Fraturado, peronismo ainda move multidões na Argentina JUAN MABROMATA/AFP

No Luna Park, na quinta-feira, Scioli foi ofuscado por Zannini (sentado à esquerda), que eletrizou simpatizantes

Foto: JUAN MABROMATA / AFP

Lembrada em todos os comícios do candidato Daniel Scioli, favorito nas eleições presidenciais deste domingo na Argentina, a memória de Juan Domingo Perón anda malcuidada em Buenos Aires.

Pelo menos nos arredores do recém-inaugurado monumento de cinco metros de altura que homenageia o general — pasmem, a capital argentina não tinha um! —, distante três quadras da Casa Rosada.

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A estátua em bronze ainda está sem pichações, mas as seis coroas de flores depositadas aos pés do mais famoso político do país estão ressecadas. Ninguém as trocou desde o dia 8 de outubro, quando foi inaugurada — pasmem novamente! — pelo prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri, o principal candidato rival do peronismo, de Cristina Kirchner e Scioli.

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Desgastado como as coroas de flores do monumento está o kirchnerismo, uma das facções que compõem a colcha de retalhos do peronismo. Há muitas outras: menemistas (grupo do ex-presidente Carlos Menem), duhaldistas (seguidores do também ex-presidente Eduardo Duhalde), peronistas federais, peronistas dissidentes, montoneros. Mesmo imerso em acusações de corrupção, às rusgas com a imprensa e com setores industriais, Cristina chega ao fim do mandato com 40% de aprovação.

— São os mistérios da política argentina — diz um empresário ligado à oposição.

Como a presidente estaria perto de eleger, neste domingo, um sucessor? Suas diferenças com Scioli são públicas. Cristina costumava dizer que o colega estaria muito à direita do partido. De fato, Scioli nunca se disse um kirchnerista.

Amante de esportes náuticos — ele perdeu o braço esquerdo em um acidente com uma lancha — e empresário de sucesso, o governador de Buenos Aires flerta melhor com setores conservadores. Ao ser ungido candidato da Frente para a Vitória, acreditava-se que poderia apaziguar a convivência kirchnerista com os industriais.

"El Chino" é ligado ao Filho de Néstor e Cristina

Há quem diga que o verdadeiro poder da chapa emana da figura do vice, Carlos Zannini, conhecido como El Chino. O político, amigo do casal Kirchner há mais de 30 anos, seria o ideólogo de La Cámpora — grupo político presidido pelo filho mais velho de Néstor e Cristina, Máximo, a quem a mãe sonha ver, um dia, no poder.

A organização juvenil tem forte atuação nos bairros mais pobres. A presença de Zannini como vice seria uma imposição de Cristina.

— É uma forma de ela governar sem aparecer — afirmou a ZH um funcionário ligado à cúpula da coligação de Scioli.

Zannini tem uma capacidade de conexão com os eleitores muito maior do que Scioli. No evento no Luna Park, na quinta-feira, ele lembrou nomes históricos do peronismo, levantou os militantes com frases entusiasmadas e até se mostrou emocionado, quase chorando, quando citou "um amigo". Falava de Néstor:

— Quero que este país permaneça unido.

Foi o ponto alto do evento. Mais cerebral, Scioli não comoveu no Luna Park. E alguns militantes saíram antes do término da festa.

O próprio Perón explicava com uma metáfora felina as divisões internas do peronismo:
— Quando ouvem os peronistas gritando entre eles não é que estamos brigando. Estamos nos reproduzindo, como gatos.

Nos bastidores, há quem fale que mais uma ninhada estaria em gestação. Pelas mãos de Zannini, pode estar se consolidando o "cristinismo".

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Adiós, general

Obra do escultor Carlos Alberto Benavidez, a estátua de Juan Domingo Perón pesa 2,5 toneladas e é a mais recente atração turística de Buenos Aires. Custou 3 milhões de pesos. Está localizada em uma praça ao final da Rua Moreno. O lugar foi escolhido por ser próximo à Casa Rosada e por ficar a poucos passos da sede da Confederação Geral dos Trabalhadores.

Dois dos principais candidatos argentinos têm alguma relação com o esporte. Atual governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli foi, nos anos 1980, um dos mais importantes competidores de motonáutica do mundo. Em 1989, sofreu um grave acidente no Rio Paraná, quando perdeu o braço direito. O rival, Mauricio Macri, prefeito da capital, foi presidente do Boca Juniors entre 1995 e 2008.

Não é só a política que provoca discussões em Buenos Aires. Retirado dos fundos da Casa Rosada em 2013 por decisão do governo de Cristina Kirchner, o monumento a Cristóvão Colombo, do escultor Arnaldo Zocchi, foi substituído por outro, em homenagem a Juana Azurduy de Padilla, que estava na cidade de Mar del Plata.

Juana foi uma heroína das guerras pela independência. A disputa envolveu o governo federal e a prefeitura da capital, nas mãos do opositor Mauricio Macri.

Depois de dois anos "escondido", Colombo tem, desde julho, novo endereço: a Costanera Norte, na frente do Aeroparque.

Vocabulário de política argentina:

La Veda — É como os argentinos chamam o período em que está proibida a campanha política. Começou na sexta-feira e vai até o fechamento das urnas, neste domingo.

La Cámpora — Grupo político criado por Néstor e Cristina Kirchner com forte atuação popular. Um de seus principais nomes é Máximo, filho mais velho do casal. O nome da organização é uma homenagem ao ex-presidente argentino Hector J. Cámpora, que aceitou se apresentar como candidato nas eleições de março de 1973, após a ditadura militar. Seu lema era: "Cámpora ao governo, Perón ao poder".

Balotage — É o segundo turno na Argentina.

A Argentina é um dos únicos países onde, para ser eleito no primeiro turno, o candidato precisa de mais de 40% dos votos, além de uma diferença de 10 pontos percentuais sobre o segundo colocado. Outra opção: obter mais de 45%.

As pesquisas dão a Daniel Scioli entre 39% e 41% dos votos. Ou seja, sua vitória no primeiro turno não é certa. Num eventual segundo turno, previsto para 22 de novembro, surge o risco do voto anti-K (oposição unida contra o candidato de Cristina Kirchner).

ZERO HORA
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