelo trabalha. Logo, forma-se uma rodinha. Claro, debater política e economia é quase tão tradicional em Buenos Aires quanto exaltar Maradona, Gardel ou Mafalda. Um cliente dá outro exemplo da vida nesse cenário de faz de contas:

— As centrais sindicais, quando querem negociar salários, usam o dado real para falar com os patrões.

O câmbio também não é o que parece. Com a compra controlada pelo governo, os argentinos precisam de autorização especial para adquirir moeda americana. Porém, em avenidas como a Corrientes, por exemplo, o dólar é negociado livremente:

— Câmbio... câmbio – balbuciam vendedores.

No paralelo, US$ 1 é igual a 16 pesos, enquanto no mercado oficial US$ 1 sai por 9,5 pesos. Justamente o que Cristina queria evitar, acontece a olho nu, como testemunhou ZH: os argentinos se acostumaram a ter na segurança do dólar uma garantia diante da falta de clareza sobre a quantas anda a economia do país.







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