Em três anos, número de pedidos de falência e recuperação judicial dobra na construção civil de SC Marco Favero/Agencia RBS

Maykoll é um dos proprietários que ainda não pode comprar no imóvel

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Os pedidos de falência e recuperação judicial de construtoras e empreendedoras em Santa Catarina dobraram entre 2013 e 2016, conforme dados da Junta Comercial do Estado (Jucesc). O salto de 322 para 639 solicitações é encarado pelo setor como uma demonstração do agravamento da crise econômica, que afeta diretamente o poder de compra da população e, consequentemente, o caixa das empresas da construção civil.

A consequência mais visível e cruel nesse cenário é o atraso ou a não entrega de empreendimentos — boa parte deles já até quitados, mas com proprietários impossibilitados de entrar. É o caso de Maykoll Carvalho, que comprou em 2014, ainda na planta, um apartamento no Palazzo di Venezia Residence, da construtora Álamo, em Florianópolis. Com previsão inicial de entrega em abril de 2016 e depois outubro do mesmo ano, o residencial até hoje continua em obras. Embora em fase avançada — cerca de 95% concluída — a construção não sai desse patamar há quase seis meses. Sem os acabamentos, não há liberação de todos os órgãos necessários e as chaves continuam longe das mãos de quem pagou por elas.

— A gente fica na expectativa e não recebe, é muito difícil. A construtora parou a obra e ninguém dá satisfação, a Caixa (que financiou os imóveis) também não — reclama Maykoll, que precisa morar de aluguel enquanto a obra não termina.

Ao lado da esposa e dos dois filhos, ele afirma já ter pago 15 mil de juros sem nem ter dado início à amortização da dívida junto à Caixa, fora o gasto com o aluguel e a parcela do apartamento.

Com pouco fluxo de caixa, empresas diminuem o ritmo 

O Sindicato da Construção Civil da Grande Florianópolis (Sinduscon) reforça que essas situações são preocupantes não só pelo prejuízo aos clientes, mas também pelo desemprego que a suspensão das atividades de uma construtora causa.

— A crise tem levado empresas a atrasar o cronograma de obras e a entrega. Afeta o setor porque não há venda e precisa de recurso pra dar ritmo à obra, com regularidade. Sem comercialização, a construtora é obrigada a diminuir o ritmo pra ter equilíbrio no fluxo de caixa. Muitas vezes a obra não está nem parada, mas anda muito lentamente, condizente com o caixa da empresa — explica o presidente da entidade, Helio Bairros.

O Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SC), que fiscaliza os corretores e empresas, destaca a importância da pesquisa e da informação na hora de comprar um imóvel e a necessidade de um acompanhamento rigoroso de todo o andamento do processo por parte do consumidor. Entre as orientações do conselheiro federal do Conselho, Irineu Celso Ludvig, estão ficar por dentro de todos os detalhes do contrato de compra e venda e fazer uma varredura sobre a construtora, incluindo o histórico de entrega de empreendimentos e as certidões junto a órgãos oficiais.

O Sinduscon avalia que para 2017 a sinalização é de uma lenta recuperação do mercado, com expectativa de uma retomada mais sólida nos últimos meses do ano e principalmente a partir de 2018.

Problemas por todo o Estado

Os problemas com atrasos em entregas se repetem pelo Estado e têm um passo a passo quase uniforme: compra do empreendimento na planta, previsão inicial de entrega, atraso, adiamento da entrega, paralisação das obras e total desinformação aos compradores sobre o futuro das empreitadas. Muitos ainda têm o "diferencial" de uma troca de construtora no meio do caminho para dar continuidade aos trabalhos — o que nem sempre é garantia de sucesso.

No Village da Pedra, na Pedra Branca, em Palhoça, a situação é ainda mais extrema. O empreendimento, com mil apartamentos, foi lançado pela Vita Construtora em 2013 e tinha previsão de conclusão em 2016. Até hoje, sequer passou da fase de terraplanagem e os funcionários também estão sem receber pagamento pelo trabalho.

— Já gastei mais de R$ 40 mil e nem começou a obra. Antes a alegação era que a empresa estava mal das pernas, aí foi vendida (para uma companhia de São Paulo), nos enrolaram e ninguém mais sabe o que aconteceu. Eu e minha esposa tivemos que ir morar com minha sogra pra sair do aluguel — desabafa o comprador Renan Heidenreich.

A Vita foi vendida para a AllJaber Company Holding, especializada na recuperação e reestruturação de empresas. Procuradas, as duas companhias não quiseram se manifestar.

Em Barra Velha, Mário Cavilha comprou um apartamento do Residencial Efraim na planta, em 2011. A primeira data para conclusão era 2013, mas houve adiamentos que duram até hoje. A Construtora Almeida já teria dado várias justificativas, desde problemas financeiros até embargo por rachadura em uma construção vizinha à obra que teria atrasado os serviços. O empreendimento está 95% mas ainda não há novo prazo.

— Já compramos todos os móveis, está tudo lá encostado, tem móveis pagos em lojas e não posso usar — diz Cavilha.

A reportagem tentou contato com representantes da construtora durante uma semana, mas ninguém foi localizado nem houve retorno às ligações.

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