Pagamentos de vantagens indevidas para favorecimentos posteriores, ou propina; e recursos não declarados para campanhas eleitorais, ou caixa 2. As investigações contra políticos catarinenses citados na lista de Fachin giram entre esses dois temas. São 10 nomes, sendo quatro com apuração no STF. Seis deles têm foros diferentes e serão analisados em outras instâncias da Justiça. Com base nas reportagens do Diário Catarinense e Jornal de Santa Catarina, veja abaixo o que pesa contra cada um dos políticos.

Raimundo Colombo (PSD)

Delatores Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos Reis e Paulo Roberto Welzel relataram "o pagamento de vantagens, no valor de R$ 2.000.000,00 (dois milhões de reais), de forma não contabilizada" para a campanha de Colombo em 2010. Segundo o texto do documento, a negociação teria sido intermediada por Ênio Branco "e os valores foram entregues a José Carlos Oneda". De acordo com os delatores, a contrapartida da doação ilegal "em caso de vitória eleitoral" seria "o favorecimento do Grupo Odebrecht na área de saneamento básico". A petição que cita Colombo foi remetida ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde são analisadas as ações que envolvem governadores. 

O que diz Colombo:

"Conforme foi informado desde a primeira vez, a empresa Odebrecht não tem nenhum contrato, obra ou projeto com o Governo do Estado de Santa Catarina, não tendo sequer participado de licitações desde o início da atual administração em janeiro de 2011. O Governo do Estado aguarda a abertura do sigilo das informações para prestar todos os esclarecimentos cabíveis."

Dalírio Beber (PSDB)

Um dos principais nomes do PSDB em Santa Catarina e integrante da alta cúpula do partido em Blumenau, o senador Dalirio Beber aparece como suspeito de intermediar um pagamento de R$ 500 mil em 2012 à campanha a prefeito do também tucano Napoleão Bernardes. Nas cinco páginas do inquérito de número 4.457, o relator ministro Edson Fachin o aponta como suposto articulador para o recebimento do dinheiro que seria, segundo o documento do Supremo Tribunal Federal (STF), "com o objetivo de buscar apoio à manutenção dos contratos de saneamento de água e esgoto" da empresa Foz do Brasil – hoje Odebrecht Ambiental 

O que diz o senador:

"Recebo com surpresa a inserção do meu nome no rol dos investigados. Não tive, até o presente momento, qualquer acesso ao processo para conhecer o conteúdo do que me é atribuído. Rechaço com veemência toda e qualquer denúncia de prática de ilícitos. Estou indignado, mas absolutamente tranquilo, pois minha consciência em nada me acusa. Digo à sociedade brasileira, em especial aos catarinenses, que sempre confiaram em mim, que espero que rapidamente a verdade seja restabelecida. Neste momento, coloco-me inteiramente à disposição da Justiça."

Ideli Salvatti (PT) e Carlito Merss (PT)

A petição número 6754 assinada pelo ministro Edson Fachin aponta o suposto pagamento de R$ 300 mil do grupo Odebrecht para a ex-ministra Ideli Salvatti (PT) nas eleições de 2010, quando ela era candidata ao governo de Santa Catarina. Segundo as delações dos ex-diretores da Odebrecht Valter Luis Arruda Lana e Benedicto Barbosa da Silva Júnior, o repasse teria sido um pedido do também petista Carlito Merss, ex-prefeito de Joinville. 

Valter Luis Arruda afirma, em depoimento, que foi procurado por Merss, então prefeito de Joinville, em agosto daquele ano. A reunião entre Merss e o então diretor da empreiteira, marcada por telefone, teria acontecido no escritório da Odebrecht no Centro de Curitiba (Av. Marechal Deodoro). Posteriormente, Benedito da Silva Junior aprovou a doação. O valor, de R$ 300 mil, foi sugerido pelo próprio Valter.

Teriam sido realizados dois pagamentos com dinheiro em espécie no mês seguinte ao pedido, em setembro. Ainda segundo Valter, Merss teria indicado uma senhora de aproximadamente 35 anos, cujo nome o delator disse não se lembrar, que recebeu em São Paulo as senhas e endereços das entregas dos valores. O delator ainda afirma que nunca chegou a se encontrar com Ideli.  

O caso será analisado pela Justiça Federal catarinense. Nas eleições de 2010, Ideli ficou na terceira colocação, atrás de Ângela Amin (PP) e do governador eleito Raimundo Colombo, então do DEM. 

Ideli já foi citada em outras delações da operação Lava-Jato. Na mais recente, em janeiro do ano passado, o ex-diretor da Petrobrás, Nestor Cerveró, afirmou que Ideli tratou diretamente da renegociação de uma dívida de cerca de R$ 90 milhões da empresa catarinense Transportes Dalçóquio com a BR Distribuidora, um braço da estatal de petróleo. Na época, Cerveró disse que a petista teria recebido propina pela ajuda. 

O que dizem Ideli Salvatti e Carlito Merss 

Procurada pela reportagem, a ex-ministra Ideli Salvatti afirmou que não se encontrou com o delator, e não pediu nem recebeu dinheiro do delator. 

Sobre a delação de Cerveró, Ideli se manifestou por meio de nota:

"No que se refere a minha pessoa, a delação do Cerveró se confirmou como uma deslavada mentira e foi sumariamente arquivada. Mantenho-me absolutamente tranquila e à disposição das autoridades para prestar qualquer esclarecimento e com a certeza, de que como no caso da falsa delação do Cerveró, comprovarei que as doações à minha campanha eleitoral ao governo de Santa Catarina em 2010 foram declaradas e aprovadas pelos órgãos competentes, e que minha conduta pública é regida pelos princípios da ética, moral e legalidade."

O ex-prefeito de Joinville Carlito Merss também foi procurado pelo DC, mas, até a publicação desta matéria não havia dado retorno. 

Décio Lima (PT) e Ana Paula Lima (PT)

O pedido de abertura de inquérito sobre o deputado federal Décio Lima se baseia em suposto pedido dele de pagamento de vantagens para a campanha eleitoral da esposa, Ana Paula Lima, na campanha para prefeito de 2012. Ao Ministério Público, os delatores Paulo Roberto Welzel, ex-diretor da Foz do Brasil (atual Odebrecht Ambiental, responsável pela exploração do serviço de água e esgoto em Blumenau), e Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos Reis, fundador e ex-presidente da mesma empresa, relataram o pagamento de R$ 500 mil, não contabilizados na campanha. Os valores teriam sido registrados pelo setor de Operações Estruturadas, o departamento de propinas da empresa. A beneficiária foi identificada nas planilhas pelo apelido "Musa".

O dinheiro para Ana Paula Lima (a "Musa") teria sido enviado à campanha da então candidata a prefeita de Blumenau como uma "contrapartida a interesses da empresa, notadamente na área de saneamento básico, espaço em que almejava atuar como concessionária", conforme o segundo parágrafo do inquérito 4.457, assinado por Fachin. O texto ainda destaca que esse repasse não foi contabilizado na corrida eleitoral, o que é ilícito.

O que diz Décio Lima

"Em relação à menção do meu nome nas investigações do Supremo Tribunal Federal, recebo com tranquilidade, uma vez que confio que a verdade prevalecerá e a justiça será feita. Declaro que sou o maior interessado no esclarecimento de toda esta situação. É importante destacar que não sou réu e nem investigado em nenhum processo da Lava Jato. A minha vida pública sempre foi pautada pela ética, lisura e transparência e a minha história demonstra a preocupação com a legalidade de todos os meus atos."

O que diz Ana Paula Lima

"Em relação à citação do meu nome nas investigações do Supremo Tribunal Federal declaro serenidade e estou à disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos. Afirmo que não sou ré e nem investigada em nenhum processo da Lava Jato.Afirmo que as doações à minha campanha eleitoral foram declaradas e aprovadas pelos órgãos competentes, e que minha conduta pública é regida pelos princípios da ética, moral e legalidade."

Napoleão Bernardes (PSDB)

O prefeito de Blumenau  entrou na relação de 98 investigados da lista do ministro Edson Fachin em razão de suspeitas de corrupção ativa, passiva e lavagem de dinheiro. O inquérito 4.408 do STF, de cinco páginas, mostra que o pedido de abertura de inquérito enviado pela Procuradoria-Geral da República ao STF se baseia em depoimentos de Paulo Roberto Welzel, ex-diretor da Foz do Brasil (atual Odebrecht Ambiental, responsável pela exploração do serviço de água e esgoto em Blumenau), e Fernando Luiz Ayres da Cunha Santos Reis, fundador e ex-presidente da mesma empresa. Segundo informações do Ministério Público, um dos delatores informou que nas eleições de 2012, após uma reunião com o hoje senador Dalirio Beber (PSDB), teriam sido entabulados repasses ao candidato do PSDB no valor de R$ 500 mil. 

O que diz Napoleão Bernardes

Em entrevista ao Jornal de Santa Catarina, o prefeito Napoleão Bernardes disse receber com perplexidade a notícia e citou a negociação em que a Odebrecht Ambiental solicitou revisão do equilíbrio econômico-financeiro do contrato para a operação em Blumenau, quando teria solicitado uma auditoria para rever valores que anteriormente já haviam sido reconhecidos pela Prefeitura de Blumenau. 

— Nunca me envolvi em nenhuma de minhas eleições com questões relacionadas a doações eleitorais, e eleito prefeito, a primeira relação administrativa que tive com a Odebrecht foi justamente me posicionar em favor da cidade, contrário aos interesses da Odebrecht. Justamente por cumprir minha missão e meu papel que é defender os interesses da cidade — disse o prefeito.

Jean Kuhlmann (PSD)

Conforme o documento do Supremo Tribunal Federal (STF), o político teria recebido dois valores distintos, nos anos de 2004 - quando ainda era vereador por Blumenau - e 2012 - já quando concorria à prefeitura da cidade. Na primeira vez, ele teria recebido o valor de R$ 65,6 mil que consistiam na facilitação de recebimento de faturas de serviços prestados e não pagos. O repasse teria sido intermediado pelo atual diretor de Desenvolvimento de Negócios da Odebrecht, João Borba Filho.

Cinco anos atrás, segundo o inquérito, Kuhlmann supostamente recebeu R$ 50 mil em doação de campanha não contabilizada, conforme delação de Paulo Roberto Welzel, ex-diretor da Foz do Brasil. No entanto, no depoimento de Wenzel, divulgado nesta quarta-feira, o valor pago pela Odebrecht Ambiental ao deputado estadual, na época, teria sido de R$ 500 mil. Kuhlmann era tratado pelo codinome 'Alemão'. No depoimento, Wenzel detalha que o próposito da empresa "era ter um interlocução positiva com o vencedor do pleito eleitoral". O documento ainda pontua que a operacionalização dos pagamentos foi feita diretamente nos diretórios de campanha do candidato.

O que diz Jean Kuhlmann

"Recebo com surpresa a informação de que meu nome consta em petição remetida para o 4º TRF, referente às investigações divulgadas pelo Supremo. Jamais tratei de qualquer assunto relacionado a campanhas eleitorais, e sobretudo recursos para campanhas, com empregados e executivos e empresas citadas, tampouco conheço qualquer um deles. Minhas contas eleitorais sempre foram aprovadas e apresentadas dentro do rigor que exige a Justiça Eleitoral, e dentro da transparência pela qual sempre pautei minha trajetória. Confio no bom trabalho da Justiça, e tenho certeza que as investigações irão mostrar a verdade dos fatos. Meu maior interesse é que toda essa situação seja esclarecida, o quanto antes."

Roberto Carlos (PSDB)

O ex-prefeito de Navegantes, Roberto Carlos, é apontado nas delações encaminhadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao STF com receptor de "doação eleitoral não contabilizada", ou o termo mais conhecido pelos brasileiros: caixa 2. O relato está na delação de Paulo Roberto Welzel, ex-presidente da Foz do Brasil, empresa do grupo Odebrecht. Edson Fachin, ministro relator da Lava-Jato no Supremo, declinou o caso para a Justiça Federal de Santa Catarina, que analisará sobre a abertura de inquérito. As delações são referentes aos documentos encontrados em 2016 na casa do ex-diretor da Odebrecht, Benedicto Barbosa Silva Júnior. Na planilha, o nome de Welzel aparece sendo o responsável pelo pagamento de R$ 500 mil para Roberto Carlos nas eleições de 2012, através Setor de Operações Estruturas, que organizava as propinas da Odebrecht. Na lista, o tucano é apelidado de "rei".

O que diz Roberto Carlos:

Procurado pela reportagem, Roberto declarou: "No momento só posso afirmar que minha campanha foi feita dentro da legalidade sendo aprovada pela Justiça Eleitoral."

Jaison Cardoso Souza (PSDB)

A suspeita contra Jaison Cardoso Souza é de recebimento de "pagamento de vantagem não contabilizada" nas eleições de 2012, quando o tucano foi eleito. A delação sobre o ex-prefeito foi feita por Paulo Roberto Welzel, ex-presidente da Foz do Brasil, empresa do grupo Odebrecht e faz referência aos documentos encontrados ainda em 2016 pela Polícia Federal na casa de um dos diretores da construtora. Com o apelido de "surfista", Jaison aparece como receptor de R$ 300 mil do Setor de Operações Estruturadas da construtora, que gerenciava a propina para políticos e partidos, entre agosto e setembro de 2012. 

O que diz Jaison Cardoso Souza

Procurado pela reportagem, Jaison disse que não mantém contato funcionários da Odebrecht e que nos últimos 12 anos a prefeitura de Imbituba não fez nenhum tipo de negócio com a empresa. 

— Posso dizer que estou surpreso, mas fico à disposição da Justiça para esclarecer qualquer situação — concluiu.

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