"Há pouca pele entre Dilma Rousseff e Cristina Kirchner", diz especialista argentino Rodrigo Lopes/Agência RBS

Foto: Rodrigo Lopes / Agência RBS

Incensado na década de 1990, o Mercosul atingiu nos últimas anos o ponto mais baixo da história de sucessivas tentativas de integração do Cone Sul. Por um lado, a Argentina buscou alinhamento ideológico e econômico com Venezuela e Bolívia. O Brasil mirou suas estratégias para os EUA, que, recentemente fecharam um acordo com Japão e algumas nações latino-americanas — que exclui Argentina e Brasil.

No governo de Cristina Kirchner, as relações com o Brasil esfriaram a ponto de um dos principais consultores econômicos argentinos, Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb, afirmar que há “pouca pele” entre as duas presidentes. Segundo ele, um dos primeiros atos do futuro presidente da Argentina deve ser a retomada das relações entre os dois vizinhos – não sem antes mandar um recado ao mundo atestando a confiança nos dados públicos argentinos, como pobreza, inflação e Produto Interno Bruto.

Sica recebeu Zero Hora no 14 andar do elegante prédio Lola Mora, em Puerto Madero, para a seguinte entrevista:
 

A Argentina chega à eleição deste domingo melhor ou pior do que há 12 anos?
 
Se você observar como foram outras transições democráticas, esta tem alguns elementos parecidos. Do ponto de vista estrutural, a economia argentina está melhor. Se olharmos situações caóticas, como as crises de 2001 e de 1989 foram as mais fortes: dólar, hiperinflação. Hoje, estamos em uma eleição que marca também uma mudança de ciclo político. A economia tem alguns problemas parecidos com algumas dessas crises, mas não o grau de profundidade estrutural que tinha essas outras. Hoje, o principal problema é que há cinco anos vivemos um estancamento da economia, com crescimento da inflação: ou seja, o país não cresce, não gera novos postos de trabalho. Por outro lado, há uma altíssima inflação. Há nove anos, temos uma inflação de dois dígitos, e há cinco anos a não baixa de 22%.

Mas não é o que o governo diz...
Bem, mas isso o que estou dizendo é o problema real da economia. Ao não crescer, a economia não gera emprego. Ao não gerar emprego, não há melhores condições de vida. Não há investimento. Para poder crescer 3% de forma sustentável, com inflação baixa, você tem que ter investimento sobre o PIB de pelo menos 23%. Ao investir abaixo de 20%, o país não cresce. A Argentina tem uma macroeconomia muito desequilibrada. Esta administração, por um problema ideológico, por incapacidade política, por erro ou por omissão, mais do que corrigir os desequilíbrios de base, quis administrar os desequilíbrios de mercado. E, quando você, em uma economia, tenta administrar desequilíbrios, esquece regras. São muito mais intervencionistas.
 
A população não parece perceber esses paradoxos, a ponto de o candidato indicado por Cristina Kirchner ser favorito nas eleições, podendo ganhar no domingo.
Para a população, a economia não está tão mal. Este ano, com relação ao ano passado, melhorou a confiança do consumidor. O governo injetou muitos pesos por meio do gasto público, da expansão fiscal e monetária, para sustentar o consumo. Cristina Kirchner aumentou o investimentos em todos os programas sociais para setores da classe média e classe media baixa e subsidiou o crédito para consumo de setores médio. Isso melhorou. As duas variáveis claras que geram essa sensação de calma. Uma é o emprego. O governo conseguiu que o emprego não caísse. Não se gera novos, mas tampouco cai tanto. A outra variável é o câmbio. O argentino, ao não ter uma moeda saudável, refugia-se no dólar como segurança. Os argentinos não compram dólar para ganhar dinheiro, mas para não perdê-lo. É um refúgio. O sistema de seguro é uma prevenção contra catástrofes prováveis. Os argentinos, diante das incertezas, compram um seguro. O seguro é verde e tem a cara de Washington.

Em que se diferenciam os candidatos à presidência, então?
Independentemente de quem ganhe, terá de fazer os ajustes para voltar a crescer. Todas as discussões entre as equipes econômicas não é sobre a natureza das medidas. O candidato governista, ao não poder dizer que tudo o que fez a anterior está mal, terá de impor medidas de forma gradual. Já o opositor, no poder, poderá dizer “olha o que fizeram errado”, tem a possibilidade de fazer mais rápido. Toda a discussão é com relação à velocidade e à profundidade com que implantarão as medidas. Por que, apesar de tudo, não há clareza entre os candidatos? Porque muitos estão usando o fantasma da desvalorização, que é um tema que absorve muito os argentinos, como forma de dizer: “Se ganho não vou desvalorizar (o peso), e o outro, sim, vai desvalorizar”. Claramente, qualquer um que ganhe terá de desvalorizar. Mas não se pode desvalorizar sem um plano. O que assumir terá de fazer um programa consistente para que os mercados e empresários recuperem a confiança e comecem a levar adiante o processo de investimento. Veja o que aconteceu com Dilma: ela ganhou a eleição dizendo que não ia mudar nada, e depois mudou tudo. As pessoas viram como uma traição. Claramente, o presidente que vier na Argentina não pode dizer que não vai mudar nada.
 
E a relação com o Brasil? O Mercosul está morto?
Está muito fria. Nos últimos anos, se rompeu a confiança entre os negociadores. Há “pouca pele” entre as duas presidentes. Houve muito pouco vínculo político e, a nível dos funcionários negociadores, se cortou o diálogo. Os sucessivos rompimentos de acordos... Estamos em um ponto de equilíbrio baixo. O que presidente que vier deveria fazer uma recomposição do sistema de relações, sobretudo da capacidade dos negociadores técnicos de voltar a sentar-se e compartilhar ideias. Vai ser necessário, porque, no mundo daqui para frente, a economia vai crescer, mas não tanto, o comércio vai crescer, mas vai crescer pouco. Para voltar a ganhar mercado, para voltar a exportar, a conseguir dólares, vamos ter de ir ao mundo de forma muito desafiadora, sobretudo em um mercado no qual Brasil e Argentina exportam, na América Latina, que é muito desafiado pelo México e pelos países asiáticos. Esse fato está acelerando a necessidade de o Mercosul voltar a ter uma política ativa em matéria de negociações internacionais. De obter acordos, acelerar a discussão com a Europa, sentar à mesa com os EUA. O Mercosul tem de convocar a China para uma discussão de livre-comércio, para frear e  ordenar a presença asiática — e, de alguma maneira, chinesa — em nossos países. Que Argentina e Brasil tenham diálogo.
 
 
Como governos internacionais podem acreditar negociar se nem os números oficiais do governo são confiáveis?
O governo que vier, a primeira coisa que tem de fazer, é recuperar a credibilidade no sistema de informação pública. A informação é um bem público. É necessário para o planejamento das empresas, para definir as políticas públicas. Se o governo nos diz que não há pobreza, não podemos ter políticas sociais coerentes. Isso seria um sinal muito forte de confiança para o resto do mundo: voltar a recuperar a credibilidade no sistema de informação pública.
 
Uma curiosidade: como você, que é um dos principais consultores econômicos do país, faz para planejar ou opinar, se não se pode confiar em dados como inflação, desemprego, pobreza, que, segundo a oposição, são maquiados pelo governo?
 
Nós pegamos os dados e os corrigimos. A inflação que usamos é uma estimativa que nós mesmos fazemos. Ou usamos algumas estimativas privadas. Sobre os dados de crescimento do PIB, fazemos correções há cinco anos, com consultoras particulares. Temos corrigido os números para obter uma maior precisão. Porque, senão, é como voo cego. Não se tem informação.

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