Segurando a mão do neto Francisco, de cinco anos,  Mario Pierotti entrou pela porta lateral da Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, um dos maiores centros de votações da capital argentina, às 10h35min deste domingo. Deixou a filha e o outro neto brincando na escadaria do grande edifício em estilo neclássico do bairro da Recoleta. Só conseguiu sair às 11h20min, quase uma hora depois. Não que Pierotti, aos 70 anos, funcionário aposentado do ramo de petróleo, estivesse em dúvida sobre em quem votar. Apenas não queria escolher os candidatos à presidência e ao Congresso da mesma coalizão.

Acompanhe o blog Rodrigo Lopes direto da Argentina

O que, no Brasil, bastaria apenas digitar números diferentes na urna eletrônica, aqui exigiu de Pierotti e dos cerca de 30 milhões de argentinos aptos a votar uma habilidade extra. O processo é todo manual: o eleitor argentino escolhe uma cédula inteira da coalizão – pronta, como se fosse um santinho, com os nomes de todos os candidatos que compõem a aliança. Se não quiser votar em um dos políticos do mesmo grupo, precisa recortá-lo da cédula, buscar a de outro partido, colocar tudo dentro de um envelope e depositar na urna.

Fraturado, peronismo ainda move multidões na Argentina

— Demora um pouco, mas estou feliz porque é nossa chance de acabar de vez com este governo — disse Pierotti, eleitor do oposicionsta Mauricio Macri, ao deixar o “quarto escuro”, como os argentinos chamam a sala de aula que não tem nada de “escura”, onde são escolhidas as cédulas.

A demora não tirou o bom humor de Pierotti, mas junte esse processo artesanal à polarização a que chegou a Argentina nos últimos dias de campanha, com denúncias de tentativas de fraudes, para termos um ambiente de forte tensão. A principal preocupação dos partidos era de que, no momento em que o eleitor entrasse no quarto escuro, faltassem cédulas de seus representantes — o que poderia levar um indeciso a optar pelos rivais. Para evitar isso, um exército de fiscais foi contratado pelas legendas. Cada um tinha o direito a entrar na sala de tempos em tempos para ver se havia número suficiente de cédulas.

Leia mais notícias sobre a Argentina

Até o fechamento das urnas, às 18h deste domingo (19h em Brasília), a palavra mais ouvida entre analistas e estrategistas políticos era “cautela”. Algumas pesquisas de boca de urna parciais dão vitória ao governista Daniel Scioli (Frente para a Vitória) no primeiro turno, enquanto outras garantiam que o kircherista disputaria o segundo turno com Macri (Cambiemos). Era parte da guerra de números habitual no país, que desconhece inclusive seus índices reais de pobreza, inflação e desemprego. Os primeiros resultados oficiais estão previstos para o início da madrugada desta segunda-feira.

Buenos Aires amanheceu gelada e com chuva fraca, mas aos poucos o sol apareceu. A maioria dos eleitores — assim como os principais candidatos votaram pela manhã deste domingo. Acompanhado da mulher, Karina Rabolini, Scioli votou em Tigre.

— O povo argentino amadureceu muito. Há muita expectativa no mundo, então que ninguém atrapalhe esse processo eleitoral — pediu.

Os dois candidatos da oposição falaram em mudança.

— Esperamos que, ao fim, possamos dizer que começou uma nova história em nosso país — disse Macri.

— Alem do resultado, começa uma nova etapa — afirmou Sergio Massa.
A presidente Cristina Kirchner votou no reduto eleitoral do casal K, Rio Gallegos, na província de Santa Cruz. De bom humor, cumprimentou todos os fiscais de mesa e, como de costume, lembrou o marido, o ex-presidente Néstor, morto em 2010:

— Sinto que cumpri uma promessa que fez em 25 de maio de 2003 ao país um santacruzense que disse a todo o povo que iríamos chegar a votar em um pais normal. E assim ocorre.

Como a provocar uma frase de epitáfio de seu governo, um jornalista questionou o que ela faria ao deixar a Casa Rosada:

— O de sempre, vou militar.

*Zero Hora

 Veja também
 
 Comente essa história