Polícia de Mafra investiga morte de bebê após 15 horas de espera por ambulância Reprodução/¿?lbum de família/

Heloisa tinha apenas um ano e 20 dias

Foto: Reprodução/¿?lbum de família

A Polícia Civil de Mafra, no Planalto Norte de Santa Catarina, vai investigar as circunstâncias que envolvem a morte da menina Heloisa Mathias Lisboa, de apenas um ano e 20 dias. O inquérito foi aberto na última terça-feira (13), depois que os pais da criança relataram à demora de aproximadamente 15 horas para a transferência da menina do Hospital São Vicente de Paulo para o Hospital Infantil de Joinville, onde a pequena faria tratamento especializado contra uma pneumonia.

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O motivo da demora seria a falta de combustível na UTI móvel do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) que levaria a menina de um hospital a outro. O relato foi feito pelos pais de Heloisa, Alexandro Lisboa e Edilaine Mathias, em um Boletim de Ocorrência (BO) registrado na última segunda-feira e que deu origem a investigação. Eles consideram que houve descaso na transferência da filha. A menina faleceu no sábado após sofrer três paradas cardiorrespiratórias.

Edilaine Mathias e Alexandro Lisboa, pais de Heloísa Foto: Luan Martendal / Agência RBS

– Diziam que tinha médico, tinha tudo, menos o combustível. Então eu dizia "me ajude, é a vida da minha filha, ela está quase indo embora, está quase sem respirar. Se for por falta de combustível, vamos colocar". Eu implorando ali na frente da ambulância parada e eles diziam que não podia – conta o pai.

O delegado Nelson Vidal,  é responsável pelas investigações e vai apurar se houve negligência  Foto: Andre Buzzi / Agência RBS

Segundo a mãe de Heloísa, ela nasceu prematura e lutava contra a bronquite desde o primeiro dia de vida. Na noite de 6 de junho, a criança teve outra crise respiratória, só que os remédios não surtiram efeito. A família então levou a criança para o hospital de Mafra na madrugada do dia 7 (quarta-feira). Segundo o relatório de atendimento da paciente, ela deu entrada no local por volta das 4h20 com hipótese diagnóstica de broncopneumonia.

Na manhã do dia seguinte, a médica que acompanhava a evolução do quadro clínico da paciente solicitou a transferência emergencial dela para o Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville. Lá a criança receberia cuidado especializado. O hospital solicitou o leito hospitalar em Joinville por volta das 8h de quinta-feira e teve o pedido aceito. 

Conforme o relatório, na sequência foi solicitado uma ambulância de Mafra, equipada para esse tipo de transferências, junto à coordenadoria do SAMU da região de Joinville. A resposta, ainda conforme a instituição veio às 11h50. O órgão informou que `as ambulâncias de Mafra e Canoinhas estavam baixadas pela falta de combustível¿ e que era necessário entrar em contato com a Secretaria de Saúde.

Ossimar Carlos Friedrich Filho, coordenador de enfermagem do Hospital de Mafra, diz que a instituição fez o pedido de transferência conforme mandam os protocolos. O hospital estabeleceu contato com o SAMU, responsável por grande parte das transferências, principalmente os pacientes em condições mais graves e que necessitam de uma unidade móvel de urgência.

– No primeiro momento, alegaram a dificuldade financeira para o abastecimento das ambulâncias e que esse era um problema que estava ocorrendo não só em Mafra, mas no Estado – conta.

Os pais da menina, membros da equipe médica e da Secretaria Municipal de Saúde se ofereceram para pagar o combustível necessário para fazer a viagem, mas o pedido teria sido negado. Segundo o pai de Heloisa, a justificativa era de que não havia possibilidade de a ambulância ser abastecida por terceiros. A família conta que, com o entrave, no início da tarde, houve a tentativa de realizar a transferência da criança com auxílio do helicóptero da 2ª Companhia da Polícia Militar de Aviação, mas devido às más condições climáticas, a aeronave não conseguiu decolar naquele dia. A informação foi confirmada pela 2ª Companhia, que recebeu a solicitação, mas disse que por questões climáticas e de segurança não tinha autorização para voar.

Uma terceira tentativa chegou a ser feita. Uma ambulância de Rio Negrinho, município vizinho, foi enviada para Mafra, mas por se tratar de uma unidade básica teria que ser equipada para a viagem. Além disso, verificou-se que a equipe médica de plantão não estava completa, o que impedia a transferência.Alexandro e Edilaine foram então aconselhados a contratarem um serviço particular para fazer a viagem. Enquanto procuravam pelo serviço, foram informados de que a ambulância do Samu de Canoinhas iniciaria o transporte da menina, mas por não ter combustível suficiente para chegar em Joinville, seguiria viagem até Rio Negrinho, onde uma outra ambulância, vinda de Jaraguá do Sul, continuaria a transferência.

O período de espera, entre a solicitação do translado e o início da viagem durou cerca de 15 horas. Conforme a instituição, nesse tempo, o quadro da menina piorou e ela precisou ser entubada. A ambulância com a paciente saiu do Hospital São Vicente por volta das 23h30 da última quinta-feira e chegou a Joinville cerca de três horas depois.

– Nós tínhamos um quadro clínico no início da manhã e, com o passar do tempo por causa dessa dificuldade em conseguir o transporte, acabou se agravando. A gente não tem como afirmar todo o quadro clínico porque mesmo após a transferência a gente não sabe como seria a evolução dela em Joinville. Todo suporte que o hospital poderia ter dado foi dado, mas não tem como afirmar que essa criança teria sobrevivido se fosse feita a transferência [mais rapidamente] – explica Ossimar.

A menina permaneceu internada em Joinville até o último sábado, quando morreu. Heloisa foi velada em Mafra e enterrada no domingo no Cemitério Municipal.

– O vazio que estamos sentindo é para a vida inteira e sabemos que não tem como ela voltar. Queremos saber: se houver um culpado, quem vai responder por isso? Queremos evitar que casos como esse voltem a acontecer com outras famílias – desabafa a mãe.

A Secretaria de Estado da Saúde admite haver pendências financeiras com o SAMU e informou que fez um depósito na semana passada de R$ 1,5 milhão. Disse ainda que vai apurar os fatos. Já a Organização Social Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), que administra o SAMU, informou que irá averiguar o ocorrido e que se manifestará após a apuração.

A Procuradoria da República de Mafra foi procurada pela família na semana passada e está ciente da situação. Segundo o promotor Alicio Henrique Hirt, amanhã está prevista a abertura de um procedimento para apurar o caso.

A triste história ganhou destaque nas redes sociais após o tio da menina, Alexandre Lisboa, que é radialista em Jaraguá do Sul, compartilhar o vídeo abaixo:


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