Poderia ter acontecido no Rio de Janeiro, Porto Alegre ou qualquer outra grande cidade brasileira. Mas aconteceu em Buenos Aires. Estava gravando um vídeo na tarde deste sábado em frente ao novo monumento a Juan Domingo Perón, a três quadras da Casa Rosada, quando um homem se aproximou. Vi pelo visor do iPhone, posicionado sobre um tripé, e percebi que ele vinha na minha direção.

Achei que se tratava de apenas mais um dos achacadores que não respeitam nem os estabelecimentos comerciais aqui em Buenos Aires, pedindo dinheiro dentro de restaurantes, bares e shoppings sob o olhar impotente dos comerciantes. O cara me mostrou um papel, trazia uma propaganda sobre um tour pela cidade. Como de costume, rejeitei. Foi quando ele abriu a jaqueta e me mostrou um revólver na cintura.

— Trata-se de um assalto — disse.

— Sou jornalista. Estou trabalhando — respondi, mantendo a calma, mas caminhando lentamente em direção à avenida, onde havia algum movimento.

— Queres que te atire? De onde és — ele perguntou.

— Brasil, estou trabalhando, sou jornalista — eu repetia.

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A esta altura, eu mantinha a câmera do iPhone apontada para o homem. E talvez isso o tenha intimidado.

— Abaixe a câmera — ele disse.

Atendi. Ele, então, fez sinal para que eu saísse dali.

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Sei que minha atitude não foi correta. Na hora, eu pensava em entregar pelo menos o iPhone e o tripé. Lamentava perder as imagens já feitas, pensamento inútil de jornalista. Deveria ter entregue. Na mochila às costas, eu tinha um notebook. Negociar, desta vez deu certo, mas entendo que errei. Não façam isso. Em Buenos Aires ou em Porto Alegre.

Este meu relato é estritamente pessoal. Decidi compartilhar porque entendo que é meu papel, como jornalista, alertar os leitores. Como eu disse, poderia ter acontecido em qualquer lugar do mundo. Desde que cheguei, na quinta-feira, estava me sentindo mais seguro em Buenos Aires do que em Porto Alegre. Felizmente, foi só um susto.

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