Mesmo antes de ser lançado, diário de FHC já gera reações entre políticos Magdalena Gutierrez,Instituto FHC/Divulgação

Foto: Magdalena Gutierrez,Instituto FHC / Divulgação

O primeiro dos quatro volumes do livro Diários da Presidência, que reúne relatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre os dois primeiros anos (1995-1996) à frente do Palácio do Planalto, só chegará às livrarias no final da próxima semana, mas já provoca barulho nos bastidores políticos. O atual vice-presidente, Michel Temer, chegou a telefonar a FHC para tentar esclarecer uma indicação política no Portus, um fundo de pensão dos portuários, feita em outubro de 1995.

— Estou telefonando para que o senhor não fique com má impressão de mim — falou Temer, segundo relato publicado pela coluna Radar, da Revista Veja.

— Minha impressão sobre você sempre foi a melhor possível, Michel — respondeu o tucano.

Nos registros de 3 de outubro daquele ano, Fernando Henrique mostrou descontentamento com a ação do então deputado federal peemedebista em meio a uma discussão sobre reforma administrativa. "É para ser mais solidário com o governo, ele [Temer] quer também alguma achega pessoal nessa questão de nomeações. É sempre assim. Temer é dos mais discretos, mas eles não escapam. Todos têm, naturalmente, os seus interesses", relatou.

Ao lado das queixas contra jornalistas, reclamações como essa, contra o "toma lá, dá cá", predominam nos trechos já revelados pela editora Cia. das Letras e publicados pela imprensa — a revista piauí traz, na edição deste mês, o relato mais longo, mas o jornal O Globo também fez um interessante resumo em seu site. Os textos reforçam a constatação de que, a exemplo de seus sucessores, FHC não conseguiu escapar do PMDB para garantir a aprovação de projetos no Congresso. Em troca, precisou botar cargos públicos no balcão de negociações.

"Começo a sentir o travo amargo do poder, no seu aspecto mais podre de toma lá dá cá: se eu não der algum ministério, o PPB não vota; se eu não puser o Luiz Carlos Santos, o PMDB não cimenta - e muitas vezes fazemos isso e eles não entregam o que prometeram", diz o ex-presidente, em registro de abril de 1996.

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Os relatos de FHC foram gravados com frequência quase semanal durante os dois mandatos. A primeira entrada ocorreu em 25 de dezembro de 1994, quando o presidente eleito mas não empossado reflete sobre a composição do ministério. As declarações foram transcritas pela antropóloga Danielle Ardaillon, curadora do acervo da Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Os dois primeiros anos, que formam o primeiro volume do Diários da Presidência, compreendem quase noventa horas de gravação, decupadas a partir de 44 fitas cassete. Escândalos como a Pasta Rosa e a CPI dos Bancos, além do massacre de Eldorado dos Carajás, são os casos de maior repercussão nos dois primeiros anos de governo e não são esquecidos pelo ex-presidente. A editora planeja publicar os outros três livros com os diários de FHC até o fim de 2017.

Leia, abaixo, trechos do livro Diários da Presidência, reproduzidos pela revista piauí e por outras publicações:

JOSÉ SERRA, então ministro do Planejamento
9 de dezembro de 1995

"Mais tarde tive uma longa conversa com Serra. Aí sim, fomos mais a fundo a respeito da nossa relação. Ele voltou a dizer que eu acho que foi contra o Plano Real, que não foi contra o Real, que ele não acreditava [na possibilidade política de o pôr em prática], eu sei que é isso. Voltei a explicar a ele o porquê de o Malan ser o ministro da Fazenda, Serra concorda comigo que é porque dá a sensação de estabilização. Disse-lhe o que esperava de cada um e que não adianta tentar resolver questões que não têm solução, não posso mexer agora com o Banco Central…"

ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES, então senador
13 de dezembro de 1995

"Eduardo Jorge [então secretário-geral do Governo], aflito, me informou que o Banco Central parece ter um relatório que vai culpar basicamente Ângelo Calmon de Sá [banqueiro conhecido depois do episódio do Banco Econômico, que sofreu intervenção em 1995] e Antônio Carlos Magalhães pela questão do Econômico. Perguntei como era a questão do Antônio Carlos. Uma empresa que se formara fora do Brasil e fez muita tramoia. Eu disse: 'O Antônio Carlos é sócio mesmo ou é sócio menor?' A informação que me deu Eduardo Jorge é de que é sócio mesmo. É preciso verificar isso, porque tenho medo de que seja uma vingança do pessoal do Banco Central. Mas, se ele for sócio mesmo, isso explicaria a onda que está fazendo. Está atacando o Banco Central, chamando os diretores de marginais. Como sempre, vai para a ofensiva para evitar uma situação de embaraços. Isso será um grande fator de desestabilização do quadro brasileiro."

JOSÉ SARNEY, então senador
19 de março de 1996, em meio às discussões sobre a CPI que investigaria fraudes nos bancos Econômico e Nacional, em 1995

"Não quero vencer o Sarney, não é o meu objetivo, não sei por que ele está brigando, eu não estou brigando com ele, demos tudo que ele pediu: nomeações, assistência ao Maranhão, dentro dos nossos limites, que são poucos, escassos. Ele mesmo me elogiou de público no discurso de posse no Congresso, eu também o tenho elogiado, não tenho queixa do Sarney, não vejo razão para essa briga."

EDUARDO CUNHA, presidente da Telerj no governo de Fernando Collor
23 de março de 1996

"Na verdade o que eles [deputados do Rio] querem é nomear o Eduardo Cunha diretor comercial da Petrobras! Imagina! O Eduardo Cunha foi presidente da Telerj, nós o tiramos de lá no tempo de Itamar [Franco, ex-presidente da República] porque ele tinha trapalhadas, ele veio da época do Collor. Eu fiz sentir que conhecia a pessoa e que sabia que havia resistência, que eles estavam atribuindo ao Eduardo Jorge; eu disse que não era ele e que há, sim, problemas com esse nome. Enfim, não cedemos à nomeação"

ANTÔNIO BRITTO, então governador do Rio Grande do Sul
24 de março de 1996

"Acabei de falar agora pelo telefone com o Britto, o governador do Rio Grande do Sul, que me informou que a convenção do PMDB, convocada para discutir reeleição, para discutir a questão da Vale do Rio Doce — eles estão contra a privatização e eu também tenho minhas dúvidas — e para [que o partido se posicione] contra a reforma da Previdência, foi um fracasso total. Dos 600 e tanto convencionais que têm direito a 700 votos, apareceram cerca de 100. Não conseguiram abrir a Convenção. Sarney passou lá de raspão e foi embora. E o Iris também. Ficou o Jader, esbravejando contra os governadores, mas não foram apenas os nove governadores que não compareceram; o partido não compareceu, quer dizer, esse caminho suicida do Paes de Andrade, endossado agora pelo Sarney e pelo Jader, levou o PMDB ao isolamento absoluto."

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, adversário de FHC nas eleições de 1994 e 1998
1996

"Lula posando outra vez de herói nacional (...) com uma frasezinha: 'Ser professor de ciência política não significa saber política'. Enfim, essa coisa deprimente, essa mediocridade que faz com que gente que não tem proposta para o país encontre logo acolhida na mídia (...) Enfim, o que podemos fazer? Nascemos aqui, vamos enfrentar o Brasil tal como ele é."

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