Era uma vez uma festa de casamento em 1810. O Rei Luis I se casou com a princesa Teresa da Saxônia e organizou um baita festerê em Munique, na Alemanha. Dizem que foi uma festa tão boa que na verdade ela nunca acabou. A rainha morreu em 1854, o rei em 1868 e a gente segue comemorando o casório dos dois todos os anos no mundo inteiro, inclusive em Blumenau. Foi assim que nasceu a Oktoberfest.

Bom, em Blumenau tudo começou por outros motivos. Duas enchentes destruíram a cidade e todo mundo andava meio borocochô: faltava uma animação e foi aí que decidiram fazer a festa. A coisa começou tímida, mas no início da década de 90 chegou a receber mais de um milhão de visitantes e consagrou-se como a segunda maior Oktoberfest do mundo (em Munique, a conta passa de seis milhões de pessoas). Mas hoje em dia pode não ser bem assim: em 2014, 458.550 visitantes cruzaram as catracas da Vila Germânica.

Existe uma Oktoberfest no Canadá, em Kitchener-Waterloo, que propagandeia mundo a fora um público de 700 mil a 1 milhão de pessoas por ano. O pessoal que cuida da edição blumenauense disse que os organizadores canadenses estiveram na cidade e admitiram que a nossa é maior. Mas oficialmente a matemática ainda é outra. E há ainda os norte-americanos de Cincinnati querendo jogar água no nosso chope: a Oktober deles recebe meio milhão de visitantes, conforme a organização. E agora?

Está claro que a gente gosta de Oktoberfest, mas os alemães gostam ainda mais desse tipo de festa. Bom, para quem acha tumultuado demais visitar Munique em pleno mês de setembro (por que raios eles insistem em chamar de Oktoberfest é uma pergunta que eu não sei responder!), o calendário de festas se estende o ano inteiro pelo país. Quando a Oktoberfest acaba no Sul da Alemanha, as coisas se animam no Norte. É em Bremen uma das maiores festas do país, a Freimarkt, que divide o segundo lugar em público, com cerca de 4,4 milhões de visitantes, com a Cranger Kirmes, a quermesse da cidade de Crange. A Rheinkirmes, em Düsseldorf, também recebe mais de 4 milhões de pessoas.

Conheci bem a Freimarkt: fui a várias edições. Ok, fui a poucas, considerando que a festa existe desde 1035. A história é bem interessante e bastante viva por lá. Bremen foi uma importante cidade da liga Hanseática, uma zona de cooperação comercial entre algumas cidades do Norte europeu no fim da Idade Média e é, até hoje, um estado independente. Duas vezes por ano a cidade abria suas portas por uma semana para que comerciantes estrangeiros pudessem montar suas barracas pelas ruas e fazer negócios. Era a chance de comprar provisões para o duro inverno do Norte. Hoje em dia, as provisões perderam espaço e vende-se muito mais salsichas e cerveja, claro.

No fim das contas, essa matemática toda de visitantes só serve para provar que a Alemanha é um país bem festeiro, contrariando a fama de frieza. Há quem faça piada com o a animação e o talento musical dos alemães e diga que o último músico decente que o país lançou para o mundo foi Beethoven. Mas implicâncias à parte, as bandinhas alemãs são hit internacional. Ao menos em outubro.

Quanto à capacidade de reinventar a fórmula e de fazer essa trilha sonora virar diversão, garanto que a Oktoberfest de Blumenau não tem concorrentes, nem aqui na Alemanha. Se o quesito for animação, a festa blumenauense é a campeã em todos os números. O Rei Luis I e a Rainha Teresa que me perdoem. Nós nunca casamos ninguém da realeza em Santa Catarina, mas nossa Oktoberfest é muito mais divertida que o casamento deles. E nem precisamos servir bem-casados.
JORNAL DE SANTA CATARINA
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