As negociações para um rascunho de acordo para a luta contra as mudanças climáticas entraram em ebulição nesta sexta-feira, último dias de discussões, dominadas cada vez mais por um confronto Norte-Sul.

A comunidade internacional deseja estabelecer como meta que a temperatura do planeta aumente no máximo 2 graus. Um acordo ambicioso, sem precedentes, foi elaborado, para que os países possam abandonar paulatinamente a dependência das energias fósseis, controlar mutuamente o cumprimento dos compromissos e financiar o apoio aos países mais vulneráveis.

Este último ponto, as ajudas, domina os debates, com o chamado G77, que reúne 134 países em desenvolvimento e a China, em pé de guerra contra os países ricos.

Na cidade alemã de Bonn estão reunidas 195 partes (194 países mais a União Europeia). Os negociadores devem entregar um rascunho com opções claras a seus respectivos ministros na Conferência das Partes (COP21) sobre Mudanças Climáticas de Paris, que começará em 30 de novembro.

A França convidou os chefes de Estado e de Governo ao primeiro dia da COP21, para aumentar ainda mais a importância da reunião e aumentar a pressão.

Os negociadores em Bonn se dividiram na quinta-feira com posições antagônicas, após uma assembleia geral que deixou alguns delegados com os nervos à flor da pele.

Alguns países criticaram a situação e lembraram a reunião de Copenhague em 2009.

A comunidade internacional fracassou no encontro da capital da Dinamarca, que tinha como objetivo alcançar um acordo de luta contra o aquecimento global.

"O G77 não aceitará mais este tipo de tratamento", ameaçou a sul-africana Nozipho Mxakato-Diseko na retomada das negociações.

Os copresidentes da negociação, o argelino Ahmed Djoghlaf e o americano Daniel Reifsnyder, tentaram reduzir a tensão durante um encontro com a imprensa.

"Onde estamos? Estamos em outubro. Vou mostrar todas as minhas cartas quando sei que o grande acontecimento acontecerá em dezembro?", afirmou o americano.

O texto do acordo, com mais de 30 páginas, foi dividido por temas na segunda-feira.

O G77, representado pela África do Sul, foi o grupo de países que forçou uma revisão do texto para incluir suas propostas.

"Fizemos o nosso trabalho. No mínimo, existe um texto", disse o argelino Djoghlaf.

Com o retorno ao texto, todas as delegações apresentaram emendas durante os debates.

Os nove grupos de trabalho apresentaram suas conclusões por escrito, para reduzir as propostas.

O próprio G77 tem dificuldades para conciliar sus propostas.

Os delegados devem, a princípio, apresentar um rascunho completo do acordo, mas no momento não é possível saber nem sequer se seria legalmente vinculante.

"Temos uma espécie de texto recompilado no momento, que, se você observar de maneira positiva, contém muita substância que deve aparecer no acordo de Paris", disse à AFP Martin Kaiser, diretor de política de mudança climática do Greenpeace.

"Mas se você olhar pelo aspecto negativo, como procedimento, é um pesadelo", completou.

Os países signatários devem chegar a um acordo sobre um fundo anual de 100 bilhões de dólares, a partir de 2020, quando entraria em vigor o acordo de Paris, para ajudar os países mais vulneráveis a lutar e adaptar-se à mudança climática.

Para os países pobres, adaptar-se ao aquecimento do planeta é tão importante quanto combater o problema, pela falta de recursos. Mas outros Estados alegam que isto pode deixar a porta aberta para a negligência.

* AFP

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