Droga alucinógena mais pontente que o LSD desafia as autoridades Lauro Alves/Agência RBS

Perito criminal Rafael Ortiz mostra equipamento usado pela Polícia Federal para detectar NBOMe e outras drogas

Foto: Lauro Alves / Agência RBS

A identificação de uma nova droga coloca Santa Catarina — considerada um paraíso de drogas sintéticas — em alerta. O Estado ocupa a quarta posição (5,56%) no ranking nacional de apreensões da substância NBOMe divulgado pela Polícia Federal com números de todo o país — atrás de Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte, ambos com 7,78%. A maioria é encontrada em São Paulo (31,11%) e no Paraná (13,33%).

Em uma festa no velódromo da Universidade de São Paulo, o estudante Victor Hugo dos Santos, de 20 anos, morreu após ingerir uma substância alucinógena. Já em Caxias do Sul (RS), três jovens com idades entre 17 e 20 anos compraram o pó pensando ser cocaína. Cheiraram e, de forma quase instantânea, começaram a ter convulsões. Um deles entrou em coma. Os dois casos — em setembro de 2014 em SP e no mês passado no RS — têm personagem em comum: o NBOMe.

O delegado Gustavo Trevisan, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Polícia Federal em Florianópolis, afirma desconhecer o registro de apreensões da nova droga, o que não significa que ela não esteja sendo comercializada no Estado:

— Pode ser que tenha ocorrido a apreensão, porém, foi registrado como LSD. Costumo conferir todos os laudos e não me recordo de nenhum que tenha passado por mim com essa substância.

Identificação ocorre somente com perícia

Parte da explicação para a falta de registro de NBOMe pode estar relacionada ao fato da droga ser detectada somente por perícia.

— Nesse ano, somente nos primeiros cinco meses, o número de solicitações de perícia da PF para identificar NBOMe em apreensões foi praticamente o mesmo que em todo o ano de 2013 — aponta o farmacêutico bioquímico Carlos Alberto Wayhs, que pesquisa o perfil das apreensões da droga no Brasil.

Apesar de vendido como LSD — na maioria das vezes em selos — é mais forte, com alto nível de toxicidade. O gosto amargo é a principal diferença em relação à droga conhecida como “doce”.

— O NBOMe tem mecanismo de ação muito similar ao do LSD. É um alucinógeno, o que é buscado pelo usuário. Só que os efeitos tóxicos são muito mais graves. Há alto risco de overdose em porções menores — afirma o perito criminal da Polícia Federal Rafael Ortiz.

A concentração do princípio ativo do NBOMe, também encontrado em pó, líquido, cápsulas ou comprimidos, pode ser até 40 vezes mais alta do que no LSD, dependendo da forma como é consumido. Além disso, o tempo de ação chega a 12 horas, quase o dobro da duração média do LSD.

Produto era liberado no Brasil até 2014

O conhecimento toxicológico do NBOMe é tão recente quanto a proibição. Na Europa e nos EUA, foi vetado apenas em 2013. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) só incluiu a droga na lista de substâncias proibidas em fevereiro de 2014.

Antes disso, era conhecido como LSD “legal” ou “genérico”. Traficantes saíam impunes na Justiça, pois peritos não conseguiam atestar presença de dietilamida do ácido lisérgico nas apreensões e ainda não se sabia como identificar NBOMe.

— Com certeza, todos os casos até 2014 não foram penalizados, porque a Anvisa não considerava o NBOMe uma droga até então. A análise química das substâncias apreendidas necessita de uma certeza muito elevada, porque é a partir da comprovação no laudo que a pessoa é penalizada, configurando a materialidade do crime — sustenta o perito criminal da Polícia Federal Rafael Ortiz.

Atualmente, são conhecidos ao menos 11 tipos de compostos psicoativos do NBOMe. Quatro deles identificados no Brasil.

O alerta do risco do consumo de drogas “legais” é alertado por policiais da Decod de Florianópolis que registram o aparecimento de um grande número de novas substâncias sintéticas na Capital e a dificuldade do combate é justamente o fato de nem todas serem consideradas proibidas ou mesmo identificadas pela Anvisa.

Colaborou Diogo Vargas

DIÁRIO CATARINENSE
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