Rodrigo Lopes: vitória de Scioli, derrota do kirchnerismo ALEJANDRO PAGNI/AFP PHOTO

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Passadas mais de cinco horas do fechamento das urnas, os argentinos não tinham informações oficiais sobre a apuração dos votos. No Luna Park, o legendário centro de eventos de Buenos Aires, os militantes kirchneristas gritavam como se estivessem em um campo de futebol, batiam em tambores e festejavam.

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Antes mesmo dos números aparecerem, o candidato governista, Daniel Scioli (Frente para a Vitória), falara ao público como se estivesse ainda em campanha. Chegou a se autoproclamar “presidente dos argentinos”, mas uma frase deixou vazar que o segundo turno seria inevitável.

— Convoco os indecisos e os independentes — disse, a certa altura.


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Cauteloso, Scioli prometeu voltar em uma hora, para “compartilhar os dados”. Os números demoraram mais. E candidato de Cristina Kirchner não voltaria ao palco. O deputado Sergio Massa, de seu quartel-general, reconheceu a derrota e parabenizou Scioli e Mauricio Macri. Consolidava-se o segundo turno, mas nada dos números. Na sequência, Macri (Cambiamos) comemorava.

— Aprendi e valorizo a luta dos trabalhadores — afirmou.

Como? Se não havia números oficiais. Esta era a pergunta que se faziam jornalistas internacionais no centro de imprensa do Luna Park. As declarações dos candidatos sugeriam que as coalizões tinham os dados em seu poder. A demora na divulgação poderia ser um acordo político. As primeiras informações oficiais só apareceram nas telas de TV espalhadas pelo centro de imprensa depois da meia-noite. Supresa: Macri estava na frente, com 36,24%, contra 34,70% de Scioli. O clima mudou. Entre assessores da Frente Para a Vitória, corre-corre, olhares atônitos. Nas arquibancadas, um jovem, abraçado a uma bandeira azul e branca, as cores do peronismo, e com os olhos marejados fixos no smartphone, parecia não acreditar.

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Emissoras de TV pró-kirchnerismo, que tão logo as urnas haviam sido fechadas, estampavam “Scioli ganó”, retiraram a legenda. Pela primeira vez em vários dias de concentração no bunker, que é como os argentinos chamam seus QGs de campanha, a música da organização ficou mais alta do que o batucar dos militantes. Houve debandada silenciosa.

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Scioli ainda viraria a eleição. Com 90,23% dos votos apurados, ele tinha 36,17% contra 34,93% de Macri. Começavam a entrar os votos da importante província de Buenos Aires, onde estão um terço dos eleitores do país. Mas não havia mais clima para Scioli voltar ao palco. A diferença entre os dois candidatos foi muito maior do que previam as pesquisas. A votação para governador da província de Buenos Aires é um duro recado. O candidato, Aníbal Fernandes, chefe de Gabinete de Cristina, perdeu a eleição para a oposicionista Maria Eugenia Vidal.

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No plano nacional, Scioli venceu o primeiro turno. Mas o kirchnerismo perdeu. No segundo turno, a união das forças de oposição – os 21% de Massa (um ex-kirchnerista, que se diz verdadeiro herdeiro do peronismo) serão desejados como nunca. O voto anti-K vai decidir a eleição mais disputada da história da nova democracia argentina.

Acompanhe como foi a apuração:

*Zero Hora com agências

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