"A economia começa a dar sinais de retomada, mas ainda são incipientes", diz ex-ministro da Fazenda Marco Favero/Agencia RBS

Foto: Marco Favero / Agencia RBS

Rubens Ricupero ficou conhecido como o sacerdote do Plano Real em 1994. À frente da implementação do pacote econômico que tinha o objetivo de combater a inflação, o ex-ministro da Fazenda não poupava entrevistas para esclarecer a população sobre os objetivos do governo. Tanto que até hoje credita à comunicação parte importante do sucesso do plano. 

Aos 80 anos, ele se prepara para lançar o livro "A diplomacia na construção do Brasil", em outubro. O ex-embaixador esteve em Florianópolis, onde falou em um evento do Conselho Regional de Economia de Santa Catarina (Corecon-SC). À coluna, analisou o contexto econômico brasileiro. 

Temos um cenário de inflação muito baixa, crescimento estagnado e desemprego. Olhando em retrospecto, é o momento mais difícil que a economia brasileira já enfrentou?

Olhando apenas para o lado da economia, sem levar em conta a crise política e moral, nesse momento nós começamos a ter os primeiros sinais de que o Brasil está saindo de uma crise que sem dúvida foi a mais grave em termos econômicos da história. Essa crise começa há três anos, ainda  no governo da Dilma Rousseff. No final de 2015, quando começa o processo de impeachment, a economia já estava caindo quase 4%. Naquele momento já havia uma taxa de desemprego de 11%. Paradoxalmente, a inflação naquele momento estava subindo mais de 9% e a situação do déficit público se agravava a cada momento. O nosso déficit público nominal passou de 3% a 10% no governo passado. É a causa principal dos nossos males.

Já há sinais de recuperação muito tímidos, muito iniciais, crescimento próximo de 1%. Pela  primeira vez, a economia começa a gerar emprego. Esse é o último sinal da economia que aparece numa recuperação. Infelizmente essa parte é a que mais demora do ponto de vista. Talvez o setor mais brilhante da economia brasileira no momento é o externo. É um fato singular, porque as crises brasileiras no passado, quase todas elas se deram pelo que os economistas chamam de estrangulamento do setor externo. Havia um momento em que o país não tinha mais dólares para pagar as importações. Havia um déficit muito grande nas contas externas. 

Esses números são fatos indiscutíveis. É indiscutível que a economia começa a dar sinais de retomada, mas ainda são incipientes. A indústria ainda está com uma capacidade ociosa alta, de 74%. Por isso, não investe, e sem investimento o horizonte do crescimento é limitado.

Para garantir um crescimento melhor no futuro é preciso aumentar o investimento. Para aumentar o investimento, o fator mais importante é  confiança no futuro. Com uma crise política desse ordem, a confiança no futuro, a retomada fica abalada. Não se pode isolar a crise política da econômica. 

Vivemos uma crise mais política do que econômica?

A atual crise começou por razões política, não foi um fator econômico que desencadeou. O governo anterior no intuito de ficar no poder usou para ganhar eleição o gasto público. Gastou além do que a economia permitia. No começo do governo gastava muito, mas a arrecadação também crescia muito e a gente não percebia. Foi aquele momento do boom das commodities, com a receita crescendo de 10% a 11% ao ano. Só que o governo conseguiu gastar mais que 11% a 12% ao ano. No novo governo da Dilma persistiu isso. Um caso claro é o Fies. Ele teve um aumento a partir de 2013. Passou de R$ 300 mil para mais de R$ 1 milhão. Hoje está com inadimplência de 49% e esse era mais um esqueleto que estava no armário. Só o Fies representa um rombo de R$ 7 bilhões no déficit público.

A equipe econômica está estudando ampliar novamente a meta fiscal. Como o senhor avalia o impacto disso?

É inevitável. É a chamada tirania dos números. Quando se examina o gasto público no último ano desde o impeachment os gastos que dependeriam da vontade do governo foram bem reduzidos. Já os gastos automáticos previstos por lei, muitas vezes a Constituição, como pagamento da previdência e outras obrigações sociais, aumentaram muito. Desde 1991 até 2015 se nota que há um aumento do gasto público na ordem de 8,5% e se nota que quase a metade disso, 4,5%, são gastos sociais previstos na constituição. São ideias generosas que ajudam a combater a miséria absoluta, mas que pesam muito. Quando a economia está crescendo bem ainda dá para acomodar, mas quando não está não tem como. 

Como o senhor avalia a atuação da equipe econômica do governo Temer. Está acertando mais do que errando?

Está acertando mais. Embora ache que o Banco Central ainda é excessivamente cauteloso. A redução  da taxa de juros deveria ser mais rápida. O que conta para a economia não é a taxa nominal, mas a real, descontada a inflação. Se a inflação está caindo muito velozmente, o resultado de uma simples conta de subtração que é a taxa Selic menos a inflação permanece a mesma, fica em níveis muito altos. O resto que a equipe do governo está tentanto fazer é bastante positivo. Pela primeira vez em muitos anos, voltamos a ter uma política fiscal mais responsável, mas com uma herança muito desfavorável. No começo não vai dar para ter um avanço muito grande. Eu entendo que nós só vamos conseguir um avanço fiscal com um plano plurianual. Um horizonte de cinco anos. O Brasil precisa de um horizonte. As pessoas todas se queixam que não temos mais um projeto de país. A proposta que eu faço é que nós deveríamos chegar ao bicentenário da Independência, setembro de 2022, com metas bem melhores do que hoje em tudo. Inspiradas nas metas do Milênio da ONU. Nós devíamos ter uma meta de inflação em 2%, crescimento per capita em 2,5%, taxa de juros real de 4%, taxa social de redução da desigualdade. Aumento de emprego. Nos por em acordo, na ONU é assim que se faz, passei 10 anos da minha vida lá. Metas quantitativas, com números. É perfeitamente possível. Isso deveria se estender para os Estados e municípios, porque há muitos atuando de maneira fiscal irresponsável.  

O que a experiência do Plano Real pode ensinar para o país neste momento?

Eu valorizo, das muitas coisas que houve, a comunicação com a população. O Plano Real, diferentemente dos anteriores, não tinha pacote misterioso. Tudo era anunciando com 20 dias, um mês de antecedência. Tudo foi transparente e feito com muita informação. Eu me empenhei. A cada 10 dias eu ia à televisão, explicava porque o programa ia dar certo. Isso está faltando a esse governo. É lamentável a comunicação desse governo, a incapacidade de explicar porque a previdência tem que ser modificada. Era preciso que tivesse hoje, atualizado, com a realidade de hoje. Naquele momento nós fizemos um esforço com relação ao desafio da época, que era a hiperinflação. Quando eu entrei, a inflação era de 70% a 80% e teve um momento que a inflação diária era de 2,5% ao dia. Então eu tive que me esforçar nisso. Qual era a mensagem? Era mostrar à dona de casa, ao aposentado, ao operário que o maior interesse da estabilidade econômica era com quem ganhava pouco. Quem tinha muito dinheiro, deixava no exterior e ganhava no overnight. Agora, quem ganhava pouco, quando recebia o salário, ele já não valia nada. E nós conseguimos, com um esforço didático, explicar ao povo. O povo é inteligente, ele entende o dia a dia da economia. Essa foi uma conquista que ficou porque apesar de todas as barbaridades que se cometeram em política fiscal não se cometeu o descontrole da inflação. Ela chegou a subir, mas agora está controlada. Agora, não conseguimos fazer isso em matéria fiscal. Explicar para a população porque não podemos gastar mais do que recebemos. Isso todo mundo sabe na vida particular. Agora, na vida pública, não sei porque, as pessoas acham que não. Precisamos, daqui para a frente, mostrar que isso não é incompatível com melhorar a vida das pessoas. No fundo, o grande debate no Brasil é o pessoal de esquerda dizendo que se houver ajuste fiscal, os direitos serão reduzidor. Se ela quiser no futuro ter êxito e ficar no governo precisa conciliar as duas coisas. O governo precisa ensinar à população porque a reforma da previdência é importante. Não é propaganda. Não é a mesma coisa que fazer uma campanha para vender sabonetes. É informação para a população.

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