O comediante guatemalteco Jimmy Morales mudou a maquiagem e o figurino para entrar na política. Agora, poderá se tornar presidente ganhando o voto de um país indignado pela corrupção no sistema político tradicional.

Morales, de 46 anos, é um comediante de televisão que surpreendeu no último 6 de setembro nas eleições gerais, ao obter a maior votação (23,99%) dos 4,8 milhões de votos emitidos entre 14 candidatos à Presidência.

As eleições, às quais compareceram 70% dos eleitores, ocorreram em meio à crise que resultou na renúncia e prisão do então presidente Otto Pérez, vinculado pela Procuradoria a uma milionária evasão fiscal no sistema de alfândegas.

Em segundo lugar ficou a ex-primeira dama Sandra Torres, da social-democrata Unidade Nacional da Esperança (UNE), com 19,75%, e com quem Morales disputará o segundo turno no domingo.

Segundo uma pesquisa publicada na quarta-feira, Morales aumentou as intenções de voto para o segundo turno e conta com um cômodo 67,9% de apoio, frente a um 32,1% de Torres.

O escândalo de corrupção, que envolveu também a ex-vice-presidente Roxana Baldetti, coincidiu com o crescimento de Morales, a quem os guatemaltecos viram como uma opção diante dos políticos tradicionais.

Morales é ator de comédia e produtor de televisão. Também conta com estudos universitários em negócios, comunicação, segurança e defesa.

Agora, Morales quer superar "Neto", o fictício personagem de um vaqueiro ingênuo que interpretou em um filme em 2007, que fica a um passo de ganhar a Presidência, mas desiste no último momento para pedir aos eleitores que reflitam antes de elegerem suas autoridades.

O filme é uma paródia das falsas promessas dos políticos, que encaixa bem na conjuntura atual, caracterizada pela insatisfação popular com os governantes.

"Nem corrupto, nem ladrão"

Um pouco surpreso por seu repentino sucesso, o comediante armou um discurso centrado no ataque à corrupção, e com bastante pressa elaborou um plano de governo do qual necessitava, porque no início da campanha em abril passado obtinha apenas 0,5% das intenções de voto.

Para aproveitar a conjuntura, Morales cunhou o slogan "nem corrupto, nem ladrão" para se definir diante de outros candidatos.

"As pessoas nas ruas me perguntam se sou Nito ou se sou Neto. Sou Neto, não sou bonito, mas sou atraente", frequentemente diz Morales em seus discursos, seguido por risos e aplausos.

Com suas piadas quebra o gelo com alguns eleitores que desconfiam dos discursos eloquentes e cheios de promessas.

"O voto de Jimmy é frágil e de conjuntura porque o partido não tem organização, o voto foi uma rejeição aos candidatos (tradicionais) e à crise de corrupção", comentou o analista Phillip Chicolá.

Para o especialista, o comediante foi beneficiado por ser um candidato "novo e 'outsider'", porque nunca trabalhou no setor público.

Casado e pai de quatro filhos, Morales possui além de seus dotes artísticos, estudos em teologia, administração de empresas e estratégias de segurança, segundo seu site na internet.

A sombra militar

Nas eleições passadas, em 2011, o comediante tentou dar seus primeiros passos na política, mas fracassou em suas aspirações de alcançar a prefeitura do município de Mixco, a oeste da capital.

Na atual campanha enfrenta uma série de críticas pelo passado do partido Frente de Convergência Nacional (FCN), pelo qual é candidato, fundado em 2008 por militares reformados que grupos de direitos humanos vinculam a vexames cometidos durante a guerra civil guatemalteca (1960-1996).

Incomodado pela associação, Morales nega a presença de militares em suas filas, embora um dos militares questionados por violação dos direitos humanos, Edgar Ovalle, tenha sido eleito deputado pelo FCN no primeiro turno das eleições de setembro.

* AFP

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