Mãe relata momentos antes do assassinato do filho indígena Marco Favero/Agencia RBS

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

"Parecia um sonho", assim começou o relato de uma mãe que tinha acabado de perder o filho para a violência. Mas, no caso da índia Sônia da Silva, a cena tinha mais cara de pesadelo. Ela viu seu filho, Vitor Pinto, ser assassinado na última quarta-feira em frente à Rodoviária de Imbituba, no Sul de Santa Catarina. 

O menino de apenas dois anos fazia companhia a mãe em frente ao local. Segundo o coordenador substituto da Funai em Chapecó, Clóvis Silva, que ouviu o depoimento da mãe no dia seguinte ao homicídio, a família acreditava que o local era seguro. A mãe relatou que era próximo de meio-dia e o calor era grande. Vitor brincava embaixo de uma árvore e recebia comida da mãe quando um homem se aproximou. 

— Ela não desconfiou de nada. Viu um homem se aproximando e pensou que ou poderia vender algo ou que ganharia um presente. Ele chegou simpático, sorrindo e se aproximou da criança. Depois de passar a mão na cabeça dele, retirou um estilete do bolso, cortou a garganta de Vitor e foi embora  — conta Clóvis Silva. 

Vozes: o menino que virou formiga    

Segundo Silva, a mãe contou que a primeira reação que teve foi correr para dentro da rodoviária pedindo socorro, com o filho nos braços. Funcionários chamaram a polícia e atendimento médico. Vitor morreu antes de chegar ao hospital. 

— Ela está bastante abalada com a situação toda. Imagina, o bebê morreu nas mãos dela. Foi uma ação muito rápida, não tinha como ter reação. Ela conta que ele não deu justificativa, não falou nada. Apenas cometeu esse ato horrível e foi embora — lembra Clóvis. 

Um suspeito foi preso na noite do dia 31 de dezembro e levado para depoimento. Ele não deu uma justificativa para a ação e a Polícia trabalha com a possibilidade de surto ou de preconceito contra índios. 

— A mãe do Vitor está em dúvida sobre o suspeito que prenderam. Ela alega que acredita ser o homem que matou o filho, mas no dia do crime ele tinha o cabelo maior e usava um boné. Na prisão, ele estava com o cabelo raspado. 

A Delegacia de Imbituba não informou o conteúdo do novo depoimento do acusado, de 23 anos. Um ato em memória de Vítor Pinto está marcado para esta quarta-feira, 6, às 12h em frente à Rodoviária de Imbituba. 

Funai pede investigação da Polícia Federal

A Constituição Federal prevê que é dever da União a defesa dos direitos dos índios e que, se for constatado um crime contra ele, a Polícia Federal será responsável pela investigação. 

Segundo Clóvis Silva, a Fundação Nacional do Índio, em Brasília, já solicitou que a PF seja incluída no processo do assassinato de Vitor Pinto. Ela seria responsável por uma investigação paralela a já realizada pela Polícia Civil de Imbituba, sob o comando do delegado Rogério Taques

Já o artigo 59 do Estatuto do Índio garante um acréscimo de 1/3 da pena em caso de crime contra um índio "não integrado ou de comunidade indígena". 

— A aldeia (Condá) está muito revoltada. É o primeiro caso desse tipo que se tem notícia por aqui. Um pouco de alívio veio com a prisão do suspeito, mas o clima ainda é de indignação — aponta Clóvis. 

Assista ao relato do pai e da tia do menino durante o velório em Chapecó:


JULIA AYRES
 Veja também
 
 Comente essa história