População de Anitápolis reage à instalação de mineradora  Diorgenes Pandini/Agencia RBS

Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

As ondas de lama que atingem cidades de Minas Gerais há uma semana após o rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco também tiram o sono de moradores da pequena população de Anitápolis, a 86 km de Florianópolis. Lá, desde 2007 se discute a instalação de uma mineradora para a produção de fertilizantes que demandaria a construção de uma estrutura semelhante.

Temendo os riscos e passivos ambientais moradores da pequena cidade catarinense se posicionam contrários ao projeto. Nesta semana vereadores do município tentam revogar os artigos 93 e 96 do Plano Diretor de 2008 que permite a extração de minério na área adquirida pela IFC. Segundo o vereador Silvionei Fortcamp (PP) o projeto está sendo analisado juridicamente e deve seguir para votação na Câmara.

– Temos que ver o que está acontecendo em Minas Gerais e tentar impedir que o mesmo aconteça aqui – destaca Fortcamp.

Ainda em 2009, no auge da discussão, a maior parte da população era favorável ao projeto que traria desenvolvimento e emprego para a pacata de cidade de 3,5 mil habitantes de Santa Catarina. Pertencente a Grande Florianópolis moradores vivem basicamente da plantação de chuchu.

"Gera lucro para poucos e um passivo ambiental para muitos", diz procuradora

Contrária ao projeto, a Ong Montanha Viva questionou os passivos ambientais da instalação da indústria ainda em 2009 quando conseguiu na Justiça federal barrar a instalação. Desde então uma batalha judicial impede a continuidade do projeto. O advogado e geógrafo que representa da Ong, Eduardo Bastos, explica que o principal impacto seria a poluição hídrica na Bacia do Rio Pinheiros responsável pelo abastecimento de pelo menos 10 municípios como também a agricultura local.

Outro grande problema seria a construção da barragem de rejeito que seriam sobras do material químico utilizado para produção do fertilizante. 

– A barragem iria manter dois lagos com as sobras da extração de fosfato que juntos teriam o tamanho de 90 campos de futebol. Se a houvesse um rompimento, o que não é difícil de acontecer, essa lama com este material iria se espalhar por toda a região –explica Bastos.

Após as denúncias feitas pela Ong Montanha Viva outras entidades também ingressaram com processos contrários. A Ong contesta ainda os estudos apresentados à Fatma para a liberação das licenças e que não dão a dimensão correta dos impactos causados não só na região de Anitápolis como nos demais municípios do entorno.

Terras férteis chamaram atenção de empresários

Batatas de um quilo que brotavam nas terras férteis de Anitápolis davam vida próspera comunidade de Rio dos Pinheiros no alto da serra na década de 1970. Os legumes vistosos passaram a chamar atenção de empresários que após estudos descobriram que a região é rica em fosfato – utilizado na produção de fertilizantes. Na década de 1980, as empresas Bunge e à Yara, por meio da Indústria de Fosfatados Catarinense (IFC) adquiriram cerca de 1.760 hectares em Anitápolis.

De acordo com o projeto original o local seria explorado por 33 anos. A mata nativa daria lugar a uma mina a céu aberto e a uma fábrica que usaria a matéria prima na produção de fertilizante. A barragem de rejeitos que serviria para separar o material inservível retirado do solo, também dividiria os rios e nascentes do local. O empreendimento que previa um investimento de R$ 550 milhões utilizaria ácido sulfúrico e enxofre para a produção.

Os elementos químicos seriam importados pelo porto de Imbituba e transportado por caminhões até Anitápolis. O produto final seria levado também por caminhões até Lages. O local para a construção da indústria seria no interior das bacias hidrográficas dos rios Pinheiros e Braço do Norte, formada por 19 rios entre os municípios de Anitápolis, Santa Rosa de Lima, Rio Fortuna, Grão Pará, Braço do Norte e São Ludgero.

– Anitápolis está dentro de um corredor ecológico entre a Serra do Tabuleiro e Lages. Eles não levaram em conta os animais em extinção que vivem na região e os impactos na BR-282 com o trânsito diário de caminhões, além da alteração do curso do rio Pinheiro – explica Eduardo Bastos.

Em 2010, Vale adquiriu os ativos de fertilizantes da Yara e Bunge assumindo também as ações judiciais de ambas as empresas relacionadas ao projeto. Em resposta ao Diário Catarinense a Vale Fertilizantes informou que está concluindo um estudo detalhado de todos os aspectos legais e econômicos do empreendimento, ainda sem data para a conclusão do estudo. A Fatma informou que a Vale pediu o arquivamento do processo da fosfateira feito pela Bunge e a Yara e deve entrar com um novo projeto para a área, ainda sem prazo definido.

DIARIO CATARINENSE
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