Para especialistas, apoio à morte de bandidos é reflexo de medo e intolerância Daniel Marenco/

Foto: Daniel Marenco

Metade da população das grandes cidades brasileiras considera que "bandido bom é bandido morto", conforme revelou pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada nesta segunda-feira. Para especialistas consultados por Zero Hora, a resposta não chega a ser reveladora.

Para Carlos Gadea, professor da pós-graduação em Ciências Sociais da Unisinos, que realiza pesquisas na área de violência urbana, o fato de 50% dos entrevistados concordarem com a afirmação se dá em função do sentimento de medo que tomou conta do país — e que pode ser exemplificado diariamente com casos de homicídios, roubos e outros crimes, afirma Gadea.

— As pessoas sentem que, de fato, estão vivendo em uma situação de bastante insegurança. E isso representa uma ameaça que é alimentada em vários aspectos, que vão desde a corrupção e o desemprego até a violência em si. A esses fenômenos, a resposta se concretiza de forma radical, como uma tentativa de garantir a retomada da segurança — avalia Gadea.

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Na visão de Antônio Marcelo Pacheco de Souza, sociólogo e pesquisador do Grupo de Pesquisa em Violência e Cidadania da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a variação dos índices quando considerados em grupos separados (homens e mulheres, negros e brancos, ricos e pobres) não chega a ser expressiva — em média, a diferença é de menos de 10%. Segundo ele, isso ocorre porque, por mais distinta que a população brasileira seja em seus aspectos culturais e ideológicos, a percepção de que a violência transbordou os limites de repressão do Estado é comum a todos.

— O sentimento de oposição, medo, angústia e até mesmo vingança, é proporcional à certeza de derrota do Estado em relação à violência. Essa pesquisa mostra o grau de falta de solidariedade que a sociedade brasileira vive, de falta de tolerância, perspectiva de respeito ao outro. Em síntese, é uma crise de governabilidade que, além de ter a violência como foco principal, se alimenta da sensação de impunidade, de corrupção e da descrença em relação aos poderes — analisa Souza.

O pesquisador da UFRGS lembra que, segundo dados deste ano reunidos em relatório da Anistia Internacional, a força policial brasileira é a que mais mata no mundo. Segundo ele, já existe um processo de "genocídio social", uma vez que grande parte dos mortos, nestes casos, são parte da população "pobre, negra, moradora de periferia". Para Souza, a sociedade, em vez de se vitimizar como "refém ou vítima" dos bandidos e de um Estado inoperante, deveria se assumir também como violenta, "uma vez que é racista e sexista", exemplifica.

— Assim, não surpreende, por exemplo, que a região Sul seja a com maior número de pessoas que acham que "bandido bom é bandido morto". É também a região que lidera o índice de linchamentos. É a região que tem aquele flamante orgulho de se dizer de grande capacidade intelectual e cultural, mas que é também onde mais gente defende a pena de morte, e a que se torna mais avessa ao sentimento de alteridade — conclui.

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"Se tiver que matar, que mate", diz deputado

Rogério Peninha, deputado federal pelo PMDB de Santa Catarina, é autor da proposta que tenta revogar o Estatuto do Desarmamento e facilitar a circulação de armas entre cidadãos. Ele faz parte dos 50% que consideram que "bandido bom é bandido morto" _ mas só em casos de crimes graves ou em legítima defesa, pondera.

— O que o povo quer é acabar com a sensação de impunidade que existe. Penso o que a população pensa: em um confronto com um bandido, se a polícia tiver que usar arma, ainda que exista a possibilidade de matar, que essa arma seja usada. "Bandido bom é bandido morto" não é na conotação de que é preciso sair por aí matando, mas que a polícia, no seu dever, ou o próprio cidadão, no seu direito de se defender, deve reagir. E se tiver que matar, que mate. (...) O poder público gasta valores altíssimos tentando recuperar pessoas que não têm mais como serem recuperadas. Então, por que não? — defende o deputado.

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* Zero Hora

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