Como traficantes do PGC montaram rede entre Brasil e Paraguai Guto Kuerten/Agencia RBS

Polícia Civil volta a apontar Nelson de Lima, o Setenta, como um dos principais traficantes de Santa Catarina.

Foto: Guto Kuerten / Agencia RBS

Ao abrir várias frentes de investigação após a última onda de ataques a ônibus, a órgãos de segurança pública e a policiais nas ruas de Santa Catarina, no final de 2014, policiais civis conseguiram identificar, mapear e prender uma extensa rede de traficantes que abastece o Estado e turbina uma série de outros crimes a partir da fronteira com mais três Estados e o Paraguai.

Além de desmantelar em uma nova ofensiva a estrutura financeira da facção Primeiro Grupo Catarinense (PGC), o trabalho revela a continuidade da intensa associação entre bandidos que estão presos e em liberdade numa conexão interestadual que envolve criminosos no Paraná, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, além do Paraguai.

A apuração sobre negócios ilícitos na região fronteiriça, cujos comandos demonstram nascer e se permear nas cadeias sob os olhos do Estado, está em mais de 3 mil páginas que levaram o juiz da unidade de apuração de crimes praticados por organização criminosas em Florianópolis, Rafael Brüning, a decretar 17 prisões preventivas — ao total são 21 envolvidos.

Policiais afirmam que foram identificados dois núcleos distintos aliados ao PGC encarregados do transporte de maconha, cocaína e crack das regiões da fronteira para SC. Os principais personagens apontados e incriminados são dois homens, um deles velho conhecido da polícia: Nelson de Lima, o Setenta, 42 anos, que mesmo atrás das grades há seis anos continua comandando ações no crime organizado.

Um dos fundadores do PGC no começo dos anos 2000 na Grande Florianópolis, Setenta está preso no Mato Grosso do Sul e usa a intensa rede de contatos que possui nas regiões fronteiriças com o Paraguai. Ele também seria elo entre os criminosos da facção Primeiro Comando da Capital (PCC), de São Paulo, que amplia os crimes e busca avançar em SC e no próprio Paraguai.

A surpresa na investigação é a ação apontada de Rodrigo Meirelles de Lara, o Doce, 27 anos, considerado disciplina geral do PGC nas cadeias do Paraná. Natural de Curitibanos e segundo policiais com atuação na região de Balneário Camboriú e litoral norte, Doce nunca esteve em complexas investigações policiais do Estado, mas agora figura com grande rede de contatos em Pedro Juan Caballero no Paraguai e subordinados ligados ao tráfico de drogas, de armas e também com assaltantes de caixas eletrônicos de Curitiba.

Rodrigo Meirelles de Lara, o Doce. Foto: Reprodução / PC

O bando de Doce seria dissidente ao comandado por Setenta e as escutas telefônicas da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic) demonstram rivalidade dele com o fundador do PGC. Um dos motivos seria a tentativa de Setenta em dominar o alto escalão do PGC, cujos principais líderes do 1º ministério estão reclusos desde 2013 em penitenciárias federais.

Monitoramento registra série de crimes
Policiais da Divisão Especializada de Combate ao Narcotráfico (Denarc) da Deic monitoraram dezenas de suspeitos pela movimentação de drogas entre SC e a fronteira com o Paraguai e a Bolívia. Na investigação surgiram confissões de crimes como homicídio, combinações para roubo de carros, sequestros e negociações de fuzis.

Coordenado no início pelo delegado João Adolpho Fleury Castilho, hoje em Joinville, o inquérito se concentrou principalmente em interceptações telefônicas de criminosos presos e fornecedores de drogas. Eles agem com sintonias, comparsas faccionados responsáveis por difundir delitos e informações, que usam o vasto conhecimento de contatos com outros bandidos para buscarem negócios criminosos como o tráfico de drogas.

Conseguem por exemplo fazer com que uma droga como a maconha saia da roça no interior do Paraguai e chegue a Chapecó ou que a cocaína vinda da Bolívia venha a ser entregue no interior de SC. Os sintonias também propagam os salves (ordens criminosas) do comando das facções e dos disciplinas com velocidade, agilidade e grande alcance.

"Nossas investigações demonstraram claramente que, a pseudo organização de presos, de diversas instituições penais espalhadas pelo País, fomentam a existência de facções criminosas como o PGC e o tráfico de drogas é intenso, sempre com a intermediação de quem está dentro dos sistemas prisionais dos Estados brasileiros", ressalta o delegado Fleury no inquérito.

Além de fazerem parte do PGC, os investigados demonstraram que possuem o próprio grupo para a prática dos crimes diversos. Integrantes agem e se articulam em nome da facção, buscam progresso para si no mundo do crime e consequentemente para o próprio grupo criminoso.

Fornecedores de outros Estados
A grande quantidade de entorpecente traficada na fronteira do Paraguai leva a polícia crer que de nada adianta combater o tráfico aqui no Estado se não houver investigação a fundo sobre os fornecedores de drogas do Paraná e Mato Grosso do Sul. A rede de criminosos associados, que formam consórcios para o transporte de drogas tem envolvimento com grandes barões da droga. Um deles, mapeado na investigação, que não encontrou provas suficientes para incriminá-lo, apontou Bernardo Pinazo Filho, o Tula, do Paraguai, conhecido como barão da maconha.

Ordens das cadeias
Assaltos, furtos, receptação e adulteração de veículos aparecem como outros crimes envoltos na organização criminosa que comanda o tráfico de drogas com a conexão catarinense e os outros estados até o Paraguai.

Nas conversas grampeadas, policiais verificaram que criminosos livres e presos buscam contatos que transportem a compra e venda de droga, principal fonte de renda da facção e dos membros, assim como todo e qualquer crime que possa trazer lucro. Das cadeias, saem ordens para delitos como o roubo em residência, ao comércio, de veículos, a bancos, sequestros, além de crimes contra a vida.

PCC
A presença do PCC de São Paulo, a maior quadrilha que age dentro e fora dos presídios brasileiros, é muito ampla, aparelhada e complexa e ficou confirmado na investigação que está tentando se instalar definitivamente no Estado catarinense. A proliferação é vista como catastrófica, pois espalha violência e mortes pelas cidades em confrontos entre os rivais, quadro que vem sendo constatado em Joinville e em Florianópolis no bairro Monte Cristo (Continente).

Os líderes 
Nelson de Lima, o Setenta

Catarinense, morava na Grande Florianópolis e é um dos criminosos fundadores do Primeiro Grupo Catarinense (PGC). Está na Penitenciária Federal de Campo Grande/MS, onde, em tese, continua articulando tanto a união entre PGC e o PCC, como participando ativamente do tráfico de drogas para SC. Possui muitos contatos dentro e fora do sistema prisional nacional, atuando principalmente com o PCC. Foi preso em 2010, em Florianópolis. Costuma fazer conferências com presos na cadeia por telefones celulares e exerce grande liderança no crime. Tem condenação por homicídio e outra por tráfico de drogas. 

Rodrigo Meirelles de Lara, o Doce
Natural de SC, vivia na região de Curitibanos e Balneário Camboriú, está detido em Iporã do Oeste, no Paraná. Foi preso quando transportava drogas de Ponta Porã (MS) para SC. Articula grandes remessas de drogas e armas para o Estado. Possui contatos em Curitiba com criminosos que realizam roubos a bancos com uso de explosivos e armamento pesado. Empresa armas e explosivos para o PGC em SC.

As demais prisões decretadas:
Jean Lucas de Oliveira, o Assombroso
Seria geral da rua do PGC, apareceu em escutas conversando sobre drogas e armas e a facção. Tem condenação por tráfico e associação.

Marlon Antônio Mageski, o Perereca
Foram identificadas mensagens dele tratando sobre carregamento de cocaína. Avisada pela Deic, a PRF prendeu uma mulher com dois quilos da droga. Em outra conversa, trata sobre a retirada de uma tonelada de maconha e 16 fuzis no Paraguai. Possui condenações por furto, tráfico e posse de drogas.

Maiko Jean Bernardo, o MK
Aparece em interceptações repassando por mensagem um salve geral dado pelo comando da facção. Tem condenação por tráfico e porte ilegal. Em carta enviada ao juiz, o preso nega envolvimento com organização criminosa e acredita que o confundiram com outro detento conhecido como MK.

Gilberto de Oliveira, o Chapecó ou Negão
Possui vínculo com Setenta e foi monitorado usando celular de dentro do Presídio de Chapecó em conversas para o comércio de drogas. Conversa também em grampos sobre a qualidade das drogas e fornecimento, demonstrando intensa comunicação por mensagens. Possui condenações por roubo, tráfico e associação para o tráfico. A advogada dele afirma que ele é inocente e que há meros indícios frágeis.

Carmem Lúcia Cação, a Madrinha
Associada a Setenta e Alef Caian de Almeida. Numa das conversas, comenta sobre planos de Gerê de mandar cocaína de avião para o Norte do País, além de depósitos e dinheiro. 

Jaqueline Gaboardi Teixeira, a Jaque
Aparece em conversas com Rodrigo Doce e Leandro.

Leandro Romalho, o Pantufa
Aparece em conversas.

Jesaías Ferreira, o Zaia ou Jesa
Aparece em conversas tratando de negociações de drogas. O seu advogado afirma que ele não cometeu crimes e que não há nos autos nada que o incrimine, o que ficará demonstrado.

Derbal Antunes Pinto, o Mato Grosso
Foram captados diálogos com suposta negociação de drogas.

Maria Angélica Andrade Silva
Presa em flagrante com dois quilos de cocaína.

Marcelo Ferreira França, o MB ou Marcelo do Beco
Aparece em conversas interceptadas sobre o tráfico.

 Nataliê Lacerda Pinheiro, a Nati
Aparece em conversas interceptadas sobre o tráfico.

Analu Antunes
Apontada como braço-direito de Chapecó e também aparece em interceptações. O advogado dela afirma que a prisão preventiva não tem respaldo, visto ser baseada em infundada suspeita e com o caminhar da instrução processual os fatos melhor se esclarecerão.

Giovane Antunes Machado de Paula
Auxiliar na implementação de ordens dadas por Gilberto. Apareceu em conversas sobre a apreensão de 40 quilos de maconha.

Alef Caian de Almeida, o Kauan
Aparece em conversas negociando drogas e ficou preso com Setenta na mesma cela em Corumbá, no MS.

Fonte: Deic e decisão judicial sobre prisões preventivas da unidade de apurações de crimes praticados por organizações criminosas em Florianópolis.

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