Crise do PT faz Haddad se aproximar da Rede César Ogata/Secom / Divulgação

Haddad tem negado qualquer conversa com outros partidos

Foto: César Ogata / Secom / Divulgação

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, está sendo pressionado por aliados a deixar o PT e iniciou uma série de consultas a conselheiros da política e do mundo acadêmico sobre a possibilidade de abandonar o partido pelo qual foi eleito.

O entorno de Haddad acha que, pelo PT, ele não tem chances de se reeleger. O prefeito também teme que o desgaste do partido por causa das denúncias possa dificultar sua reeleição. Por enquanto, a opção preferencial de Haddad seria integrar a Rede, legenda recém-criada pela sua amiga e ex-colega de ministério Marina Silva. Em público, o prefeito nega a movimentação.

Conforme a nova regra eleitoral, fica permitida a troca de partido até seis meses antes das eleições. Será considerada justa causa para a desfiliação "mudança substancial ou desvio reiterado do programa partidário".

"Estou com Eduardo Cunha, o PMDB deveria sair do governo", diz Marta Suplicy
Indefinição sobre futuro de Cunha emperra votação de projetos na Câmara

Apesar da pouca estrutura da nova legenda, Haddad está empolgado com as recentes declarações de Marina sobre a necessidade de um novo "campo de esquerda" no espectro político brasileiro após a crise do PT. Se for para a Rede, o prefeito de São Paulo seguirá o mesmo caminho de outros ex-petistas que estavam insatisfeitos, como o deputado federal do Rio Alessandro Molon.

A possibilidade provoca calafrios na cúpula petista, que vê na reeleição de Haddad a chance de o partido se salvar de um "tsunami eleitoral" nas eleições municipais do ano que vem.

O elo entre Haddad e Marina Silva tem sido a educadora Neca Setúbal, com quem o prefeito mantém contato desde o período em que ocupou o Ministério da Educação — na mesma época, Marina era ministra do Meio Ambiente do governo Lula. Algumas semanas atrás ela foi procurada pelo secretário municipal de Educação, Gabriel Chalita. Isolado no PMDB desde a entrada de Marta Suplicy na sigla, Chalita procura outro partido para se candidatar a vice de Haddad e propôs que a Rede integrasse a chapa do petista.

— O Chalita nos procurou e dissemos a ele que buscamos construir uma identidade para o partido a partir de um núcleo programático e que não é o caso, agora, de buscar um arranjo para a eleição em São Paulo — disse o porta-voz da Rede, Bazileu Margarido.

Ao rejeitar a proposta de Chalita, a Rede teria sinalizado interesse em ter Haddad como candidato em 2016. O prefeito, segundo membros da Rede, autorizou o secretário de Educação a prosseguir nas conversas com Neca.

Além de Neca, as consultas de Haddad incluem um grupo restrito de intelectuais e acadêmicos e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB). O flerte do prefeito com os tucanos não se restringe à relação com FHC. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), teria oferecido ao petista a possibilidade de ingressar no PSB. Haddad tinha excelente relação com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, morto no ano passado.

Haddad enfrenta dificuldades para deixar o PT

As dificuldades para a saída do prefeito do PT, no entanto, são muitas. Haddad administra um dos maiores orçamentos do país e é visto por seus colegas e correligionários como a maior esperança de renovação do partido.

Novos partidos chegam ao cenário político prometendo bandeiras mais claras
Por que o Brasil tem 35 partidos políticos registrados?

Outros entraves passam pela relação direta de Haddad com Dilma. O prefeito se queixa da falta de ajuda financeira do governo federal para sua gestão, mas mantém apreço pela presidente, que ele exclui do que chama de "crise ética".

Conforme um dos assessores de Haddad, o futuro dele no PT também depende do que vai acontecer com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu padrinho político e responsável pela candidatura vitoriosa à prefeitura de São Paulo em 2012. A decisão ainda não está tomada. "Não posso fazer isso com o Lula agora", teria dito.

PT não aceita saída antes das eleições

A aproximação entre os grupos de Haddad e Marina vinha sendo mantida em sigilo por causa da forte reação do PT à possibilidade de perder o comando da maior capital do país. Em público, Haddad tem negado qualquer tipo de conversa com outros partidos. O partido não aceita a possibilidade de Haddad ir para outra legenda antes de concluir seu mandato, que vai até o final do ano que vem.

Logo após a divulgação das movimentações do grupo do petista, as reações foram imediatas. O próprio prefeito usou sua conta na rede social Twitter para "desmentir" as informações. A educadora Neca Setúbal, por meio da assessoria de imprensa da Rede, negou ter se encontrado com Haddad ou com o secretário municipal de Educação, Gabriel Chalita, ultimamente.

Leia as últimas notícias

A reportagem ouviu uma dezena de fontes do PT, da administração municipal, da Rede e do PSDB, todas com acesso ao prefeito, para reconstruir as movimentações políticas dele. Todas confirmaram as insatisfações de Haddad com seu atual partido e com o governo federal, além de confirmarem o início das tratativas com a Rede de Marina Silva.

* Estadão Conteúdo

ESTADÃO CONTEÚDO
 Veja também
 
 Comente essa história