Alta de preços e incertezas econômicas mudam hábitos de consumo nos supermercados de SC Rafaela Martins/Agencia RBS

Foto: Rafaela Martins / Agencia RBS

Na contramão do cenário nacional, as vendas dos supermercados em Santa Catarina subiram em agosto. Se no Brasil houve queda de 4%, no Estado as vendas cresceram 2,76%. O problema é que não vai dar para comemorar o resultado positivo por muito tempo. A Associação Catarinense de Supermercados (Acats) espera queda nas vendas no segundo semestre. O retorno de antigos hábitos dos consumidores é um indicativo dessa retração.

O diretor comercial do Bistek, Walter Ghislandi, afirma que as vendas na rede subiram 11% no primeiro semestre, mas há tendência de queda no segundo. No mês passado, segundo ele, as vendas empataram com agosto de 2014. O diretor acredita que a curva em declínio é um reflexo das demissões no Estado nos meses de maio e junho.
Segundo Ghislandi, a crise tem motivado uma série de mudanças no posicionamento da rede. Uma delas é o enxugamento do mix de produtos. O diretor explica que o Bistek tem focado na compra de marcas com maior giro.

Florianópolis tem a segunda cesta básica mais cara do país segundo Dieese

Já o Imperatriz está atento para criar promoções. O diretor de expansão e marketing, Vidal Lohn, afirma que a rede aproveitou a substituição da carne bovina pela de frango para lançar, na semana passada, a Quarta do Frango, quando todos os produtos relacionados à carne, inclusive ovos e nuggets, ganham desconto.

De acordo com o gerente de uma das unidades do supermercado Giassi em Joinville, Marcelo de Oliveira, produtos com maior valor agregado e importados tiveram impacto maior: 

— Tivemos uma queda, por exemplo, nas vendas de produtos como perfumaria, vinhos e bebidas importadas. Ao mesmo tempo, setores como carnes, pães, grãos e verduras continuam bem.



O presidente da Acats, Atanázio dos Santos Netto, afirma que a alta nos preços e a interrupção na geração de novos empregos, que estava garantindo o aumento da massa salarial no mercado, podem comprometer os resultados.

Pesquisa de preços e compras no atacado

A diarista Sandra Ramos, 37, e o vigilante Robson de Abreu Barros, 39, mudaram a forma como vão às compras em Florianópolis. Ela conta que o casal costumava gastar de R$ 600 a R$ 700 por mês no supermercado. Segundo ela, se mantivessem o hábito de várias compras por mês, com as mesmas marcas, os gastos estariam hoje em R$ 800. O casal, no entanto, conseguiu reduzir a conta para R$ 400 mensais. 

Levantamento mostra em que dias da semana os grandes supermercados de Blumenau oferecem preços mais baixos

— Hoje, supermercado é só uma vez ao mês. Antes de sair de casa, vou ao armário e vejo o que estamos precisando. Também começamos a testar novas marcas — diz.

Em Blumenau, as vizinhas Cecília Souza, 59, e Jaqueline Theiss, 37, resolveram unir forças para driblar a crise: fazem juntas as compras por atacado e dessa maneira conseguem preços melhores. As duas costureiras vão juntas ao mercado que vende por atacado e varejo e escolhem os produtos sempre com base no melhor preço. No carrinho, um fardo de embalagens de filtros de café que será dividido entre as duas mulheres, assim como o restante dos produtos. De acordo com elas, é possível economizar cerca de R$ 0,30 por embalagem — R$ 1 no pacote.

— Um fardo de um produto é muito para uma família, mas tendo com quem dividir, fica bom e mais barato para todos — disse Cecília.

A dona de casa Alcilene de Nazaré Souza, 42, tem outras estratégias para economizar em tempo de crise. Faz uma pesquisa nos mercados antes de comprar,  aproveita os dias de promoção, trocou a carne vermelha pelo frango e porco e compra embalagens grandes que saem mais em conta:

— Para variar, faço o frango de diferentes maneiras: assado, frito, com molho e com verduras.

Com Osiris Reis e Átila Froehlich

MUDANÇA DE HÁBITOS
Veja antigos hábitos que estão de volta nos supermercados

Troca de marca
O consumidor quer pagar menos e escolhe marcas mais baratas, embora tente preservar a qualidade dos produtos que leva para casa. Marcas que costumam estar no segundo lugar em vendas ganham destaque.

Substituições
A troca não é somente das marcas, mas dos produtos. Uma das substituições mais comuns é a da carne bovina por suína ou de frango. As vendas de pernil suíno nos supermercados no país aumentaram 5,29% em agosto frente ao mesmo mês de 2014.

Menos frequência
É a volta do rancho. O tíquete médio das compras é até mais alto, e isso ocorre porque o consumidor tem evitado ir muitas vezes ao supermercado. Ele está se planejando melhor, procurando comprar somente o necessário.

Compras no início do mês
As idas ao supermercado têm diminuído e se concentrado nos primeiros 10 dias do mês.

mais atenção às ofertas
Promoções em pacotes, do tipo “pague dois, leve três” voltaram com tudo. O consumidor, por outro lado, está mais precavido. Analisa a quantidade de produto oferecido e faz as contas, caso a caso, para saber se comprar mais realmente vale a pena. Com isso, as compras no formato atacarejo também cresceram.

OBJETIVIDADE
A compra é precisa, planejada, pautada pela lista de produtos em falta em casa.

falta de produtos
O consumidor pode estar se deparando com vazios nas gôndolas. Entre os motivos, estão a resistência do supermercado em comprar produtos mais caros dos fornecedores e o medo de ficar com itens encalhados.

Fonte: Abras, Acats, Imperatriz, Bistek e Jailon Giacomelli, consultor da Par Mais

DIÁRIO CATARINENSE
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