Gestão de Valor: para a Koerich, a lealdade dos clientes é um dos maiores patrimônios da empresa José Valdonir Correa/Divulgação

Antônio Koerich está à frente da rede de lojas Koerich

Foto: José Valdonir Correa / Divulgação

Antônio Koerich é um adepto dos ensinamentos de personalidades históricas. No papel que distribui aos funcionários, destaca ensinamentos de Abraham Lincoln, presidente dos EUA durante a guerra civil do país: “Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança” e “não ajudarás o assalariado se arruinares aquele que paga”. Aos 78 anos, Koerich se revela um empresário que preza muito pelos princípios, em especial os religiosos.

Essas características ele carrega para a gestão de uma das maiores redes de varejo de Santa Catarina, as Lojas Koerich, no mercado desde a década de 1950. Nesta entrevista, ele destaca como o empreendimento superou crises no passado, ensina como é importante fazer parcerias e preservar a credibilidade, pois é o caminho para obter a confiança dos consumidores. Antônio Koerich afirma que ainda trabalha brincando, assim como fazia aos seis anos.


O senhor começou muito cedo a trabalhar com o varejo no Mercado Público de Florianópolis. Qual foi o primeiro artigo que o senhor vendeu?
Koerich —
A primeira venda que eu fiz foi no armazém do meu pai. Tinha perto de seis anos, trabalhando e dando uma mãozinha para a minha mãe. Depois, comecei a ficar com meu outro irmão. Era um armazém de interior. Também tinha alguma coisa de farmácia, alguma coisa de bar, alimentação, fumo em corda e banha a granel. Sou um privilegiado por viver essa época.

Quais são os valores que o senhor carrega daquele tempo?
Koerich — Os do cuidado e do carinho que a gente tem com a própria equipe e com a clientela. O patrimônio que é construído em diversas modalidades, que não é apenas o financeiro. É também o da conversa, da política da boa vizinhança. Lá no armazém do meu pai eu praticava o ato do trabalho brincando. Jamais deixei de praticar o ato do brincar (até hoje ao trabalhar). O que vejo na sociedade atual é um certo constrangimento com o trabalho. E trabalho não constrange. Ao contrário, ele edifica, sustenta.

E o que mudou com o tempo nessa visão?
Koerich — Sempre trabalhamos com o conceito de valores empresariais e valores pessoais. Os empresariais não podem abrir mão dos valores humanos. Uma coisa eu posso afirmar com certeza: se não fosse esse princípio, essa situação fundamentada nos sentimentos religiosos cristãos, éticos e morais, com certeza a gente não estaria com o progresso de hoje.

Quais competências e valores vocês procuram nos funcionários em momentos críticos, como a crise de agora?
Koerich — Missão apostólica. Posso dizer que é uma situação bastante difícil. A sociedade parece estar em uma determinada alteração. Os sistemas são conduzidos ou induzidos, talvez para uma condição de trabalhar menos. Eu não acredito na facilidade ou no desenvolvimento, no progresso de uma determinada atividade, de um município, de um Estado, de uma nação que não seja pautada e baseada no trabalho. Dentro do trabalho não pode haver negociata. Não se compra a consciência de ninguém. Ninguém nasce grande nem cresce sozinho.

O senhor lembra de algum momento crítico que foi resolvido com gestão?
Koerich — Lembro. Principalmente nos planos econômicos, momentos em que não depende da gente. Eu não tenho receio do que estamos vivendo hoje, tenho receio das alterações que podem mudar o comportamento de uma sociedade pela falta de habilidade, pela falta de conectividade. O empresário, a empresa familiar, precisa determinar um rumo. O espaço mais curto entre dois pontos é uma linha reta. Mas, às vezes, para emoldurar uma situação (e superá-la), você precisa de linhas onduladas.

A área de atuação da Koerich é um mercado consolidado mas bastante explorado por outras empresas. Como continuar relevante com tantos concorrentes?
Koerich — Respeito, desejo de vencer, educação e ter uma meta. Sem meta, não se chega a lugar nenhum. Você tem que cuidar do seu negócio. Se você não vai estar presente todos os dias para comandar, coloque bons gestores.

A Koerich compete com gigantes nacionais do varejo, sendo uma referência regional. Agora a empresa vai competir com gigantes de outra área, os bancos, no mercado do cartão de crédito.
Koerich — De fininho. Duas palavras: por trás de tudo isso está a boa vontade. Ir em frente sem exibicionismo, com simplicidade e humildade. Essas duas características não comungam com presepeiro, com ambição, com inveja. Para mim, o maior pecado da humanidade é a inveja. Você tem que se colocar no seu próprio caminho. Eu não posso pensar, na situação da minha humildade, em ser gigante diante dessas empresas. O que eu posso é tentar ser melhor do que eles. E é isso que a gente trabalha para ser. Na confiança que os clientes tem na nossa empresa. Esse é um dos principais valores. É um dos problemas que enfrentamos hoje no mundo. No Brasil, falta credibilidade. E nós não merecemos isso. Tenho respeito de dizer essas coisas. Eu tenho pena do país hoje.

E os valores mudam nos negócios?
Koerich — Não. Os fundamentos são todos pautados no trabalho. Os valores éticos e morais a gente não pode perder. Ainda há uma sintonia. O primeiro veículo que nós sorteamos [aos clientes das lojas Koerich] foi em 1963. Até hoje continuamos sorteando automóveis. Tivemos carnê e consórcios, a situação de um trabalho mais cooperativo. Tudo isso é credibilidade. E isso não se compra. Ela matura ao longo do tempo. Se eu quiser ter um determinado padrão e lealdade, isso é investimento. É nisso que eu preciso investir.

 


 

DIÁRIO CATARINENSE
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