Vicente Telles: "O Exército foi bode expiatório da Guerra do Contestado" Léo Cardoso/Agencia RBS

Folclorista começou a estudar o importante capítulo da história catarinense após deixar o Exército

Foto: Léo Cardoso / Agencia RBS

As comemorações da Semana do Contestado, instituída por lei estadual, chegam ao fim neste domingo. Um dos maiores conflitos da história do Brasil começou com o Combate do Irani, em 22 de outubro de 1912, e só terminou em outubro de 1916. Segundo os historiadores, em número de mortos, mobilização militar, duração e outras características, a guerra foi muito maior do que Canudos. O assunto foi considerado proibido durante mais de 60 anos no Estado. O militar reformado, filho de “pelado com peludo”, folclorista, músico e pesquisador Vicente Telles, nascido e há 40 anos vivendo em Irani, é um dos maiores entusiastas desse episódio histórico. Em entrevista, fala com emoção sobre a guerra e as consequências dela, diz que não confia mais em adultos e explica por que os catarinenses devem se orgulhar e tratar com glória os caboclos do Contestado. Confira a entrevista:



Diário Catarinense – Historiadores apresentam muitas causas para a Guerra do Contestado. O senhor identifica uma primeira grande causa?

Vicente Telles –
Sem dúvida. Fala-se muito nos efeitos, nas consequências e se esquecem da causa determinante. Imagine um estrada de ferro construída verticalmente, ligando SP ao RS, dando para a ferrovia 15 quilômetros de cada lado. Cobertos de árvores riquíssimas e centenárias, e até milenares, e dadas como moeda de pagamento. Justamente nas margens do Rio do Peixe, onde as terras são mais férteis. Muita gente estava ali instalada há séculos. Não se reassentou, porque quando se chegava nos 15 quilômetros, no limite, o governo dos coronéis já havia requerido e se apossado delas. Tudo em troca de voto de cabresto para manter no poder os seus chefes, os seus patrões, os seus mandões, os seus coronéis maiores. Então, a causa maior foi essa injustiça gravíssima contra os caboclos que viviam aqui há anos e foram abandonados, escorraçados. O doutor Aulo Sanford de Vasconcelos revela em suas obras que teve acesso a uma pesquisa indicando que dos despejos com a Guerra do Contestado dariam para implantar escolas e fazer justiça social em toda região. Alavancaria o progresso da incipiente República. Só com um terço dos gastos na guerra, dava para comprar na época a Ilha de Florianópolis. Santo Deus, isso não merece uma reflexão? Está aí a causa: para onde vai essa gente? Aquele povo que ligou essa terra pela efetiva presença física no território nacional, agora não tem onde morar. Tem que ser desligado, tem que ser exterminado? Por que não reassentaram se havia tanta terra? Hoje é ao contrário, há menos terra e muito mais gente.

DC – O senhor acha que o maior equívoco foi do governo, que assinou o contrato com a Lumber (madeireira subsidiária da construção da ferrovia) sem garantir terra para os ocupantes nos 15 quilômetros?

Telles –
Acho que seria uma iniciativa elementar do governo, uma medida de humanidade. Mas há quem afirme que havia um projeto de “branquear” a população catarinense. Esse “branquear” vem fortalecer essa ideia do extermínio físico e cultural do povo que se fixou nesta terra, ligando-a com o resto do Brasil. Logo, o governo teria feito isso de propósito.

DC – E quais seriam as outras causas indeterminantes? Fala-se na questão religiosa, econômica, militar e na força dos coronéis.

Telles –
Entendo que a Guerra do Contestado foi protagonizada pelo coronelismo de fazenda, que transformou o Exército Nacional em bode expiatório de suas cobiças. Está provado, claro e evidente. Mesmo dentro do Exército houve um cidadão que hoje merecia o trono em Santa Catarina, um altar no cenário catarinense, que é Matos Costa. Foi o homem que viu as injustiças com os caboclos quando assumiu o comando de uma companhia. Ele tinha poderes para determinar suas ações. Raspou a cabeça, o bigode, se vestiu de caboclo e foi conviver com eles para avaliar as profundas razões de suas lutas. E constatou, inclusive, que os coronéis vendiam terras para os caboclos, que pagavam com trabalho. Quando estava perto da entrega, o Exército era chamado para expulsar os caboclos. Isto aqui não foi guerra, foi um verdadeiro genocídio. Guerra pressupõe o confronto de armas e de gente equivalente nos dois lados. Aqui foram as armas da República contra famintos maltrapilhos.

DC – O Contestado começou com a Força Pública do Paraná no Combate do Irani, sob o comando de coronel João Gualberto, que acabou sendo assassinado. Seguiu com a atuação do Exército e da Polícia Militar de Santa Catarina. Foram usadas três forças militares para proteger os coronéis?

Telles –
Totalmente! Eles eram donos das vidas dos homens e das mulheres. A história não enfatiza isso, omite. Falo isso para os jovens, para as crianças. Precisamos conhecer a verdade. A primeira vítima disso é a própria verdade.

DC – O senhor tem recebido centenas de estudantes do Brasil inteiro. Como que elas reagem quando o senhor conta essa história?

Telles –
Se emocionam e choram. Saem daqui prontas para a briga. Professoras indagam: ‘O que o senhor faz? É que os alunos aqui mudaram de comportamento e já estão pensando que a corrupção é base de tudo hoje no Brasil’. Como nós podemos diminuir a corrupção? Fale com seus pais, com seus amigos, não vendam votos, não sejam corruptos. Nós temos que mudar o Brasil. Você pensa que isso agrada os políticos? Tem colégios que eu vou dar palestras e me pedem para não falar isso.

DC – Por que?

Telles –
Dizem que não tem espaço na planilha. Mas tem muita escola, em especial da região de Chapecó, que forma alunos guerreiros, cívica e moralmente. Aqui vivo praticamente só para falar as crianças, pesquisar o Contestado. Eu prefiro falar para auditórios com crianças.

DC – Por que só crianças?

Telles –
Porque não confio mais em adulto. Acredito que só as crianças podem mudar o Brasil. Temos que orientá-las, porque essa é a época de mudar o caráter, a personalidade, o civismo e a ética. É isso que nós fazemos.

DC – Com esta onda de corrupção, o senhor acha que a atual geração fracassou no Brasil?

Telles –
Eu pergunto às crianças aqui. Como é que analisam isso? Como vocês vêm a Lava-Jato? Como estão vendo o que acorre em todas instâncias do Brasil? Uma jovem já me disse que o pai é político e comprou voto. Falou que vai vir uma eleição aí e ele já está planejando o que vai pedir. Que péssimo exemplo para o filho. Como nós vamos mudar se o pai já está corrompido? Se ele já está corrompendo a criança. Que geração é essa?

DC – O senhor é o único pesquisador do Contestado, filho de pelada com peludo. O que isto significa?

Telles –
É fácil explicar. Meu pai era filho de uma grande fazendeiro. Era analfabeto, mas o pai dele, Alexandre Telles, era intendente, cobrava impostos e ligado ao governo. Saiu daqui do Irani a cavalo levando um animal puxado, em direção a Florianópolis, querendo terras. O meu avô materno, ao contrário, era jagunço. Hoje, perguntam: ‘Como é que teu pai, filho de coronel, foi casar com uma filha de jagunço?’ É que minha mãe foi criada pelo irmão do meu avô materno, amigo do coronel. Criada lá, ele chegou e disse: ‘Olha, a Isabela, vai casar com meu filho’. Ela teve que renunciar o amor que tinha por outro jovem para obedecer a ordem do casamento. Eu nasci dessa união, já no final da guerra, quando começou a operação limpeza. Essa operação consistia na prisão e execução sumária dos veteranos de guerra, das testemunhas oculares, dos cidadão que eles imaginavam que seriam jagunços ou que iriam recomeçar a guerra de novo. Reuniam a família, botavam todo mundo em fila e degolavam na frente da esposa e dos filhos. Com a faca na outra mão, anunciavam: ‘Se vocês abrirem a boca, vai acontecer isso, terão o mesmo fim'.

DC – Esta degola teve alguma relação com o silêncio absoluto de 60 anos sobre a Guerra do Contestado aqui em Santa Catarina?

Telles –
Claro, e propositadamente. Os governos não queriam que o povo tomasse conhecimento das barbáries. Foi uma censura bárbara, porque atingiu as famílias. Está tudo evidenciado.

DC – O senhor obteve provas disso?

Telles –
Sim. Tinha uma tia do meu pai que em momentos de lucidez fazia relatos terríveis. Não se podia comer carne de porco. E por quê? Porque os porcos só comiam carne de cadáver. Diziam que a velha estava louca, mas ela falava dos traumas da degola. Relatava que a água do riacho não dava para beber, pois só tinha corpo lá. O cachorro entrava todo dia dentro de casa com uma perna, com uma mão, com uma cabeça na boca. A fazenda do meu avô era esconderijo de muito jagunço na imensidão das terras. Como ele era do governo, solicitava à polícia. Recrutavam o peões para indicar onde estavam os jagunços depois da guerra, mas não se davam conta que eles eram da mesma classe social dos caboclos perseguidos. Os peões mostravam errado. Aí, quando a polícia ia e voltava sem prender ninguém, os caboclos revoltados se vingavam e atacavam a fazenda para matar o velho. E mataram os peões dele. A situação ficou tão grave que uma vez ele teve que fugir pro Paraná.

DC – Nesta guerra, caboclo, jagunço, militar, muita gente morreu e matou sem saber porquê.

Telles –
Pasme você! Os soldados saíram daqui e, chegando em casa, descobriam depois que vinham matar os próprios irmãos. Esses soldados que vieram do Paraná, na época, não tinham noção do que faziam. Todos aqueles que vieram para cá matar sertanejo inocente eram da mesma classe social.

DC – O senhor atuou no Exército dezenas de anos. Quando volta para casa, descobre esses fatos. Por que só nessa época? Qual a razão?

Telles –
Quando entrei no Exército, aos 18, era totalmente proibido falar sobre Irani e o Contestado. Ainda hoje os traumas estão vivos. Vá a Timbó Grande, Lebon Régis, no sul daquela região toda. Você encontra gente que não fala disso, tem medo de degolar o ente querido na sua frente.

DC – E qual motivação para começar a pesquisa?

Telles –
Em 1979 assisti a uma peça de teatro, em Curitibanos. Ali virei jagunço, guerreiro do Contestado. O jagunço do Contestado não era o jagunço nordestino, o homem frio contratado para tirar vida de inocente.

DC – Qual é a diferença?

Telles –
Caboclo é genérico, de norte a sul do Brasil. É o homem nativo. Quando terminou a Guerra Santa começou a violência extrema. Aí, então, o caboclo virou jagunço. Era aquele que reagia contra a violência, que assumia o lugar dos violentos para revidar. Para mim, jagunço é um titulo de glória que Santa Catarina deveria adotar. O jagunço catarinense, do Contestado.

DC – E por que os coronéis eram peludos?

Telles –
Porque eles rapavam as cabeças do caboclos como castigo. Davam surras, passavam sal grosso e mandavam de volta. Os peludos eram os coronéis de barba longa, cabelo comprido.

DC – Porque que as autoridades não preservam estes marcos da história?

Telles –
Pergunto isso todo dia. Não posso entender onde está a consciência dessas autoridades. Por que os políticos não gostam de ouvir a história? Só tivemos um governador, o Esperidião Amim, que entendeu as causas do Contestado. Saiu o governo, vieram outros e nada. É por isso que eu estou aqui. Isolei-me do mundo. Aquilo que ninguém faz, mostrar às crianças, aos jovens que amanhã vão ter que seguir os exemplos de bravura do nosso caboclo catarinense para mudar o Brasil. Para mim, a instrução desacompanhada da formação ética, cívica e moral é mais nociva à sociedade que ignorância.

DC – Tudo tem começo e fim na política?

Telles –
Não é política, é politicalha. Por que a política seria de moralidade limpa. Politicalha é o que estamos vendo por aí, com Lava-Jato e tudo mais.

DC – Porque o senhor sempre usa o mesmo boné? É símbolo do Contestado?

Telles –
O Contestado é minha paixão, é a consciência de que este símbolo deveria ser adotado por Santa Catarina. Foi o primeiro símbolo surgido do nativo catarinense. O caboclo, quando sentia frio na cabeça, matava a jaguatirica, fazia o gorro. É para lembrar o sofrimento e as bandeiras da época. Uso isso aqui porque tenho consciência de que é um símbolo que deve orgulhar Santa Catarina.

DC – Para o senhor, o que significa a Guerra do Contestado?

Telles –
A Guerra do Contestado não foi guerra, foi um genocídio. Só. E que não prescreve. Está na hora, inclusive, de se descobrir os responsáveis por isso. A nação tem uma dívida muito grande com aqueles caboclos que estão aí hoje punidos pela pecha de jagunços. Eles não sabem, mas são chamados de jagunços. Isso é uma ofensa para eles. Quando eu era criança jagunço era um homem valente determinado, o jagunço catarinense. A expressão caboclo só não justifica a obra do Contestado. Quem justifica é o caboclo do Contestado ou o jagunço do Contestado. Nomes que deverão ser tratados como título de glória em Santa Catarina.
Diário Catarinense
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